Os idosos não serão um problema

Paulo Krugman (Folha)

No mês passado, o Escritório Orçamentário do Congresso divulgou suas muito aguardadas projeções de dívida e déficits, e os críticos do deficit que vêm tendo tanta influência sobre o discurso político soltaram gritos de lamento.

O problema, você entende, é que as cifras divulgadas pareciam boas, para falar a verdade: os deficits vêm caindo rapidamente, e a razão entre dívida e PIB está projetada para se manter mais ou menos estável nos próximos dez anos. Obviamente seria bom reduzir a dívida, em algum momento. Mas, se você baseou sua carreira profissional em proclamações de fracasso fiscal iminente, esse relatório realmente não era o que você queria ver.

Mas sempre podemos contar com os “baby boomers” para garantir um desastre, não podemos? A maré crescente de aposentados não quer dizer que a Seguridade Social e o Medicare estão fadados a falir se não mudarmos esses programas agora, já, neste instante? Talvez não.

Para sermos justos, os relatórios dos curadores da Seguridade Social e do Medicare, divulgados na sexta-feira, sugerem de fato que o sistema de aposentadorias dos EUA precisa de algumas modificações importantes. A razão entre os americanos com mais de 65 anos e os que estão em idade economicamente ativa vai subir inexoravelmente nas próximas décadas, e isso se traduzirá em gastos crescentes com a Seguridade Social e o Medicare, como parcela da renda nacional.

Mas as cifras estão longe de serem tão terríveis quanto você talvez tenha imaginado, em vista da retórica de praxe. E, se olhar com mais cuidado, verá que os dados sugerem que, se quisermos, poderemos manter o seguro social tal como o conhecemos, fazendo apenas alguns reajustes módicos.

SEGURIDADE SOCIAL

Comecemos pela Seguridade Social. Os curadores do programa de aposentadoria de fato prevêem gastos crescentes à medida que a população envelhece, com pagamentos totais subindo dos atuais 5,1% do PIB para 6,2% em 2035, ponto a partir do qual se estabilizam. Isso, por sinal, significa que todo o discurso sobre a Seguridade Social “ir à falência” é bobagem: mesmo que não seja feito nada, o sistema continuará a ter a capacidade de pagar a maioria de seus benefícios programados, pelo futuro previsível.

Mesmo assim, parece que de fato podem faltar recursos em algum momento futuro, e os suspeitos de praxe insistem que precisamos entrar em ação agora, já, para reduzir os benefícios programados. Mas nunca entendi a lógica dessa proposta. O risco é que possamos ser obrigados a reduzir benefícios em algum momento futuro; para evitar esse risco de reduzir benefícios no futuro, devemos agir preventivamente… reduzindo benefícios futuros. Exatamente que problema estamos resolvendo aqui?

E o que dizer do Medicare? Muitas pessoas –entre as quais me incluo– vêm avisando há anos que o Medicare é um problema muito maior que a Seguridade Social, e o relatório mais recente dos curadores do programa mostra que seus custos devem subir de 3,6% do PIB, hoje, para 5,6% em 2035. Mas é um aumento menor que o previsto nas projeções anteriores.

Por quê? A resposta é que a tendência de longo prazo de aumento nos custos da saúde — tendência esta que vem afetando os seguros-saúde privados, além do Medicare — parece ter se achatado muito nos últimos anos. Ninguém sabe muito bem o porquê, mas há indicativos de que algumas das medidas de redução de custos contidas na lei da reforma da saúde, também conhecida como “Obamacare”, estejam realmente começando a fazer uma diferença, exatamente como se pretendia que fizessem. E, como a lei inclui várias medidas redutoras de custos que ainda não entraram em vigor, existem todos os motivos para crer que esta tendência favorável vá continuar.

MAIS ECONOMIAS

Ademais, há muito espaço para mais economias, mesmo porque pesquisas recentes confirmam que os americanos pagam muito mais por procedimentos de saúde do que pagam os cidadãos de outros países avançados. O custo da saúde pode e deve ser reduzido mais ainda, e, quando isso acontecer, o quadro financeiro do Medicare vai melhorar mais.

Então o que estamos vendo aqui? As projeções mais recentes mostram o custo combinado da Seguridade Social e do Medicare aumentando em um pouco mais que 3% do PIB entre hoje e 2035 e indicam que esse número poderia diminuir facilmente, desde que fosse feito um esforço maior no front da saúde. Bem, 3% do PIB é um número alto, mas não um número capaz de sufocar a economia. Os Estados Unidos poderiam cobri-lo inteiramente com aumentos nos impostos, por exemplo, sem qualquer redução nos benefícios, e ainda assim teriam impostos entre os mais baixos do mundo avançado.

Mas os grandes e bons não andam nos dizendo que a Seguridade Social e o Medicare, tais como os conhecemos, são insustentáveis, que precisam ser totalmente revistos –e que precisam ser muito menos generosos? Sim, isso mesmo; eles também andam nos dizendo que precisamos reduzir os gastos públicos agora mesmo, sob pena de enfrentarmos uma crise fiscal ao estilo da crise grega. Estavam errados em relação a isso e estão errados em relação ao prazo mais longo, também.

A verdade é que as perspectivas de longo prazo da Seguridade Social e do Medicare, embora não sejam fantásticas, não são tão ruins assim. É hora de pararmos de nos preocupar em saber como vamos pagar benefícios aos aposentados em 2035 e, em vez disso, começarmos a focar sobre como oferecer empregos a americanos desempregados, aqui e agora.

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2 thoughts on “Os idosos não serão um problema

  1. Criaram vários bichos papões sobre economia que mais parece contos para boi dormir, em qualquer local do mundo, havendo desequilíbrio entre a produção, lucro e consumo, os dirigentes serão penalizados, logo, basta mantermos a escada salarial, onde médicos, professores e policiais, empregos da classe média, lubrificada, teremos consumo interno, o que minimiza qualquer efeito predatório de grupos que o governo precisa manter sob controle.

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