O triste fim dos ministros ‘técnicos’ de Bolsonaro, que estão desperdiçando suas biografias

Tarcísio é o remédio para problemas da direita e da esquerda

Tarcísio Freitas passou a ser garoto-propaganda de Bolsonaro

Vera Magalhães
O Globo

O que pode ser pior que ainda ser ministro de um governo completamente anômalo como o de Jair Bolsonaro? Resposta: ser um ministro desse governo antes tido como “técnico’, e que se dispôs a rasgar o currículo para permanecer nesse caos.

Peguemos o mico que Tarcísio Gomes de Freitas se dispõe de bom grado a pagar. Virou negociador de sequestro. No caso, o sequestro é do país pelos caminhoneiros que o ministro foi escalado para pajear pelo presidente a quem serve.

SEMPRE INSUFLANDO – Bolsonaro insufla essa categoria desde antes de 2018. Trabalhou fervorosamente pelo locaute que parou o país e derrubou a economia já quando era candidato a presidente. Nos dois anos e meio em que ocupa a Presidência, já cedeu a várias ameaças dos caminhoneiros, que insiste em ter em sua base social radicalizada, para que possam acossar governadores, o Supremo Tribunal Federal ou o Congresso quando o capitão precisar.

Tarcísio vem toureando esse pessoal desde quando ainda era visto como técnico. Agora que aceitou ser pré-candidato a governador tendo Bolsonaro como padrinho, esse papel se tornou mais ostensivo.

O outrora técnico foi aos palanques no Sete de Setembro, viajou às custas do Erário para ver o chefe pregar ruptura institucional, e agora, como se isso já não fosse desgraça o bastante para qualquer biografia, tem de procurar o foragido Zé Trovão e convencê-lo de que o áudio pedindo para que os parças desocupem as estradas é mesmo do presidente, que antes havia metido o louco para que eles tocassem o terror. Triste fim de um técnico, ministro.

ATÉ O GOLPISMO – No início do governo, o histórico invejável de Tarcísio como melhor aluno do Instituto Militar de Engenharia era glorificado, inclusive pelos generais do governo. Ele tem uma história de superação que o levou a alcançar essa marca. Como servidor em sucessivos governos sempre teve a capacidade de trabalho e gestão louvada.

 O que leva uma pessoa com essas características, em tudo diferentes da trajetória caricata de fracassos e ressentimentos e pregações ideológicas de outros colegas de primeiro escalão, a pegar um desvio e aceitar ir com Bolsonaro até a lama do golpismo que paralisa o país?

Da mesma maneira se pode analisar a carreira do advogado-geral da União, Bruno Bianco. Procurador federal de carreira, mestre em direito, especialista em direito público, formou a equipe inicial de Paulo Guedes, que aos poucos foi se dissolvendo quando ficou claro que não sairia mais reforma alguma da cartola após a da Previdência, na qual Bianco foi um protagonista.

BARBARIZANDO – O que leva alguém com essa trajetória tomar a decisão inacreditável de ser advogado-geral da União de um presidente que promete não cumprir decisões do Supremo Tribunal Federal? Que insiste em governar por decretos? Que condescende com um Orçamento secreto que impede qualquer equilíbrio fiscal? Que vai forçosamente, porque já avisou, questionar a lisura das eleições no ano que vem?

Bianco foi no avião ao lado de Bolsonaro para o ato em que o presidente já tinha avisado que iria barbarizar. E o fez: chamou Alexandre de Moraes de canalha. Com que cara o AGU vai aparecer para a próxima sustentação oral no plenário do STF? Em nome de que alguém atrela a própria história ao que há de pior em termos de política?

A LISTA É LONGA – Os outrora técnicos Bento Albuquerque, Tereza Cristina e mesmo Guedes seguem sendo colaboradores de um governo que, apenas em suas áreas, está deixando correr solta uma crise energética, usa o lado tosco do agronegócio para promover um locaute que paralisa o país e para retrocessos diários na política de controle ambiental e vê a inflação galopar, o mercado cair e o dólar escalar graças às sandices do presidente. Que “técnico” continua no emprego quando o chefe é um aloprado que coloca todo o trabalho a perder?

Difícil saber como essas pessoas farão o caminho de volta para ter de novo o respeito dos seus pares, da sociedade, da História. Que políticos que não têm o menor prurido de mudar de lado como quem muda de máscara (se bem que eles não as usam, então exemplo ruim) façam isso é compreensível.

Que os bizarros ideológicos que só seriam ministros num governo bizarro como o de Bolsonaro façam isso, idem. Agora, essas pessoas tinham alguma ou muita respeitabilidade antes de atrelarem seu destino ao do capitão. Depois, difícil prever.

10 thoughts on “O triste fim dos ministros ‘técnicos’ de Bolsonaro, que estão desperdiçando suas biografias

  1. Em se tratando de jmb, vulgo BROXAnaro, não há ninguém na sua gangue de desgoverno que tenha sido enganado(a).

    O alinhamento com o desmonte do Estado e com a “filosofia” negacionista de olavo de carvalho

    – sem contar as ligações de todos os gabinetes da familícia com matadores de aluguel: fabrício queiroz, adriano da nóbrega e ronnie lessa (esse último vizinho de condomínio do presidente e quem disparou os tiros que ceifaram a vida de Marielle e Anderson)

    … etc, etc, etc.

    Desde o primeiro momento é uma gangue. E terá o fim que toda gangue tem.

  2. Na boca de quem não presta o bom não vale nada.
    Essa Vera Magalhães sugere entender de tauromaquia, é uma técnica no assunto, enquadrou tecnicamente o Ministro Tarcísio como toureador dos caminhoneiros. Do alto de sua tecnicidade omite que essa modalidade, tourear, é mais usada Europa (Espanha), no Brasil é a vaquejada.
    Descontruir pessoas de bem é se meter a ser iconoclasta de militância desarrazoada.
    Entonces Lula, o Honesto, pode ser candidatar ao que quiser e o Tarcísio não pode?
    Ela tenta lacrar em cima de quem tem currículo enquanto o outro tem folha corrida?
    Essa tentativa de atingir o presidente por tabela não emplaca, não sabe jogar bilhar quanto mais tauromaquia ou vaquejada.

  3. Frase imortalizada por Nelson Rodrigues, “Granfinas de narinas de cadáver”.
    Isso se aplica as jornalistas de nariz empinado.
    A intensidade de ódio que as pessoas guardam não implica na veracidade de suas crenças. e até para usar apelidos depreciativos há que se ter no mínimo um pouco de auto crítica.

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