O testamento de Fernando Lyra

Sebastião Nery

Ainda bem que ele não se foi em silêncio. Virtuoso da palavra como poderoso orador popular e sobretudo como irresistível articulador político e encantador de gente, Fernando Lyra não imaginava que estava deixando seu testamento público quando lançou, três anos atrás: “Daquilo Que Eu Sei – Tancredo e a Transição Democrática”, um quadro fiel e tenso do Brasil da metade do século passado, seu tempo e sua geração.

– “Aprendi a construir no dia a dia um dia diferente do outro, cada dia um dia especial e único. Uma ação necessariamente transformava outra, traço impeditivo de rotinas e planejamentos a longo prazo e assim a minha estrada foi construída sem mapas, nem guias, nem calendários”, disse Lyra.

O livro (Ed. Iluminuras) já abre com preciosos testemunhos de amigos que o conheciam de sempre e foram a base de sua equipe no ministério da Justiça: Cristovam Buarque, Marcelo Cerqueira, Luciana Pimentel, Joaquim Falcão, Paulo Cavalcanti Filho, Mauro Santayana.

BRIZOLA

O mais completo perfil do livro é naturalmente de Tancredo. Depois, Ulysses, Arraes, Jarbas, Sarney. Mas o de Brizola é imperdível:

– “Tenho uma opinião que talvez surpreenda muita gente: embora tenha sido governador do Rio, com prestígio extraordinário, Brizola não conseguiu avançar em determinados setores dos “novos tempos”. Um exemplo: ele morava no sexto andar de um edifício na Avenida Atlântica, o diretório da campanha foi instalado no primeiro andar, e o estúdio de TV para a preparação do programa eleitoral ficava no segundo andar do mesmo prédio.Isso dá a ideia de como era centralizador”.

“Enquanto Collor, Lula e Covas faziam campanhas modernas, a nossa estava longe disso. Em algumas situações eu ficava com a impressão de que Brizola não dava nenhuma importância a andar atualizado, porque nutria a convicção de que seria um vencedor natural, por antecipação”.

VICE-RESIDENTE

Deputado federal de seis mandatos, ministro da Justiça do governo Sarney, candidato a vice-presidente na chapa de Brizola em 1989, a extrema sensibilidade política de Fernando Lyra levou-o a desenhar e registrar, em poucas paginas, um sutil e magistral retrato de Leonel Brizola:

– “Nunca consegui levar Brizola à Bahia, na campanha. Até que, ao apagar das luzes, marquei um comício na cidade de Governador Valadares, no interior de Minas Gerais. Brizola assegurou que iria. Junto seguiria conosco Gilberto Gil, que nos apoiava. Então fomos, eu e Gilberto Gil para Governador Valadares, esperar Brizola, e já de noite recebi um recado de Curitiba no qual Brizola dizia que não poderia vir ao comício. Claro que a multidão reunida ouviu com muito prazer e alegria Gilberto Gil, mas o meu discurso, substituindo Brizola, foi assistido com uma frieza que doeu”.

“É preciso dizer que Brizola não gostava de delegar ações aos coordenadores de sua campanha, a não ser circunstancialmente. O fato mais interessante do seu comportamento tão peculiar durante a campanha se deu, ironicamente, na sua cidade. Ele me pediu para inaugurar o seu comitê de campanha em Porto Alegre e não ele. Argumentei que isso poderia ser visto como um descaso com o seu maior eleitorado. A sua ausência era evidente desconsideração. Mas ele justificou dizendo-me que não poderia ir porque aguardava Gonzaga Mota e Roberto Magalhães”.

ROBERTO MAGALHÃES

“Ao terminar o comício, uma repórter me perguntou:

– “O que o senhor acha do apoio de Roberto Magalhães a Covas”?

“Respondi que ela estava equivocada, pois Brizola só não havia comparecido à inauguração do seu comitê de campanha em Porto Alegre porque tinha um encontro com Roberto Magalhães para consolidar o apoio.

– “O senhor é que está equivocado, ela respondeu. Roberto Magalhães foi hoje à casa de Afonso Arinos e lá declarou o seu apoio a Mário Covas e, além disso, aceitou ser o candidato a vice na chapa dele”.

“Tenho uma verdadeira coleção de histórias assim com Brizola. Não precisaria contar nem metade delas para todos entenderem por que ele perdeu aquelas eleições. E há mais: eu, como candidato a vice-presidente, por pressão dos áulicos cariocas de Brizola, não participei de nenhum programa de televisão no guia eleitoral, porque argumentavam que quem tinha voto e prestígio era Brizola, consequentemente só ele podia falar”.

“Eu teria muito mais coisas para contar. Brizola era um grande líder, mas não gostava de ouvir. Tinha muitos áulicos e poucos companheiros”.

GETULIO

O equivoco do Fernando foi imaginar que algum áulico de Brizola teria força para fazer pressão capaz de vetar a participação dele em um sequer dos programas eleitorais. O veto era de Brizola. Pessoal e irrecorrível. Era ele, ele e só ele. De seus programas só duas pessoas participavam: ele e Getulio Vargas. Ele aqui embaixo e Getulio lá em cima.

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