Organizadas exclusivamente pela internet, as manifestações mostram que a opinião pública enfim reage contra a corrupção.

Carlos Newton

A internet mostra cada vez mais sua crescente importância política e social. As manifestações realizadas no feriado foram inteiramente organizadas na web, através das redes sociais, especialmente o Facebook. Esse impressionante fenômeno de comunicação traz uma forte esperança de dias melhores, em que haja menos desigualdade social e mais moralidade política – não só no Brasil, mas no mundo inteiro. Não é por mera coincidência que todo governo autoritário, para se manter, tem de impor censura à internet.

Essa mudança está acontecendo exatamente quando o Brasil vive um momento político realmente delicado. O Partido dos Trabalhadores foi criado no início dos anos 80 justamente para implantar os dias melhores e para pôr fim às práticas políticas nefastas que marcam nossa História Política. A eleição de Lula, o maior líder popular já surgido no país, foi embalada nesse sonho de evolução social. Houve avanços, mas infelizmente as nefastas práticas políticas não se alteraram. Pelo contrário, até se consolidaram ainda mais.

No exercício do poder, não há dúvida de que Lula mudou muito, ou seja, se amoldou e se acomodou. Hoje, é uma pálida imagem do antigo líder popular. Parece deslumbrado consigo mesmo, não se identifica nele nenhum resquício de modéstia ou autocrítica. Sua vida parece ser um sonho, já realizado, e que não tem nada a ver com os compromissos do passado. Na sua egolatria, ele julga que será lembrado como o mais importante líder político do país e parece não se preocupar mais em manter a dignidade da liderança que conquistou tão duramente e com tantos méritos.

Agora, o país está diante de uma encruzilhada. A corrupção nos desafia como  uma hidra invencível, corta-se uma cabeça, nascem outras. E o governo do PT não demonstra a menor disposição de mudar as práticas políticas. Pelo contrário, parece disposto a mantê-las, em nome da tal governabilidade, que hoje é muito mais importante do que a a honra e a dignidade que todo homem público precisa ter.

Lula vive seu delírio particular, não se preocupa em ser patrocinado pelos grandes empresários que lhes bancam as palestras milionárias, acha isso normal. Se tivesse lido o Código de Conduta do amigo Sergio Cabral, saberia que não fica bem se ligar a esse tipo de gente, que representa a versão moderna daqueles antigos vendilhões do tempo. Lula pensa que sua biografia já está escrita, mas na verdade os capítulos principais só agora estão sendo redigidos.

As manifestações ocorridas no Sete de Setembro trazem uma lufada de esperança. A opinião pública não está de todo anestesiada. Ainda há quem se preocupe com o interesse público, nem todo jovem é nerd e alienado, existem pessoas que não aceitam vender suas consciências. São constatações altamente positivas e que merecem ser destacadas, nesse quadro que atravessamos. Dia 20, no Centro do Rio de Janeiro, a internet está prometendo uma megaevento. 

O momento brasileiro é muito delicado e singular. Lula continua a ser idolatrado. Até as elites aprenderam a gostar dele, por justas razões, pois jamais tentou prejudicá-las. Do outro lado da cerca, na chamada oposição, não existe ninguém que possa rivalizar com ele.  Os brasileiros começam a sair às ruas, dizendo que desse jeito não é possivel continuar. Mas não existe no PT ou fora dele, nenhuma liderança confiável à qual se possa recorrer.

Portanto, estamos diante do deserto de homens e idéias imaginado por Oswaldo Aranha, no início dos anos 50. Só falta agora encontrarmos o filósofo grego Diógenes, na Praça dos Três Poderes, com uma lanterna acesa em plena luz do dia, à procura de um homem digno, capaz de ocupar esse vácuo de poder que se registra no país. E nos faz lembrar um velho ditado, cada vez mais atual: “O Brasil cresce à noite, quando os políticos dormem e não estão atrapalhando”.

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