Os japoneses de Israel

Sebastião Nery

Nos primeiros meses da construção de Brasília, o incansável mineiro Israel Pinheiro, comandando as obras como presidente da Novacap e já pensando na necessidade de criar uma infraestrutura de fornecimento de alimentos para a cidade, convidou uma missão japonesa a vir ao Brasil, para estudar a possibilidade de um projeto agrícola em torno de Brasília.

Israel no cerrado

Os homens chegaram em um grupinho muito organizadinho, todos ouvindo muito e um só falando, e pouco. Israel os pôs numa caminhonete e saiu levantando poeira vermelha pelos caminhos virgens dos arredores de Brasília, mostrando a incomensurável amplidão do cerrado, com seu céu infinitamente azul, e a certeza de uma grandiosa experiência agrícola.

E os japoneses calados, sem dizerem palavra.

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ISRAEL PINHEIRO

Foram, voltaram, os japoneses nada disseram. Israel já estava irritado:

– Os senhores não têm nada a dizer?

– Temos, sim, doutor Israel. Terra ruim, muito ruim. Terra seca.

– Se a terra fosse boa, eu ia chamar japonês? Se fosse boa, eu chamava mineiros. Ou os senhores acham que em Minas não tem mais ninguém?

E nunca mais Israel conversou com japonês sobre o cerrado. Hoje, meio século depois, Brasília e o cerrado são o núcleo de 40% da vitoriosa exportação agrícola brasileira, inclusive com a participação decisiva dos japoneses, apesar de alguns atoleimados, como o festeiro Nelsinho Mota, perguntarem para que serviu construir Brasília. Como na canção, até “pra fazer trabalhar gente que nunca trabalhou”.

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CANOA PEQUENA

Padre Rossi era Deus e o diabo em Laguna, Santa Catarina. Vigário, cuidava das almas. Chefe político, cuidava dos votos. O que padre Rossi queria, acontecia. Nunca ninguém ousou contrariar aquele que mandava qualquer um para o céu ou para a cadeia.

Noite de Ano Novo, padre Rossi estava chegando de viagem. Tinha missa à meia-noite, já estava atrasado. E a lagoa Imaruí, encapelada, soprava vento sul. Mas padre Rossi não tinha medo de nada. Pegou a canoa, mandou tocar.

O pescador foi indo, remando. E o vento sul dobrando a canoa, como palha ao vento. Padre Rossi olhou Laguna lá do outro lado, desistiu:

– Volta! Volta, que eu não vou morrer por causa de uma missa.

– E a missa do Ano Novo? Deus é grande, padre.

– Eu sei que Deus é grande, mas a canoa é pequena.

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