Obama mostra-se amigável ao empreendorismo, antes que a próxima labareda venha lamber tudo

Sandra Starling

Acompanhei pela TV, nos EUA, a recente convenção do Partido Democrata, realizada em Charlotte, Carolina do Norte. O entusiasmo já não era o mesmo da convenção anterior, ocorrida em Denver, há quatro anos. Os jornalistas informaram a presença de 25 mil delegados no centro de convenções; em 2008, eram mais de 100 mil militantes num estádio de futebol. Não houve surpresas. O nome de Barack Obama como candidato à presidência foi confirmado unanimamente. Agora, o slogan “Forward” (em frente) substitui o batido “Yes, we can” (sim, nós podemos).

Obama aposta na classe média

O que realmente surpreende é uma candidatura moderada ser acusada pelos oponentes republicanos de “socialista”. Obama não permitiu sequer que a palavra “Deus” deixasse de constar da plataforma do partido. Da mesma forma, exigiu que fosse escrito no programa, como sempre aconteceu, que Jerusalém deve ser considerada a capital do Estado de Israel. É bom esclarecer que nenhum governo norte-americano, até hoje, deu passos concretos para retirar a embaixada de Tel Aviv.

A estrategista da campanha republicana, Mary Matalin, registrou que Obama tem procurado, o tempo todo, mostrar-se amigável ao empreendedorismo. Em suas referências à criação de novos empregos (mais de 4 milhões, mas com salários mais baixos do que os concedidos antes da crise de 2008), sempre destaca que são postos no setor privado. Tudo para desfazer a imagem de esquerdista, o que, efetivamente, ele não é.

No ideário democrata, todos os discursos giram em torno de uma expressão mágica: “classe média”.

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É A CLASSE MÉDIA, ESTÚPIDO

Afinal, o novo mantra de James Carville, estrategista democrata (e ainda marido da mencionada Mary Matalin), é: “It´s the middle class, stupid!”. Em sua carismática fala, o ex-presidente Bill Clinton reforçou o clichê da doutrina neokeynesiana. Por sua vez, Joe Biden, o vice de Obama, tentou definir, em seu pronunciamento, o que é ser da classe média. De suas redondilhas e seus circunlóquios, pode-se deduzir o que seja isso: dê-me algum emprego, um seguro-saúde e um financiamento subsidiado para a universidade de meu filho, e pronto! Nada mais me importa.

Isso se parece com as palavras de Lula, ao dizer que o pobre se contenta com pouco. Pensar que as sociedades possam ser organizadas de uma forma diferente é algo complicado, que não cabe a qualquer um.

As pesquisas vêm indicando a aprovação do governo Obama (53%), e, se não houver nenhum acidente de percurso, o democrata deverá ser reeleito.

Curiosamente, leio, ao mesmo tempo, a tão citada matéria da “Forbes” sobre a presidente Dilma Rousseff. Carville volta à cena como autor do próximo livro a ser lido pela chefe de governo brasileira, definida, agora, como uma “ex-marxista que estimula o empreendedorismo”. Resta saber até quando essa história de “classe média” dará certo nos EUA e no Brasil.

O mais bizarro é que até alguns oráculos do capitalismo têm revisitado os livros de Marx em busca de uma resposta consistente, antes que a labareda da próxima crise, como diria Jards Macalé, venha lamber tudo!

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