O viral do bem


Heron Guimarães

A estratégia da agência Leo Burnett de utilizar a imagem de Chiquinho Scarpa em uma campanha de propaganda para aumentar o número de doadores de órgãos é simplesmente de tirar o chapéu.

O viral com Scarpa anunciando o enterro de um carrão em seu jardim gerou, de imediato, as mais ácidas críticas contra o playboy e uma comoção generalizada nas redes sociais.

A ideia só deu certo pela verossimilhança. Afinal, não é difícil imaginar um socialite como o conde Scarpa enterrando um de seus mais valiosos bens apenas para se exibir.

A tacada da agência foi mesmo genial. Poucas vezes uma ação publicitária mexeu tanto com os brios das pessoas.

Raiva, desprezo, indignação e tantos outros sentimentos foram cultivados entre internautas que, revoltados com o “desperdício”, não pouparam xingamentos ao magnata.

A surpresa foi revelada ontem. Os abusos de Chiquinho, na verdade, eram para trazer à luz um pouquinho de reflexão. Tudo esquematizado pela Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO) para chamar a atenção do público para a Semana Nacional de Doação de Órgãos, que se inicia na próxima segunda-feira, dia 23 de setembro.

“ENTERRANDO O CARRO”

Após a estratégia vir a público, o comentário do milionário em suas redes colocou quem o havia criticado com uma certa dor de consciência.

“Eu não enterrei meu carro, mas todo mundo achou um absurdo quando eu disse que ia fazer isso. Absurdo é enterrar seus órgãos, que podem salvar muitas vidas. Nada é mais valioso. Seja um doador, avise sua família”.

Gostando ou não de Scarpa e de seus excessos, todos são obrigados a admitir a genialidade da campanha que ele protagonizou.

Até o falso enterro do carrão, o viral que mais tinha surtido efeito era o da Nissan, que chamava seus concorrentes no segmento de picapes de “pôneis malditos”. O “viral do bem” superou em criatividade e efetividade a ideia da montadora nipônica.

O trabalho da Leo entrará para o rol dos melhores cases da propaganda brasileira, porém, muito mais do que simplesmente reconhecer um excelente trabalho de comunicação, é preciso pensar de fato no conteúdo que a mensagem repassa.

No Brasil, segundo dados da ABTO, divulgados juntamente com a ação de promoção da campanha que começa na semana que vem, mais de 30 mil pessoas aguardam por transplantes e muitos familiares se negam a doar.

Se todos que consideraram o ato de Chiquinho Scarpa um absurdo resolverem doar, o número de pessoas nas filas de espera vai cair bastante. Afinal, o que é um Bentley de R$ 1,5 milhão perto de um rim para quem está prestes a morrer? (transcrito de O Tempo)

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2 thoughts on “O viral do bem

  1. Nada como a desinformação. Se o cidadão morresse (dentro do nosso entendimento leigo) parece estranho que alguém objetasse a retirada de órgãos. Só que tecnicamente não é isso que acontece. Após o diagnóstico de morte cerebral, o corpo do doador do transplante continua funcionando, coração batendo e pulmões pondo ar para dentro e para fora, com ajuda ou não da tecnologia. Esse corpo é mantido nesse estado (para conservação dos órgãos a serem doados) até o momento do transplante. É preciso ter confiança no diagnóstico da morte cerebral, nenhuma suspeita sobre a lisura do processo e uma revisão do que se conceitua como morte, para se candidatar a doador. As campanhas são falhas porque omitem essa realidade, substituindo informação objetiva por chamegos emocionais.

  2. Concordo que a propaganda foi excepcional pelo fato de chamar à atenção através do desperdício de órgãos que são enterrados e que poderiam salvar a vida de milhares de pessoas ou, no mínimo, dar-lhes mais um tempo de existência.
    Usar a figura excêntrica do inconsequente Scarpa foi genial, haja vista que dele pode se esperar qualquer gesto para estar na mídia, geralmente de forma negativa.
    Desta vez, porém, o plaiboy se redimiu, e com louvor!
    Excelente publicidade e motivos para reflexão – confome era a intenção do anúncio – sobre a doação de órgãos.
    Parabéns!

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