Os primos da Petrobras

Sebastião Nery

RIO – Dom Carlos Carmelo de Vasconcelos Mota, magro, alto, elegante, cardeal-arcebispo de São Paulo de 1944 a1964 e de Aparecida de 1964 a 1982, mineiro de Caeté, antes de entrar para o seminário estudou Direito até o terceiro ano e foi vereador. Foram seus companheiros, na Câmara Municipal de Caeté, Israel Pinheiro e Euvaldo Lodi.

Logo depois da Revolução Paulista de 1932, dois primos do cardeal Mota, Jurandir e Darci Figueiredo Mota, mudaram-se de Caeté para São Paulo e precisavam de emprego. Foram procurar o primo-padre, que nomeou os dois: um, médico do Estado. O outro, delegado. Mas eram nomeações provisórias. Como as de Sarney no Senado.

Que logo depois viraram permanentes. Como as de Sarney.

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DOM MOTA

Havia um decreto mandando efetivar todos os servidores do Estado de São Paulo que haviam participado da rebelião. Como enquadrar os dois? Um día, chegou a São Paulo um documento da delegacia de Caeté informando que Darci e Jurandir tinham sido bravos e fervorosos revolucionários.

E só não chegaram a pegar em armas em São Paulo porque, quando saíam de Caeté para se incorporarem às tropas rebeldes do coronel Euclides de Figueiredo, foram presos e passaram todo o período da luta sofrendo as agruras do cárcere.

O atestado foi aceito, os dois foram efetivados. Caeté inteira sabia que da revolução paulista os dois sabiam apenas alguns telegramas ouvidos entre uma partida e outra de bilhar, no manso botequim da cidade.

O delegado de Caeté, que deu o atestado, também era Mota. Também era primo.

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MISTER LINK

Quando a Petrobrás foi criada, em 1953, era a gata borralheira. Ninguem queria saber dela. As empresas internacionais de petróleo, as famigeradas e criminosas “sete irmãs” (Standard, Texaco, Esso, Shell, etc), lançaram grande campanha no pais para “provarem” que o Brasil não tinha petróleo.

Presidente da Petrobrás e mais norteamericano do que a Coca Cola, Juracy Magalhães, que tinha sido adido militar lá (depois do golpe de 64 foi embaixador) contratou um ex-geologo-chefe da Standard Oil, o incrível Mister Walter Link, que produziu o “Relatorio Link” dizendo que o Brasil não tinha petróleo em terra e, se um dia aparecesse, só no mar, sem condições de ser explorado, por falta de tecnologia e dinheiro.

Queriam guardar nosso petróleo para quando o deles acabasse.

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EPOPEIA

A Petrobrás, costurando com suas próprias linhas, e dinheiro apenas do Brasil, começou a pesquisar, perfurar, descobrir, extrair e refinar sozinha, a partir da Bahia e da refinaria de Mataripe (Lanulfo Alves).

Uma epopeia de 60 anos, que começou com a campanha do “O Petróleo é Nosso”, iniciada em 1948, e chegou ao “Pré-Sal”. Na Bahia, no começou da década de 60, logo se formou um grupo de jovens engenheiros, geólogos, paleontologos, que passaram a procurar petróleo no fundo do mar.
E encontraram. Eles, os tecnicos brasileiros. Ela, a Petrobrás.

E vieram os campos das plataformas da Bahia, Sergipe, Rio Grande do Norte, depois Espírito Santo, Campos, Macaé, Santos, Tudo pesquisado, perfurado, descoberto, extraído pela Petrobrás. As empresas internacionais, diante da evidencia, passaram a dizer que a exploração era antieconomica.

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“7 VAMPIRAS”

No governo Fernando Henrique, com petróleo no mar, alta rentabilidade e lucros crescentes nas contas da Petrobras, as “sete canalhas” apareceram para “participar”. A tecnologia da Petrobrás tinha sido aprovada, o petroleo descoberto pela Petrobrás e os campos demarcados tambem pela Petrobrás. A cama feita, estava na hora de pularem em cima.,

As “sete vampiras” promoveram outra forte campanha na “grande imprensa”, sempre aliada de qualquer gringo com dinheiro, desde Pedro Álvares Cabral. E acabaram com o monopólio da Petrobrás. Passaram a faturar, em condições iguais às da Petrobrás, o petroleo já descoberto.

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PRÉ-SAL

De repente, estoura o “Pré-Sal”. Também estudado, pesquisado, descoberto, viabilizado pela Petrobrás. Elas pularam em cima na primeira hora. Exigiam“participar”nas mesmas condições anteriores de “concessão”.
O governo, felizmente certo, disse o obvio : – “O Pre-Sal é uma situação diferente, excepcional. É uma riqueza que durará décadas de exploração. Logo, o sistema vai ser diferente. Não concessão, mas partilha”.

Na “concessão”, as empresas estrangeiras exploram em pé de igualdade com a Petrobrás. Na “partilha”, a Petro-Sal comandará o processo em nome da União, a Petrobrás tem garantido um mínimo de 30% na exploração de qualquer campo e a União decide a aplicação do lucro.

Esperem a guerra no Congresso e sobretudo na imprensa. Sempre ela. Agora, a gata borralheira virou uma bela prima. E todos eles primos.

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