O voto que já está no ar

Carla Kreefft (Jornal O Tempo)

Dizem que a eleição começa mesmo após 7 de setembro. Muitos dos pleitos passados confirmaram essa tese. Mas é preciso entender que o processo eleitoral mudou no país, especialmente após o instituto da reeleição.

As discussões estão, a cada pleito, mais antecipadas. A vinculação entre uma eleição e outra é muito significativa. Em outras palavras, o processo de 2014 está sendo iniciado agora em 2012. Toda esse adiantamento mostra que os partidos , pelo menos os maiores, estão construindo projetos de poder para longo prazo. Na verdade, PT e PSDB traçam estratégias para garantir uma vitória na disputa presidencial.

Com essa lógica, a corrida pela prefeituras, especialmente nas capitais, perde bastante daquele caráter localizado. Os debates giram muito em torno de questões mais amplas e de temas que perpassam por várias instâncias. Saúde, segurança e habitação, por exemplo, não envolvem apenas os municípios, mas também os Estados e a União.

De certa forma, a administração municipal que sempre foi muito próxima do cidadão vai ficando mais distante. O interesse do cidadão no processo eleitoral também vai diminuindo com esse distanciamento. Assim, o voto é construído muito a partir de impressões que, de certa forma, já foram absorvidas por cada um ao longo tempo e estão armazenadas na memória recente. O que os programas eleitorais da televisão e do rádio tentam fazer é refrescar esse memorial.

Os fatos criados após o 7 de setembro podem até ajudar a definir o voto de uma parcela do eleitorado, mas certamente já existe uma consolidação inegável, ainda que ela esteja inconsciente. Ou seja, a eleição começou em janeiro de 2009.

Considerando essa análise como uma realidade possível, a probabilidade de erros das atuais campanhas terem consequências no pleito de 2014 é considerável. Obviamente, não significa dizer que o partido que tiver desempenho franco em 2012 vai perder em 2014. Porém, certamente, equívocos neste ano são importantes indicativos de problemas para a eleição presidencial.

Boas estratégias de campanha, dizem alguns marqueteiros políticos, são aquelas que despertam no cidadão o que, de alguma forma, ele já sabe e pensa. Não importando se esse despertar está relacionado à continuidade ou à mudança. O que importa é a exploração de uma percepção que já existe.

Então, a grande questão é descobrir o que já está no ar. Inventar a roda e tentar criar sensações novas é uma tática que pode ser entendida como um descompasso em relação ao eleitorado e até um desrespeito à autonomia do cidadão. O eleitor não quer julgado pelo que deseja, ele quer ser atendido em suas demandas.

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