Os limites da economia brasileira hoje

Marcus Pestana

Entre 1974 e 1994, a economia brasileira viveu crises permanentes envolvendo estrangulamentos externos, recessões e inflação crescente. O Plano Real foi um divisor de águas. A partir daí, profundas mudanças estruturais seriam introduzidas. Foram privatizadas várias estatais. A quebra do monopólio da Petrobras lançou o setor petrolífero nacional em novo patamar. A venda dos bancos estaduais, a responsabilidade fiscal, a renegociação da dívida de Estados e municípios, a cultura do respeito aos contratos lançaram bases sólidas. O tripé câmbio flutuante, austeridade fiscal e metas inflacionárias estabeleceu pilares macroeconômicos permanentes.

Em 2002, diante da iminente vitória de Lula, a economia brasileira foi vítima de agressivo ataque especulativo. Iria o PT implantar o programa que povoou seu discurso em mais de 20 anos de existência? Haveria calote na dívida externa e reversão das privatizações? Advertido da complexa e delicada situação por FHC, Lula publicou a Carta aos Brasileiros em 22 de junho de 2002, para tranquilizar os agentes econômicos. Mais, após a vitória, nomeou na presidência do Banco Central o deputado federal do PSDB-GO e ex-dirigente do Banco de Boston Henrique Meireles. A sinalização era clara, o PT no poder não daria o prometido cavalo de pau na economia brasileira.

A conversão à nova postura programática não foi acompanhada da correspondente autocrítica e as convicções eram frágeis. O caminho de Damasco não foi percorrido. A inflação permaneceu sob controle e o Brasil surfou nos fortes impulsos vindos da economia mundial. Mas a agenda de reformas foi interrompida e o país perdeu oportunidades.

RUPTURA DE DILMA

Os anos Dilma representam uma ruptura em relação à cultura instalada. Diante da grave crise internacional, aflorou um intervencionismo ativo e desorganizador. Expansionismo fiscal mascarado pelos malabarismos da “contabilidade criativa”. Desonerações pontuais ao invés de uma verdadeira reforma tributária e fiscal. Agressiva política de crédito subsidiado através do BNDES, na chamada escolha de “campeões globais”, como Eike Batista. E a voluntariosa política para o setor elétrico, desarrumando um segmento estratégico que funcionava bem.

O represamento artificial dos preços da gasolina e diesel, somado à péssima gestão na Petrobras, comprometeu o desempenho da maior empresa brasileira, respingou no setor de açúcar e álcool e, ao zerar a Cide, tirou de Estados e municípios recursos que bancavam a manutenção das estradas. A adesão tardia e sem convicção às parcerias com o setor privado despertou desconfianças.

Resultado: crise de expectativas, inflação alta, taxa de investimento raquítica, PIB medíocre, estrangulamento fiscal de Estados e municípios, deterioração das contas externas.

Só uma vigorosa mudança de rumos pode descortinar horizontes mais ambiciosos para a economia brasileira. (transcrito de O Tempo)

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4 thoughts on “Os limites da economia brasileira hoje

  1. O governo está contando com o setor privado para ver disparar os investimentos sob o regime de concessões. O Brasil depende do sucesso dos leilões, já que, da parte do governo não dispomos – pelo menos sem fazer mais dívidas – de recursos para promover a infraestrutura.

    Dependemos, também, do nível de consumo. E o governo conta com a recomposição salarial do início de 2014 para gerar um novo ciclo de aumento da demanda, hoje estagnada em pífios 0,3% do PIB, segundo o IBGE. Como o gatilho salarial só irá ocorrer o ano que vem dando aumentos reais à população, o consumo, este ano, dependerá mais do mercado de crédito.

    Especialistas dizem que há espaço para o aumento do crédito à população. Segundo o diretor executivo de Estudos e Pesquisas Econômicas da Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac) – Miguel José Ribeiro de Oliveira – as operações de crédito envolvem um ambiente de redução das taxas de juros e dos spreads bancários (diferença entre os juros que o banco cobra ao emprestar e a taxa que ele paga ao captar dinheiro), além de aumento dos prazos médios de financiamento e de queda nos percentuais de inadimplência.

    De junho de 2003 ao mesmo mês de 2013 a concessão crédito no Brasil cresceu de R$381,3 bilhões para R$ 2,5 trilhões, volume que representa uma expansão de 563,8%. Em relação ao Produto Interno Bruto (PIB), que é o total da riqueza produzida no país, o volume subiu de 24,7% para 55,2%.

    Na avaliação de Oliveira, existem condições favoráveis na economia para que se conceda cada vez mais crédito. “Tivemos algumas turbulências, com as instituições financeiras do setor privado mais seletivas, mas essas restrições foram compensadas pelos bancos públicos e ainda temos como avançar mais”, disse o executivo. Segundo ele, em países com tamanho da economia semelhante ao do Brasil, o volume de crédito atinge 100% do PIB.

    Ocorre que as famílias já comprometeram 44,82% do seu orçamento com dívidas, segundo o relatório do Banco Central, e o COPOM tem aumentado a taxa básica de juros (SELIC), o que acarreta, também, o aumento das taxas praticadas pelos bancos cuja captação se torna mais onerosa. E, isso coloca em dúvida o que os especialistas alegam sobre o mercado de crédito.

