Os protestos e sua produção

Luiz Tito

O balanço das manifestações de rua, que em todo país eclodiram mais fortemente em junho e ainda se arrastam pontualmente, dão conta que nos resultados auferidos destaca-se como o mais relevante a percepção de que a sociedade, quando quer e se organiza, pode fazer andar a solução de suas demandas. Plantou-se a necessidade de acompanhamento das negociações sobre os custos do transporte urbano, periodicamente majorados através de acordos das concessionárias do serviço e a municipalidade, em todo país.

Alguns aumentos foram revistos, o poder das empresas e seus sindicatos minimizado e os prefeitos contidos em eventuais generosidades. Também os serviços prestados à população que dele depende recebeu reparos, para melhor. No campo da saúde, o governo federal rabiscou o projeto Mais Médicos, trocando a qualidade na oferta dessa obrigação constitucional pela quantidade, reafirmando o equívoco de que médicos soltos Brasil afora trarão soluções, hoje distantes ou inexistentes.

A saúde depende de políticas eficazes, de investimentos, de pesquisas e, sobretudo, de gestão e controle. Mas se os protestos não produziram soluções adequadas pelo menos fizeram mover a roda e ficou mais claro o tamanho do déficit de nossos recursos nesse setor. Mudou a pauta da saúde. A da educação também, com a destinação dos royalties do pré-sal como incentivo a sua reforma, na busca de um melhor acesso da população.

TROFÉUS

Na Câmara, deputados reviram a PEC 37, que limitaria o poder do Ministério Público na investigação de delitos e conclusão de inquéritos. Falou mais alto a certeza de que a aprovação daquela emenda à Constituição acentuaria os flagelos da nossa polícia judiciária, nacionalmente sucateada, carente de uma profunda revisão de seu ordenamento e operação. Tais marcos podem ser levantados como troféus pela sociedade que foi às ruas pedir a renovação política e social do Brasil.

O julgamento do mensalão, que pode ver revistas as condenações já decididas parece, ao que dizem as redes sociais, a próxima bandeira de luta das ruas. Movimentos já se organizam para acompanhar o voto do ministro Celso Mello, decano do STF e em cujo entendimento está a admissão ou não dos embargos infringentes, discutido recurso que poderá tornar prescrita a punição de alguns crimes de réus já condenados, na histórica ação penal 470. Tudo pode acontecer, inclusive a desmoralização retumbante do mais alto tribunal do país.

Mas não basta protestar; é preciso também construir. Na semana passada, circularam pelas redações fotos de atos de vandalismo, de violência, de agressão gratuita e irresponsável ao patrimônio público e privado, de ofensas a autoridades, militares em especial.

Num registro feito por repórteres fotográficos, um jovem, numa atitude imbecil manipula os dedos e debocha, com o dedo médio em riste, de uma coronel da PMMG, responsável pelo comando do policiamento naquele momento. Esse fato foi registrado mas certamente aconteceram muitos outros. Não é isso que se quer e não se avança politicamente dessa forma. Nos últimos meses muito se semeou. É preciso trabalhar pela qualidade de nossa produção. Não à violência, ao desrespeito e à burrice. (transcrito de O Tempo)

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