Onde mora o perigo

Ricardo Melo
Folha

Bom dia! Como está o seu café da manhã? A manteiga já deu lugar à velha margarina? Os planos de viajar nas férias estão de pé? A conta de luz subiu assustadoramente? A faculdade do filho ficou inviável por falta de financiamento?

Já sei: casa própria, agora só para os netos; está cada vez mais difícil conseguir empréstimo. Cartão de crédito, nem pensar. Com esses juros que não cessam de subir, o negócio é apertar o cinto. Até o bilhete da loteria ficou mais caro, e o prêmio emagreceu.

Mais do que a indicação de um novo nome para o Supremo Tribunal Federal, a conquista de votos para apertar o garrote nos gastos públicos e as negociações para segundo, terceiro e quarto escalões – mais do que tudo isso, as condições de vida da maioria esmagadora da população deveriam ocupar a agenda de quem se credencia a governar o Brasil.

Não é o que se vê.

NOTÍCIAS RUINS

A cada momento, uma nova má notícia é oferecida ao público que esperava dias melhores. Os juros decolam. O Fies definha. Enquanto o desemprego cresce, as regras de proteção aos demitidos tornam-se mais severas.

O sonho de comprar imóvel vira pesadelo com as novas taxas da Caixa Econômica e do Banco do Brasil. Minha Casa, Minha Vida atualmente vale tanto quanto um slogan eleitoral de ocasião, e nada mais do que isso.

As demissões vêm a galope. O pé no freio das montadoras indica um efeito dominó que não se sabe onde vai parar.

A crise na Petrobras engessa uma parte significativa do PIB nacional; é como se a sede do Ministério da Fazenda tivesse se transferido de Brasília para o Paraná.

E o governo de turno assiste a tudo isso com uma mistura de empáfia e desorientação. Cancela pronunciamentos em dias-chave, vide o 1º de Maio, foge de cerimônias oficiais como prisioneiro em um bunker, evita contato com o povo.

Ah, mas a propaganda na televisão pode resolver o problema.

Não se sabe se é o caso de chorar ou de rir, ou de chorar de tanto rir. Nem uma palavra sobre a distribuição justa do ônus de uma crise mundial que atinge o conjunto do planeta. Como sempre, a conta é espetada no lombo dos trabalhadores.

FESTAS NOS BANCOS

Coincidência ou não, na mesma época somos informados dos resultados dos principais bancos do país.

O Itaú Unibanco registrou lucro líquido de R$ 5,733 bilhões no primeiro trimestre deste ano. O ganho é recorde para o período levando em conta o resultado dos bancos brasileiros, segundo a consultoria Economática.

Um pouco antes, o Bradesco anunciou ter fechado o primeiro trimestre de 2015 com lucro líquido de R$ 4,244 bilhões, 6,3% acima do resultado do quarto trimestre de 2014 e 23,3% maior que o mesmo período do ano passado.

Os trabalhadores penam, a indústria resmunga, o comércio reclama. Já o capital financeiro comemora. Será que é tão difícil saber de onde tirar?

PARA INGLÊS VER

A elite conservadora festejou a vitória de David Cameron no Reino Unido. Seria a prova de que a redução de gastos públicos e o corte de direitos sociais mostram o caminho da redenção.

Detalhe: a renda média da população caiu 2,4% entre 2010 e 2014, ficando abaixo do patamar de antes da crise de 2008! Quem perdeu mesmo foram os institutos de pesquisa e a incompetência da oposição.

5 thoughts on “Onde mora o perigo

    • Lembrando que enquanto a carga tributária sobre a renda do cidadão é de 41,37% , sobre o sistema bancário incidem módicos 15,6% sobre o faturamento. É o setor que mais se beneficia do sistema tributário nacional. Aforando o setor agrícola.

      Tudo neste país é feito para beneficiar o sistema financeiro, inclusive a manutenção do oligopólio que impera no Brasil.

  1. Não é novidade, neste país de trouxa e frouxo, este governo é comprometido com os banqueiros, se mexer com eles a economia vai ficar pior do que está, nunca mexem com os lucros dos banqueiros, até quando iremos aguentar este desgoverno Dilma/PT, temos uma oposição frouxa, omissa e passiva, assiste tudo e não faz o que deveria fazer, fica esperando o judiciário para poder entrar em ação, mas perde tempo e enterra o país de vez.

  2. Os bancos são importantes. Não vejo os banqueiros como o grande problema não.
    O problema é longo. O problema é mais arrastado. O Brasil que temos é o Brasil sonhado há mais de oitenta anos. Há mais de oitenta anos a esquerda sonhou dominar o poder. Diziam que o Brasil só se ajeitar com um esquerdista, um homem do povo chegando ao poder. Pois eis que tivemos o sonho virando uma realidade. E o resultado é o desastre em mídia.
    O povo paga imposto demais não é pra sustentar os banco. O povo paga imposto demais pra sustentar um Estado desequibrado, gigante. Enquanto tivermos a cultura de esperarmos tudo vindo do Estado, enquanto desejarmos tanto Estado na alma do nosso povo, enquanto isso o Brasil vai continuar a ser o que é.
    Sabe por o que os banqueiros se dão bem? Por que os banqueiros não tem medo do Estado. Enquanto o povão usa o Estado como escudo, o Estado se arromba em cima do povão. Mas os banqueiros não veem no Estado um escudo. Os banqueiros veem no Estado no máximo um parceiro comercial. Os banqueiros não endeusam o Estado, simplesmente por que eles sabem o que todo mundo deveria saber: que ninguém é menor do que o Estado!
    Quando todo mundo tiver consciência de que não é menor que o Estado, neste momento o Estado vai passar a temer cada um. O Estado vai realmente trabalhar pra cada um. E o Estado vai funcionar pra todos. Hoje poucos têm consciência de que o Estado é fraco. E o Estado se pela de medo desses poucos. Esses poucos são os banqueiros. Então, moral da história: ao invés de ficar maldizendo os banqueiros, inspirem-se nos banqueiros, e mudem sua visão de Estado dominador pra Estado empregado.

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