Os conteineres de Temer

Sebastião Nery

Alcântara era contínuo do palácio do governo do Rio de Grande do Norte. Afonso Pena, presidente da República, ia visitar o Estado. Alcântara pediu para fazer parte da comitiva que ia esperar o presidente na estação ferroviária de Nova Cruz, divisa da Paraíba com o Rio Grande do Norte.

O governador deixou. Mas o secretário do governador achou um absurdo. Onde se viu contínuo esperando presidente? Chamou o Alcântara:

– O governador deixou, você vai. Mas antes de o trem chegar na estação, você salta no triângulo, (ponto da manobra dos trens, na entrada das estações).

O trem do governador chegou na frente. Alcântara saltou no triângulo. Daí a pouco o trem do presidente entra no triângulo para fazer manobra. Alcântara sobe, vai entrando, dá com o presidente, é o primeiro a dar as boas-vindas a Sua Excelência. E vai mostrando a cidade da janela.

Quando o trem do presidente chega à estação, o governador, o secretário do governador, os puxa-sacos do governador, todos levam o maior susto. E Alcântara aparece na porta, ao lado do presidente, apresentando-o às autoridades estaduais.

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O GOLINHO DE CONHAQUE

Seguem para Natal. Cansado, o presidente chega ao palácio e pede logo um banho. De repente, abre a porta do banheiro, mete a cabeça:

– Onde está o Alcântara?

Alcântara aparece, entra, sai. Ninguém entendia nada. E Alcântara sendo chamado, e Alcântara atendendo.

No dia da partida, à beira do cais (o presidente voltou de navio), Afonso Pena chama Alcântara, dá-lhe um abraço e lhe fala alguma coisa no ouvido. Alcântara sorriu, saiu, não disse nada a ninguém.

Um mês depois, o Diário Oficial publicava um ato de Afonso Pena nomeando Alcântara administrador do Porto de Santos. Foi um escândalo no Rio Grande do Norte.

No bolso do paletó, tamanho portátil, Alcântara carregava uma garrafinha de conhaque francês. E Afonso Pena era maluco por um golinho de conhaque francês.

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OS CONTÊINERES

Em 2002, o então deputado Michel Temer, líder portuário do PMDB, passando por cima e contrariando uma expressa decisão judicial, decretou a intervenção no diretório regional do PMDB de São Paulo, cassando os mandatos de toda a diretoria, eleita com 70% em convenção.

Em Brasília, no governo e na oposição, no Senado e na Câmara, ninguém estava entendendo a fúria cassatória de Temer, sobretudo porque o PMDB governista, na época financeiramente cooptado para apoiar Serra, saiu das eleições humilhado, sem dar a vitória ao candidato em nenhum Estado.

O  mistério acabou quando Temer nomeou como interventor no PMDB de São Paulo o ex-deputado Wagner Rossi. Não era uma nomeação, era uma confissão de crime. Não era um golinho de conhaque, era um porre.

Wagner Rossi era aquele que em 2001 subira às capas das revistas e às manchetes dos jornais, ao lado de Michel Temer, ambos com as mãos no lado, como responsáveis pelo escândalo dos contêineres engravidados no Porto de Santos. O inquérito terminou acusando-os e os processos continuavam. Pois foi exatamente o sócio Rossi que Temer foi buscar para ‘‘operar” outro contêiner: o fundo partidário do PMDB de São Paulo.

Quanto aos inquéritos, não deram em nada. Naufragaram.

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