Os demitidos estão readmitidos

Carlos Chagas

Mais uma  lambança flui da confusão que envolve o Senado e não poupa o presidente José Sarney.  Ele mandou considerar nulos todos os 663  atos secretos praticados nos últimos 14 anos sob a batuta de Agaciel Maia.  Só que tem um problema: 243 nomeações clandestinas estão revogadas, mas 104 demissões, também. Isso significa que 104 ex-funcionários voltam a ser funcionários, inclusive alguns que já morreram.

O presidente do Senado designou uma comissão  para em 30 dias  desbastar o cipoal. Seus integrantes, servidores da casa, vão trabalhar durante o recesso, ou melhor, já começaram a trabalhar, desde ontem. Uma vez divulgado o relatório, será inevitável o surgimento de centenas de recursos formulados à Justiça. Junte-se a esse prato indigesto o molho picante da morosidade de nossos tribunais e se terá a receita de que a refeição só será servida dentro de alguns anos.

É assim que funcionam as instituições, entre nós. A burocracia preside todas as iniciativas. O ato de José Sarney poderá estender-se até o final de seu mandato no Senado, devendo ultrapassá-lo. Enquanto isso, Agaciel Maia não poderá ser responsabilizado e, muito  menos, punido. Gozará sua aposentadoria com tranqüilidade na mansão que não declarou à Receita Federal. Como, tudo indica, os 104 demitidos, menos os já recolhidos ao reino dos céus.

Guerra em duas frentes

Instalada ou não  a CPI da Petrobrás, a verdade é que  docemente se  recolherá,  no recesso parlamentar.  Preocupa-se mais a empresa com a decisão afinal adotada pelo governo, de retirar-lhe o comando na exploração do pré-sal. O anúncio da criação de uma nova estatal enfraquece o poder da Petrobrás, afinal, responsável pela descoberta dessa nova riqueza nacional, a custo de centenas de milhões.   É claro que a Petrosal,  ou que outro nome venha a ter,  não concorrerá com a Petrobrás, devendo delegar-lhe toda a ação material na exploração do petróleo, em parceria com empresas privadas nacionais e especialmente estrangeiras. Mas não deixa de ser uma diminuição para a Petrobrás subordinar-se a diretrizes adotadas fora de seus gabinetes. No caso, ponto para a ministra Dilma Rousseff e para o ministro Edison Lobão.

Mais efeitos de um erro anterior

Não se passa um dia em que não se lamente a iniciativa do então presidente Fernando Henrique em criar o ministério da Defesa, contrariando nossas tradições e interesses superiores. Tratou-se de uma espécie de represália contra as Forças Armadas, ou melhor, contra os excessos praticados por maus chefes, no passado. Extinguir a figura dos representantes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica nas reuniões do ministério significou afastar os militares dos centros de decisão do poder, substituídos por um civil que, diplomata ou político, pouca relação tem com as  questões castrenses.

Mais um exemplo da pequenez da decisão de FHC verifica-se esta semana. O jurista Nelson Jobim encontra-se na França tomando decisões que muito melhor caberiam a ministros, se ainda existissem, da Marinha e da Aeronáutica.  Está comprando submarinos franceses contra a tendência verificada na Marinha de continuar adquirindo essas belonaves na Alemanha. E vai optar por aviões de caça também franceses, ou suecos, quando a maioria dos pilotos da FAB preferia manejar aeronaves russas ou americanas.

É claro que os comandantes das três forças foram consultados por Jobim, mas sem o poder decisório que lhes caberia como ministros.

Acresce uma inusitada  interferência nessas operações no mínimo singulares: a empresa estatal francesa escolhida para  nos vender os  submarinos acaba de determinar que as obras para a construção de um novo estaleiro devem ser entregues a uma determinada empreiteira brasileira. Nada de concorrência, senão não tem negócio. Estranha essa imposição, não parece?

Os três mosqueteiros são quatro

No PMDB, acentua-se a cada dia a submissão à candidatura Dilma Rousseff, imposta pelo presidente Lula. É o preço a pagar pelos seis ministérios e as centenas de diretorias nas estatais e sucedâneos, além da ajuda fundamental dada ao presidente José Sarney para continuar na direção do Senado.

Apenas três senadores insurgem-se contra a diretriz, mesmo respeitando a candidata do PT. Mão Santa, Pedro Simon e Jarbas Vasconcelos insistem na necessidade de o maior partido nacional apresentar candidato próprio ao palácio do Planalto. Aliás, os três estão virando quatro, porque Flávio Arns parece inclinado a aderir à proposta. Tudo indica que serão derrotados pela guarda do Cardeal Richelieu, perdão, do deputado Michel Temer…

This entry was posted in Sem categoria. Bookmark the permalink.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *