Os novos investidores

Carlos Chagas

De quando em quando somos assolados por certos modismos, mesmo milenares, se for possível a contradição. O atual resume-se à obrigatoriedade de mais investimentos, quer dizer, à necessidade que tem a economia de mais recursos para crescer. Dizem, o governo e as elites, que o país precisa de novos investidores. Erra quem supuser estarem se referindo a gente que tem dinheiro sobrando para aplicar em atividades capazes de criar desenvolvimento. Nada a opor à teoria, que vem da Antiguidade, passou pela Idade Média, chegou à Revolução Industrial e anda por aí nesses tempos de crise. Só que não é nada disso aquilo que tramam elites e governos, no fundo a mesma coisa.

Porque existem investimentos e investimentos. Uns, fruto do trabalho, da inteligência e da vontade de criar e de distribuir riqueza para, com ela, enriquecerem os investidores, mas também gerarem mais trabalho, melhores condições de vida e avanço social. Outros investimentos, porém, nascem da ganância e da concentração de renda na mão de falsos investidores que, na realidade, são apenas exploradores, empenhados apenas em aumentar seu patrimônio sem fazer caso de seus efeitos.

Tome-se a crise que deteriora a Europa e começa a chegar até nós. Lá, como cá, têm sido os bancos e os grandes conglomerados financeiros os determinantes da débâcle mundial. Aprimoraram um sistema perverso de investir exclusivamente para aumentar seus próprios lucros e multiplicar seus ganhos, sem se importar com as conseqüências da concentração sempre maior dos resultados em seu próprio bolso. Quase nada distribuíram, claro que manipulando e até gerindo os Estados Nacionais conforme seus interesses. Mas quebraram a cara.

Agora, chegados ao impasse, exigem que, para superá-lo, só com um novo tipo de investimento, no caso retirado daqueles que deveriam ter sido beneficiados mas foram penalizados. É assim que impõem a supressão de direitos sociais, reduções salariais, desemprego e aumento de impostos. Será, para eles, o investimento salvador, às custas da massa de investidores forçados, na realidade assalariados sacrificados. Deverão vir em socorro das elites e dos governos, sob o rótulo de modernidade, livre competição, globalização, neoliberalismo e sucedâneos.

Entre nós chama-se reforma trabalhista, nada mais do que o esbulho de direitos um dia conquistados e agora postos fora em nome dos novos investimentos, através da revisão de prerrogativas que dizem ser anacrônicas. É o que vem por aí. Se não tomarmos cuidado, a massa assalariada será chamada a “investir”. No caso, a sacrificar nossas já precárias condições de vida. Somos os novos investidores…

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GREVE NELES!

Quando a gente erra, ou exagera, custa muito reconhecer o exagero e o erro. Tornam-se necessárias doses monumentais de humildade, geralmente muito longe de nossa capacidade de abandonar a presunção e a empáfia. De vez em quando, porém, um raio de bom-senso e de lucidez consegue atingir-nos.

Nas últimas semanas temos criticado com veemência o surto de greves no serviço público, não porque os servidores mereçam os vencimentos de fome que recebem, mas pelas conseqüências de paralisações capazes de prejudicar ainda mais a combalida economia nacional. Sem falar nas exceções que beneficiam certas categorias ditas de Estado, favorecendo marajás que certamente jamais viram um elefante. Não há que retirar nada do que foi escrito.

No entanto… No entanto, estava oculta nestes escritos a outra face da moeda, que agora é necessário desvendar. Tanto faz se as greves são estimuladas pela CUT e o PT, interessados em criar problemas para a presidente Dilma Rousseff, que até agora não conseguiram enquadrar. Pode ser isso mesmo o que acontece.

O mais importante, porém, no movimento grevista, transcende das seqüelas entre os companheiros e sua suposta líder. Vem das necessidades de cada funcionário público hoje de braços cruzados, a começar pelos professores, categoria das mais humilhadas e ofendidas nessa farsa chamada Brasil.

À exceção de certas e raras camadas privilegiadas do magistério universitário, como aceitar que um professor encarregado de distribuir conhecimento e sabedoria passe fome e sofra necessidades iguais ou piores daquelas que atingem um trabalhador braçal? Como admitir que lhe sejam negados recursos para viver, quanto mais atualizar-se, porque recebe, em média, 50 reais por hora-aula ministrada?

Vale o mesmo para os professores das entidades privadas, impossibilitados de apelar para a greve diante da ameaça de demissão sumária. Os sucessivos governos empenham-se em campanhas educacionais mirabolantes, mas não cuidam do essencial. Que tipo de sociedade estará sendo formada com a miséria dos que devem conduzi-la?

Em certas situações, infelizmente, só a greve. Sendo assim, greve neles!

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