Os jornais são eternos, como a arte que atravessa o tempo

Pedro do Coutto 

Prova da eternidade da imprensa que Johanes Gutenberg inventou em 1440, os jornais esgotaram nas bancas do Rio, apesar de as emissoras de televisão e rádio, além da Internet estarem desde o dia anterior divulgando maciçamente a invasão policial da Rocinha, principal reduto do tráfico de drogas da cidade. Há alguns anos os jornais não vendiam tanto. Assim, verifica-se mais uma vez que nenhum meio de comunicação substitui outro, na realidade o complementa.

Muito antes da primeira edição completa da Bíblia, havia o teatro grego que precede Jesus em mais de trezentos anos. Havia a literatura com poucas cópias à mão. O cinema, no final do século 19, não acabou com o teatro. Os jornais não destruíram os livros. Pelo contrário. A fotografia, na primeira metade do século 19, não extinguiu a pintura. O rádio não destruiu os jornais. A televisão não abalou nem o cinema, tampouco o rádio. A internet, efetivamente, não fez submergir os meios de informação que encontrou consolidados. Nem poderia. As telas não podem fazer desmoronar a linguagem escrita, nem a voz das ondas sonoras de Marconi, que inventou o rádio se não me engano por volta de 1890.

Ao contrário. Quanto maior for o impacto da notícia e a força do acontecimento, mais ampla será a procura dos jornais. O que está escrito não escapa dos olhos e da mente dos leitores e pode facilmente ser incorporado a seus arquivos. Uma fonte fácil de se recorrer a qualquer momento. Uma maneira de busca também. Aliás, neste caso, como a Internet. Ninguém pode saber tudo, como dizia meu amigo Antonio Houaiss. O importante é saber como procurar a informação, acrescentava.

Daí a importância, como sempre procuro fazer, de citar-se a fonte onde adquiridos o conhecimento que nos serve de base para análise mais detida, ou mesmo um simples comentário. A citação da fonte, inclusive, é algo essencialmente democrático, na medida em que permite aos leitores acesso ao plano da confirmação e igualmente, se desejarem, o aprofundamento analítico que depende da percepção de cada um.

O rádio, devemos reconhecer, na era moderna, constituiu a grande revolução do processo informativo. Sobretudo no Brasil. Entre nós, ele começou em 1922. Para se ter uma ideia de sua importância, basta dizer que o censo de 1940, estabelecido pelo governo Vargas, o primeiro da história do país, revelou a existência de 56% de analfabetos na população adulta. Não liam jornais, portanto. Mas passaram a se informar pelo rádio.

A música, o futebol, os fatos internacionais, a segunda guerra mundial, chegaram às camadas de menor renda através das ondas radiofônicas. Os cantores como Francisco Alves, Mário Reis, Orlando Silva, Sílvio Caldas, Carlos Galhardo, Carmen Miranda. Também artistas como Noel Rosa, Pixinguinha, Ari Barroso, este autor da música do século 20, Aquarela do Brasil. O rádio tem em si muito da memória brasileira.

Os jornais, principalmente. Qualquer pessoa poderá compulsá-los na Biblioteca Naconal e deles extrair cópias. São para sempre, testemunhas do tempo. As melhores e mais claras aulas de história encontram-se em suas páginas. Insuperáveis como fontes de informação e opinião e, sobretudo, de confirmação. Mais uma prova disso foi dada no domingo. A carga informativa em torno da invasão de Beltrame na Rocinha não foi capaz de satisfazer o interesse popular. Houve, como sempre nos momentos decisivos, necessidade da opinião pública recorrer ao papel impresso. É isso aí. Os jornais são para sempre.

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