    Fato relevante para o baixo crescimento da economia este ano é que a indústria avançou 2% do segundo trimestre – bom crescimento – mas, acabou acumulando R$26,7 bilhões em estoques, ratificando os sinais de baixa demanda dados pelo IBGE. Estes estoques deverão ser consumidos antes que a própria indústria retome a produção. Verificamos isso já em julho – a indústria recuou os mesmos 2% que havia avançado. A indústria nacional está assim: avança e recua, avança e recua, conforme a formação de estoques e a demanda errática do mercado. É bem possível que a retomada sustentável da indústria ocorra somente a partir de 2014.

    Por fim, espera-se que a extensão da política de liquidez do Banco Central americano diminua as pressões sobre o câmbio e sobre a inflação. Que a economia nacional atraia o investimento estrangeiro direto (IED) e desperte o “espírito animal” dos empresários brasileiros.

  2. Excelente análise do SR. MARCUS PESTANA, compreensiva, realista e sintética. Nas condições atuais, com a Conjuntura Internacional mais difícil, o crescimento sustentável Potencial do Brasil é baixo, +- 2,5%aa. Parabéns ao Sr. WAGNER PIRES que sempre Comenta muito bem com dados, e traz muitas Informações enriquecendo o Assunto em pauta. Enriquece muito o nosso excelente Jornal “Tribuna da Imprensa onLine”.
    “Só uma vigorosa mudança de Rumos pode descortinar horizontes mais ambiciosos para a Economia Brasileira”. Só que as mudanças vigorosas, que dariam Confiança aos Investidores, aumentariam nossa Produtividade, nossa Lucratividade (Sem Surplus, mão há Solução), nossa Poupança (e só Poupança Nacional dá aumento real de Padrão de Vida), nosso Investimento, etc, EXIGEM +- 4 anos de AUSTERIDADE, de estagnação do Consumo, para botar “a casa em ordem”. E qual Presidente que vai fazer isso? Se fizer no Primeiro Mandato não se re-Elege nunca. Se fizer no Segundo Mandato, seu Partido-Base Aliada é varrida do Poder na próxima Eleição. Como sair dessa sinuca de bico? Só com um POVO altamente esclarecido, que compreenda em detalhes a coisa, que concorde em arcarmos com mais sacrifícios no presente para nossos Filhos terem vantagens no Futuro. Nosso bom POVO ainda não chegou nesse Estágio. Por isso nossa Presidenta DILMA ROUSSEFF, em termos Econômicos, tenta de tudo, manobra para todo o lado para achar uma saída, MENOS as famosas Reformas Estruturais, que sabe custariam a ela e a seu PT-Base Aliada, a vitória. A Solução se sabe, o que acontece é que nenhum Presidente(a) quer pagar o CUSTO ELEITORAL da Solução. Abrs.

  3. O LULA DEIXOU PASSAR UMA CHANCE DE MUDAR, MAS TALVEZ SE ASSIM ELE NÃO PROCEDESSE NEM ASSUMIRIA MAS CERCADO DE RAPOSAS MESMO ASSIM PODERIA TER IMPLANTADO AS REFORMAS MAS RECONHEÇO QUE MUITO DIFÍCIL MEXER COM OS PODEROSOS NO REGIME DEMOCRÁTICO ELES NÃO TEM ÉTICA PASSAM ESMAGAM POR QUALQUER INTERESSE CONTRARIADO E MAIS DETÊM A MÍDIA NA MÃO,ACHO QUE SE ELE NÃO TIVESSE FRAQUEJADO TER CHAMADO A POPULAÇÃO PARA LUTA A HISTÓRIA SERIA OUTRA.SÓ NOS RESTA LAMENTAR PELA CHANCE PERDIDA.E P/ 2014 COM TODOS ESSES CANDIDATOS É MELHOR DEIXAR A DIMA.

  4. Boa Sr. Bortolotto. A nossa poupança, segundo o IBGE, está em 16% do PIB. Baixíssima. Lembro que a China – economia que mais cresce , possui o correspondente a 51% do seu PIB em poupança! A china investe o correspondente a 40% do seu produto interno bruto todos os anos.

    Vai aqui o baixíssimo nível de investimento da economia brasileira dos últimos 12 anos por conta da baixa poupança:

    ANO…………….PIB………………….INVESTIMENTO………..% de investimento
    2000………R$1,179 trilhões……..R$198 bilhões……………….16,8
    2001……….R$1,302 tri…………….R$222 bi………………………17,0
    2002………R$1,478 tri……………..R$242 bi………………………16,4
    2003………..1,700 tri……………….R$260 bi……………………….15,3
    2004………..1,941 tri………………..R$313 bi……………………….16,1
    2005………..2,147 tri………………..R$342 bi……………………….15,9
    2006……….2,369 tri………………..R$389 bi………………………..16,4
    2007……….2,661 tri…………………R$464 bi……………………….17,4
    2008……….3,032 tri…………………R$580 bi……………………….19,1
    2009……….3,239 tri………………….R$585 bi……………………….18,1
    2010………..3,770 tri………………….R$734 bi……………………….19,5
    2011………..4,145 tri……………………R$799 bi………………………19,3
    2012……….4,403 tri…………………….R$799 bi……………………..18,1
    Fonte: Contas Nacionais Trimestrais – IBGE.

    É por isso que há, em nossa economia, uma grande dependência do investimento estrangeiro direto (IED).

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