Os que nos couberam

Sebastião Nery

Cinco da manhã, fim de outono, já muitos graus abaixo de zero, alguém bateu aflito na porta do quarto do pequeno hotel na Avenida Venceslaw, em Praga, onde a UIE (União Internacional dos Estudantes) hospedava seus convidados que passavam temporadas na Tchecoslováquia.

Era o jornalista João Batista de Lima e Silva, sergipano-baiano, da “Voz Operária”, o órgão oficial do Partido Comunista Brasileiro, depois editor-chefe do “Jornal da Bahia”, em Salvador, um profissional exemplar:

– Companheiro, arrume-se rápido que temos uma tarefa a cumprir. Vamos receber três generais brasileiros que estão chegando daqui a pouco.

Saímos direto para o aeroporto Ruzyné, a dez quilômetros do centro. Era em 1957, no governo de Juscelino, o Partido Comunista ainda ilegal, mas os comunistas já não tão perseguidos. Podíamos sair e entrar no Brasil, desde que o passaporte não fosse carimbado pela União Soviética ou pelos outros países do Leste Europeu, com os quais o Brasil não tinha relações.

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OS GENERAIS

Não entendi a história dos três generais:

– Batista, que generais são esses?

– General Buksbaun, general Carnaúba e general Leônidas Cardoso.

Leônidas Cardoso, pai de Fernando Henrique Cardoso, era deputado federal pelo PTB de São Paulo. Conhecia os três só da campanha “O petróleo é nosso”, em Belo Horizonte e Rio de Janeiro. E sair naquele frio:

– Batista, os três não são mais generais, estão na reserva, no pijama. São os “generais do petróleo”. Será que valem uma pneumonia?

– E daí, companheiro? São os generais que nos couberam.

E os recebemos calorosamente, às seis da manhã, em um frio de dez graus negativos. Valeu a pena. Eram três adoráveis velhinhos nacionalistas.

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“ISTOÉ”

Em 2008, as televisões, jornais e revistas do fim de semana deram um susto no País: “arapongas” (espiões) estavam usando a Abin (Agência Brasileira de Inteligência) e a Polícia Federal, inclusive escritórios, funcionários, telefones, crachás, maletas e malotes, para grampearem, espionarem, seguirem, bisbilhotarem a vida de autoridades dos Três Poderes, ministros, senadores, deputados, até o presidente do Supremo Tribunal Federal.

A denúncia mais retumbante e assustadora  foi da revista “IstoÉ”, assinada pelos veteranos jornalistas Mino Pedrosa e Hugo Marques. Na capa, uma foto macabra, de olhos desconfiados, barba sem fazer: “Exclusivo – O espião – Francisco Ambrosio do Nascimento comandou a equipe de arapongas”.

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A ABIN

Lá dentro: “Os olhos por trás do grampo – Como o agente Francisco Ambrosio do Nascimento, da Abin, coordenou, na Polícia Federal, a equipe que fez a escuta de 18 senadores, 26 deputados, ministros do governo e altas autoridades do Judiciário”:

1 – “Foi da sala situada bem em frente ao gabinete do diretor da Divisão de Inteligência (da Polícia Federal), delegado Daniel Lorenz, que o espião coordenou os trabalhos que resultaram em milhares de horas de diálogos telefônicos gravados, centenas de filmagens e diversos monitoramentos que compõem as entranhas da (Operação) Satiagraha. Numa delas, gravou-se uma conversa telefônica do presidente do Supremo Tribunal, ministro Gilmar Mendes, com o senador Demóstenes Torres (DEM-GO)”.

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A PF

2 – “Da “Máscara Negra”, sede da PF em Brasília, agentes da Abin comandaram operações para seguir o senador Heraclito Fortes (DEM-PI) no Rio e gravar as conversas do senador Demóstenes Torres… No entanto, nem o diretor geral da PF nem o diretor de Inteligência sabiam das missões confiadas e da autonomia concedida ao espião”.

3 – “Quem autorizava o ingresso de Marcio Seltz (agente da Abin) no prédio da PF era alguém que se identificava como Moisés Andrade e atendia o ramal interno. Agora, a PF quer saber quem é Moisés Andrade, uma vez que esse nome não consta no quadro de funcionários… O arsenal clandestino desencadeou uma crise institucional entre os Três Poderes”…

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O PT

4 – “Desde maio (de 2008), o diretor da PF, Luís Fernando Correa, e o diretor da Divisão de Inteligência, Daniel Lorenz, tiveram a certeza de que os grampos ilegais estavam espalhados por todo o País… O descontrole ajuda as desconfianças dos que acusam a PF de trabalhar com fins políticos”.

5 – “A PF e os agentes da Abin conseguiram gravar ilegalmente senadores, deputados e o Judiciário. E se mostraram incapazes de cumprir determinação do STF, que mandou monitorar as conversas telefônicas do secretario nacional do PT, Romenio Pereira. Em carta ao STF, a PF alegou não dispor de recursos técnicos para promover a escuta do petista”.
O ETCO E A ABCF

Muitos se perguntaram: “Que Abin e que PF são essas”? Como diria o meu companheiro João Batista, são a Abin e a PF que nos couberam.

Em minha coluna na Tribuna da Imprensa, no dia 27 de julho de 2006, mostrei que o ETCO (Instituto Brasileiro de Ética Concorrencial), presidido pelo ex-deputado federal paulista Emerson Kapaz, e a ABCF (Associação Brasileira de Combate à Falsificação), dirigida por Fernando Romazini, os dois denunciados pela PF e pelo Ministério Publico, eram duas ONGs de picaretagem a serviço da Ambev (depois vendida à belga Inbev), da Souza Cruz, etc. E eram mesmo.

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