Os bandidos ‘revolucionários’ da Líbia e a ONU

Alexander Mezyaev

Um relatório do Secretário Geral da ONU foi submetido ao Conselho de Segurança para uma prolongação da missão de avaliação da situação na Líbia. O Conselho de Segurança prolongou a missão para mais doze meses e especificou que a missão deveria ajudar as novas autoridades da Líbia a definir as exigências e prioridades para todo o país, a promover a lei, a assegurar os direitos humanos, a reestabelecer a segurança pública e a combater a proliferação ilegal de armas. Dentre essas armas destacou-se então o sistema de defesa aéreo portátil.

Apesar do relatório do Secretário Geral da ONU ter tentado apresentar as novas autoridades da Líbia na melhor das perspectivas, uma análise por mais superficial que fosse mostra que o relatório contém informações a serem ressaltadas. Por ex. o relatório mostra que forças leais à Jamahiria líbia continuam a resistir aos ocupantes da OTAN e da ONU e que essa resistência toma lugar em grandes cidades, como Trípoli, Bani-Walid e Corfu.

Tentando disfarçar a gravidade da situação o Secretário Geral da ONU denominava as ações de combate como “escaramuças”. Esse não era o único absurdo no seu relatório que não esclarecia a situação de modo desejável, muito pelo contrário. Por ex., ao lado das novas autoridades e dos apoiadores do antigo regime, de repente surgia um terceiro ator que ele sem especificações denominava como “brigadas revolucionárias”.

O relatório então não especificava o que seriam essas brigadas, quem faria parte delas, que áreas que elas estariam a controlar e a que comando elas responderiam. O relatório não diz uma palavra a respeito do assunto, mas o texto mostra claramente para que essas brigadas seriam necessárias para a continuação do aprisionamento de supostos apoiadores do então regime de Muhamar Kadafi. Seriam também importantes para fazer interrogatórios e controlar centros de detenção. E há graves atos de tortura e mau tratamento perpetrados por essas brigadas, incluindo mortes durante custódia em Trípoli, Misrata, Zintan e Gheryan.

Ao que parece o relatório tenta mostrar que as novas autoridades nada têm a ver com tudo isso. Tudo seria então por causa dessas “brigadas”, mas nesse caso uma outra questão se apresenta. Se essas “brigadas” ou “salteadores revolucionários” operam em Trípoli, o que é então que o “governo” controla?

Muito fica abaixo de forte neblina, mas um representante da Líbia na ONU falou mais claramente, admitindo que havia áreas fora do controle do “governo”. Como não existiam nem presença policial, nem Cortes de Justiça, não se podia pôr as responsabilidades nas autoridades que nem saberiam o que se estaria passando por lá. Entretanto, o representante líbio não foi mais específico em relação a que partes do país que estariam fora do controle das autoridades governamentais.

De acordo com as leis internacionais, qualquer autoridade constitui um governo legal se essa autoridade controlar todo o território do país. Isso é ao pé da letra, mas na prática admite-se o fato que o governo deverá controlar pelo menos a maior parte do território do país. Isto é então exatamente o que o chamado “Conselho Nacional de Transição” da Líbia não tem, acarretando, ao que tudo indica, os absurdos relatórios oficialmente apresentados.

Há uma operação em andamento para transferir mercenários e bandidos da oposição vindo da Síria e indo para a Líbia. Essa transferência deveria ser feita dissimuladamente, abaixo da proteção nominal da ONU.

Quanto tudo estava por se dar a conhecer, tentou-se apresentar o movimento dos militantes como se fossem “refugiados fugindo do regime sangrento”. Entretanto, para qualquer um que olhe para o mapa da região fica claro que para se “fugir” da Síria em direção à Líbia tem-se que atravessar a Jordânia e Israel, para depois poder atravessar o Egito. O fugitivo teria que vencer todos os obstáculos de uma tal peripécia. Estaria então nas condições de poder pedir asilo “num país sem problemas” – a Líbia! Para poder ter sucesso nessas condições, os “refugiados” teriam de ser campeões de maratonas e não simples retirantes. Como se pode ver é mais uma história idiota.

Já de há muito as sessões do Conselho de Segurança da ONU tornaram-se exemplo de cinismo e hipocrisia. Um palco para fabricação e distribuição de falsidades para promover o apoio da opinião pública para crimes sanguinários, reles e brutais.

O que ocorreu na Líbia? Relatórios oficiais mostram-se insuficientes. Reações oficiais também apresentam um distanciamento moral surpreendente. Entretanto, é um fato conhecido e bem documentado que muitos crimes foram cometidos como resultado das operações de bombardeamento da OTAN.

Recorda-se o bombardeamento de Zlitan, em 9 de agosto de 2011. Esse bombardeio levou 80 pessoas à morte brutal, incluindo 30 crianças. Recorda-se também dos bombardeios contra a Televisão de Trípoli, em julho de 2011. Inexplicavelmente esses e muitos outros bombardeios e mortes em massa, mesmo os mais importantes com inúmeras vítimas da violência desmesurada da OTAN, não foram nem mencionados nos relatórios da Comissão Internacional de Inquéritos. Relatório esse que foi apresentado em Genebra, no dia 9 de março – sessão do Conselho de Direitos Humanos da ONU.

Apesar do relatório conter uma parte dedicada a morte de Muhamar Kadafi e seu filho Mutassim, os advogados responsáveis pelo relatório tiraram conclusões muito controversas. Declararam que apesar de terem insistido em receber os documentos da autópsia, somente tiveram acesso a fotos que não permitiriam conclusões relevantes quanto à causa mortis. Concluíram, portanto, que não poderiam apresentar conclusões definitivas quanto a uma possível criminalidade envolvida no ato.

O ponto crucial aqui é que esses advogados experientes não reagiram ao fato de um prisioneiro ter sido morto quando em custódia abaixo dos auspícios das autoridades relevantes no caso. [Em última instância sob a responsabilidade da ONU e da OTAN].

As deliberações do Conselho de Segurança da ONU quanto à situação da Líbia, agora em março, assim como os resultados da investigação conduzida pela Comissão de Inquérito da ONU, mostram que há uma intenção de converter a Líbia numa zona judicial obscura na cena dos acontecimentos internacionais.

A Líbia está a ser transformada numa espécie de fusão entre um Iraque e uma Somália. Está a ser transformada num lugar de difusão incontrolada de armamentos, extração de petróleo e treinamento de militantes para novas “revoluções”. Mas enquanto as forças de resistência da Jamahiria líbia estiverem ativas, esse plano não poderá ser completamente consumado.

O original encontra-se em www.strategic-culture.org

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