Os motoqueiros imprudentes e o motorista Steve Jobs

Milton Corrêa da Costa

A impressionante estatística de mortes de motoqueiros na violência do trânsito brasileiro – cresceu 753% entre 1998 e 2008 – conforme estudo lançado do Instituto Sangari (Mapa da Vilolência 2011), comprova o que já se sabia: acidentes com motoqueiros vêm puxando assustadoramente o quantitativo de mortos e feridos no trânsito. Em 2008 morreram oficialmente 8.669 pessoas em acidentes com motos no país.

Estudo mais recente, com relação à violência no trânsito na cidade do Rio de Janeiro, desenvolvido pelo Centro de Estudos de Segurança e Cidadania da Universidade Cândido Mendes em parceria com a Secretaria Municipal de Saúde, mostrou que entre 2000 e 2008 ocorreu um aumento de 1.178% no número de óbitos envolvendo motoqueiros, subindo de 14 óbitos em 2000 para 179 em 2008, tornando-se a segunda causa de mortes no trânsito, perdendo apenas para os atropelamentos.

Observou-se também que os acidentes com motos matam mais jovens, negros e pobres. Chega-se a conclusão, portanto, que motoqueiros não são motociclistas. São duas categorias de condutores de moto bastante distintas.

A motocicleta, em tempos de permanente agressão ao meio ambiente e de avassaladora saturação do espaço viário, tem sido uma excelente opção como prático e eficiente meio de transporte. Nesse contexto, crescem também, cada vez mais, o número de grupos, clubes e associações de motociclistas com fins pacíficos, dando um verdadeiro exemplo da possibilidade de convivência harmônica entre o homem e o veículo. São grupos de mútua-ajuda, com afetivos laços de amizade, onde a comunicação através de redes sociais se propaga constantemente. A promoção de eventos e encontros, principalmente na expansão do mototurismo, em finais de semana, com a presença de familiares, tornou- se a tônica no fortalecimento de tais grupos, envolvendo reuniões no litoral oceânico, em áreas lacustres ou em regiões serranas de todo o país.

Para os que não têm ciência da dimensão de tais associações, vale esclarecer que os diferentes grupos de motociclistas possuem até regimento disciplinar de boa conduta, em que se impõe comportamento exemplar de seus associados quando na direção de seus veículos, em rodovias e vias urbanas. Um ato imprudente, cometido por algum integrante do grupo, repercute negativamente sobre todos os demais integrantes. Ou o associado se submete democraticamente à regra de conduta estabelecida ou fatalmente será alijado do grupo. Esse é o lado bom da história.

Infelizmente, já não podemos falar o mesmo dos chamados motoqueiros. É bom que se frise novamente: motoqueiro não é motociclista. Ressalte-se que não é preciso pertencer a nenhuma associação ou clube para ser chamado de motociclista. Basta zelar pela conduta prudente no trânsito. Motoqueiros são os que matam, se ferem, muitas vezes com gravidade, ou morrem no trânsito pela imprudência com que conduzem suas máquinas. Muitos são motoboys com missões de entrega de encomendas ou prestam serviço de mototáxi – atividade bastante comum em morros e favelas do Rio – e acabam descuidando-se da segurança de trânsito.

Alguns transitam ou transportam garupas sem o capacete de segurança, muitas vezes em excesso de velocidade, sem falar que invariavelmente se deslocam em ziguezague entre filas de carros, passando repentinamente de uma faixa para outra da via, expondo-se a perigo, objetivando levar vantagem no trânsito. Ressalte-se que tais motoqueiros são contumazes em danificar espelhos retrovisores externos de automóveis pela imprudência na condução de suas motos.

O resultado da imprudência está expresso nos dados estatísticos onde o traumatismo crânio-encefálico é a principal causa mortis. Segundo especialistas em segurança de trânsito, um condutor de moto tem cinco vezes mais possibilidade de resultar gravemente ferido num acidente do que um motorista de um carro. Para o presidente da Associação dos Motociclistas do Estado do Rio de Janeiro, Aloísio Braz, a maioria dos acidentes com motos ocorre com jovens que usam tal transporte como meio de trabalho, geralmente no serviço conhecido como delivery (entrega). “É o jovem que pela falta do transporte e de condições financeiras, acaba comprando a motocicleta, (veículo de menor valor) e a usam como meio de trabalho, precisando ser rápidos no trânsito para não perder o emprego” -comenta.

Registre-se que dirigir sem o capacete regulamentar de segurança, ou sem faixas refletivas e viseiras ou os óculos de proteção constitui infração gravíssima de trânsito, com penalidade de multa no valor de R$ 191,54 e suspensão do direito de dirigir, além da frequência obrigatória a curso de reciclagem de motoristas infratores. O código também determina o uso de vestuário apropriado na condução de motocicletas, além de só permitir o transporte nas garupas de crianças com mais de 7 anos de idade, desde que tenha, nas circunstâncias do momento, condições de cuidar de sua própria segurança.

O ideal seria que todos se espelhassem nos exemplos positivos dos verdadeiros motociclistas, que fazem deste importante meio de transporte, uma fonte de respeito à cidadania e uma forma segura de conduta educada no trânsito. Trânsito é meio de vida, não de morte. Infelizmente é preciso punir, para reeducar motoqueiros imprudentes.

Sabe-se também agora, após a sua morte, que até o gênio revolucionário da tecnologia, Steve Jobs, adorava a velocidade e tirava as placas dos carros para evitar multas. De quebra estacionava em vagas exclusivas para cadeirantes. A pergunta que fica é: que estranha obsessão e compulsão transforma, no trânsito, os gênios e os medianamente capazes em condutores imprudentes que insistem em desafiar o perigo? Talvez nem a Psicologia de Trânsito explique. O prazer da velocidade e de burlar as leis parece mesmo inebriar as mentes, pródigas ou não.

(Milton Corrêa da Costa é coronel da PM do Rio na reserva)

 

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