“Olhares” sobre a Nuzmanlândia

Jacques Gruman

Podia falar das cinzas olímpicas. Não vou. Não comento as argolas de madeira que o pai do ginasta Arthur Zanetti teve que fazer para o filho treinar. Argolas colocadas numa quadra de futebol de salão adaptada para a ginástica, jeitinho brasileiro. Tudo convenientemente esquecido pela Nuzmanlândia (obrigado, Mauro Cezar Pereira). Também não vou falar do ventinho metafísico que derrubou Fabiana Murer e a equipe brasileira de hipismo. Ventania de algum Pai Santana de olhos azuis, que só soprou para um lado. Êta, mizifio !

Tampouco perco tempo com o peladeiro vulgar e midiático, que está mais preocupado em vender shampoo e cueca do que em jogar bola. O moicano vaidoso e simulador, medíocre entre medíocres, afundou junto com o Brasil “prepotência olímpica” (valeu, Mateus Benato).

É hora de lavar as escadarias, desobstruir os ouvidos entupidos de bobagens verde-amarelas (“o patriotismo é o último refúgio dos canalhas”, não é mesmo, Samuel Johnson ?) e cobrar uma política esportiva decente, inseparável da formação de cada brasileiro e sem o espírito belicoso que acompanha a corrida imbecil pela conquista de medalhas. Sem sonhar com essas caricaturas de Zé das Medalhas, que estão sempre por aí, parasitando o prazer lúdico do exercício físico. Muda neles apenas a cor do paletó ou o modelito da saia. Mas não quero falar de nada disso. Hoje, caríssimos, quero olhar … o olhar.

Dia desses, revi uma tirinha da Mafalda. Lá ia ela, toda pimpona, chutando pedrinhas, pulando numa perna só, equilibrando um aro metálico com um bastão, subindo num murinho gradeado. Suspira, sorriso de paz interior, e diz: “Às vezes, me dá uma nostalgia dos clássicos”. Como em qualquer poesia, nem adianta procurar entender a empatia imediata. O sorriso da niña turbinou minha imaginação e desembarquei em outro clássico.

Rótulo Brahma Adolescente, explosão hormonal megatônica, descobri um Carlos Zéfiro numa … propaganda de cerveja ! O rótulo da Brahma Chopp era o clássico dos clássicos. Tipografia convencional, ao lado de uma mão (cacófato inevitável) segurando um caneco espumante de cerveja. Cândida imagem, onde o erotismo ? Ah, não se subestime o olhar ansioso e delirante dos que começam a descobrir o outro sexo.

Rótulo Brahma

Detalhe fundamental: nos meus antigamente, a gente puxava a imaginação, não tinha papo com os adultos nem essa facilidade visual dos sites e revistas pornôs. Voltemos ao chopp. Eu e os amigos taradinhos percebemos na mão que segurava o caneco uma, digamos, insinuação de orifício. Excitados, retiramos o rótulo de uma garrafa vazia e recortamos um pedaço da palma. Voilà ! Ali estava, tamanho pigmeu, uma … bunda. Risinhos aflitos, a novidade se espalhou pela escola. Nosso olhar, mais sonhador do que maldoso, levou a uma caça de garrafas de cerveja, todas rapidamente desenrotuladas. Faltaram canivetes e tesouras para produzir bundinhas em série. Ah, esse seu olhar, mostra umas coisas que eu não posso acreditar.

Otávio e Gustavo Pandolfo também sentiram como é complexo o alfabeto do olhar. Grafiteiros geniais, conhecidos como OsGrafite osgemeos Gêmeos, sua arte atravessou fronteiras. Grafitaram, a convite de autoridades locais, um mural gigante no jardim botânico Rose Kennedy, em Boston. Até aí, nada demais. Ocorre que usuários do Facebook do site ultraconservador Fox 25 News começaram a mandar mensagens afirmando que o personagem característico dos irmãos Pandolfo (um menino amarelo, com uma camiseta vermelha enrolada na cabeça) parecia um “terrorista”. Alguns pediram a retirada do painel, outros se disseram “ofendidos” com a imagem.

Grafite osgemeos

Islamofobia, ignorância, paranoia persecutória e inclinação totalitária se juntam num coquetel venenoso, que atropela o olhar criativo e ousado dos artistas. O mesmo coquetel que inspirou o massacre num templo sikh, em Winsconsin. Gente usando barba e turbante ? Perigo, perigo, como dizia o robô da série Perdidos no Espaço. O boçal que acionou o gatilho contra os sikhs só estava um passo à frente dos espectadores da Fox que pediam o banimento de uma obra de arte. Comum a todos, um olhar de sangue, humanidade perdida em medos e tormentos. Quem os olha ? Com quantas cegueiras se faz uma solidão?

(Artigo enviado pelo comentarista Mário Assis)

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