Objetos de desejo têm vida curta na lógica capitalista

Lobo Pasolini

Não é preciso estar muito atento à mecânica interna do capitalismo e consumismo acelerado para notar que tudo o que compramos rapidamente se torna velho. Essa obsolescência planejada é embutida no design de produtos e faz parte da estratégia de negócio das empresas de vários setores. Um smartphone lançado hoje se tornará um produto praticamente jurássico, tanto física quanto simbolicamente, no ano que vem.

De fato, quando se trata de eletrônicos, esse processo é particularmente rápido porque essa é uma indústria que investe muito em pesquisa e precisa de retorno constante, além de ter criado expectativas muito altas em seu público. O mundo da moda oferece outro exemplo clássico, com as coleções estacionais que perdem o atrativo quando uma nova coleção é lançada.

Com o advento da chamada fast-fashion, moda barata que copia grifes e é vendida a preço de banana no primeiro mundo em lojas que dominam o imaginário juvenil, o ciclo de utilidade e desejabilidade das roupas ficou ainda mais curto. Como consequência, a quantidade de tecido em lixões aumentou consideravelmente.

E é aí que está o problema. Enquanto o aspecto de inovação é estimulante, o que não é considerado pelas empresas que somente visam ao lucro é a quantidade de lixo que isso gera. Veja o caso das lâmpadas que Thomas Edison inventou. Algumas das originais de mais de cem anos atrás ainda brilham em museus, mas em geral elas não duram mais que dois anos. Produtos obsoletos são, em sua grande parte, produtos jogados fora no lixo.

LÓGICA PERVERSA

Como consumidores, ficamos refém dessa lógica perversa em que tudo é praticamente descartável. Algumas empresas hoje em dia incorporaram componentes reciclados em seus produtos, mas ainda assim cada novo item requer eletricidade, água, combustível, papel etc. para ser manufaturado e chegar até o consumidor.

O que nos resta fazer, como sempre, é optar pelo minimalismo e pela qualidade. Comprar aquilo que for necessário, de boa qualidade e tentar esticar a vida útil de cada produto que adquirimos. Eu acredito que essa seja única coisa que cidadãos ocupados com o seu dia a dia estressante no mundo conectado pode fazer. O importante é fazer algo, é saber que essa obsolescência planejada não é algo inevitável, natural. Muito pelo contrário. Ela é central para perpetuar o ciclo de consumo, a máquina que não para de roer o planeta e cuspir produtos fascinantes, mas, em sua grande parte, completamente supérfluos. (transcrito de O Tempo)

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