Na seleção, o banco fará bem a Daniel Alves.

Vicente Limongi Netto

Amigo, Até as pedras da rua sabem que Maicon acabou com o jogo. Jogou muito. O banco fará bem(será?) para Daniel Alves. Foi a melhor  partida  do Robinho e, claro, também as melhores partidas de Neymar e Pato.

O gol faz bem, alivia. Ganso se soltou mais no segundo tempo. Não precisa voltar tanto para o meio. Quando aparece mais na área, como é inteligente e tem ampla visão de jogo, deixa na cara do gol quem vem vindo de trás. Pela esquerda, pelo meio ou pela direita. Foi assim que deu o passe para o primeiro gol, e no terceiro, de Pato, quando de costas segurou a bola duas vezes, com toquinhos, até o chute de Neymar e a rebatida do goleiro para o chute imprensado do Pato.

O que também facilita para Maicon, além do fantástico vigor físico que esbanja, é que joga com Lucio na Inter. Lúcio pode subir, não precisa exagerar, pois sabe que Maicon garante a cobertura. Daniel Alves não consegue voltar nem de táxi, para cobrir alguém.

Júlio Cesar falhou em dois gols. Como também falhou na copa, contra a França. Mas o Judas acabou sendo o Felipe Melo. Lembram? Galvão não teve coragem de lembrar que Júlio falhou, e feio, na  Copa. É o Galvão que conhecemos. Uma no cravo, outra na  ferradura.

Ganso, a meu ver, evidente, joga muito mais do que tem jogado. Mas não precisa provar isso para ninguém. Pode errar  mil passes, mas, numa jogada, num toque, numa enfiada, decide o jogo para o Brasil. Quem faz isso? Elias? Nos poupe, Mano.

Tiago Silva também parou de insistir em lançamentos para o Pato. Se convenceu que seleção não é Milan nem ele é Gerson, nem Pato é Romário ou Ronaldo.

Próxima pedreira (é duro dizer isso) é o Paraguai. Todas estas seleções sul-americanas eram nossas freguesas. Hoje, passamos sufoco com elas. Paciência. Lembrei: Ramirez tem que errar menos passes. Num deles, em rápido contraataque adversário, é gol na certa.

Depois do Teatro do Absurdo, faz sucesso no Brasil o Governo do Absurdo, com destaque especial para o Ministério dos Transportes.

Carlos Newton

Desde Ionesco, Beckett e Arrabal, o Teatro do Absurdo faz sucesso e se mantém como um dos gêneros de maior criatividade. Como o próprio nome diz, o Teatro do Absurdo se propõe a revelar o inusitado, mostrando as mazelas humanas e tudo que é considerado normal pela sociedade hipócrita, intensificando bem as neuroses e loucuras dos personagens.

Aqui no Brasil, nossos políticos não poderiam ficar atrás em termos de criatividade e acabam de criar o Governo do Absurdo, que também parece destinado a ter grande sucesso. Vejamos esse curioso episódio do Ministério dos Transportes, que subitamente perdeu seu principal elemento, um ministro ridículo, que desde 2003 se mantinha no cargo, única e exclusivamente para preservar no Senado o suplente João Pedro, grande amigo do ex-presidente Lula, vejam só que início de enredo absurdo.

Faz sucesso na internet um vídeo divulgado pela revista IstoÉ, mostrando que Nascimento jamais teve a menor condição de ser ministro. Pelo contrário, como pode um ministro tão experiente desconhecer a existência da cidade de Imperatriz, a segunda mais importante do Maranhão?

A conversa gravada no Ministério entre Nascimento, o deputado Valdemar Costa Neto e o deputado federal Davi Alves Dias Jr., sobre a construção de uma estrada até Davinópolis (em homenagem a Davi pai, ex-deputado federal), é uma obra de arte em termos de diálogo absurdo.

Alfredo NascimentoJá vou logo copiar aqui o pedido dele… Davi Alves da Silva Júnior, BR- 010, construção da travessia urbana…

Deputado Valdemar Costa Neto… de Imperatriz.

Deputado Davi Alves da Silva JúniorImperatriz, acesso a Davinópolis.

Costa Neto Já começou o projeto, não é, Davi?

Davi Júnior Já.

Costa Neto Já estão contratando, já está na fase final, viu, Alfredo?… Por isso que ele (deputado Davi Júnior) veio aqui te agradecer.

Nascimento Ah!… É aquele negócio que tu me pediste?

Costa NetoÉ, é…

NascimentoPra ele? (referindo-se ao deputado Davi Alves)

Costa Neto É…

NascimentoRapaz, tu não tá nem no partido e já tá conseguindo arrancar as coisas daqui, imagina quando estiver no partido! (diz, dirigindo-se ao deputado Davi) (risos).

Na sequência da conversa, o ministro faz uma rápida leitura no texto que libera R$ 1,5 milhão para a obra e demonstra assinar de qualquer jeito o documento indicado por Costa Neto, sem saber do que se trata, nem mesmo em que lugar do Maranhão o projeto será implantado. Quem dispunha de todas as informações é Costa Neto, que agia como se fosse o verdadeiro ministro.

Nascimento – … (lendo o documento) informo que está sendo liberado nesta data limite adicional para movimentação do empenho, no valor de um milhão e meio de reais…

Costa Neto Um milhão e meio, você que liberou.

Nascimento(ainda lendo o documento) … Ação… estudo de viabilidade e projeto de infra-estrutura de transporte, travessia urbana, na divisa das cidades de Divinópolis e Imperatriz.

Davi Júnior Davinópolis (corrigindo o nome da cidade maranhanse).

Nascimento São duas cidades?

Costa Neto É Davinópolis… “Da”…

Davi JúniorNão, Davinópolis é a entrada, né?… seria a entrada.

Nascimento São duas cidades?

Davi JúniorSão duas cidades, isso.

Costa Neto Mas são ligadas?… Não?… não?…é só acesso.

Davi Júnior É só acesso, é BR e o acesso… tem aquele bairro, que é o conjunto Vitória, onde… acontece mais acidente é ali.

NascimentoPorque o acesso a gente só pode fazer até cinco quilômetros…

Costa Neto… Mas estão fazendo o projeto já… Só pega a parte da BR, não vai entrar na cidade… Isso que você liberou.

No final da conversa, mais uma vez o ministro mostra que não tinha conhecimento sobre a obra que estava aprovando.

Nascimento É Davi ou Divinópolis?

Davi JúniorÉ Davi… Ah, que botaram Divinópolis aqui (olhando para o documento), é Davi… é Davi mesmo.

Nascimento Porra, você dono da cidade?

Costa Neto É Davi, por causa do nome dele, por causa do pai dele, o pai dele que fez a cidade, o pai dele era deputado federal, Alfredo.

Nascimento … (observando os documentos) Então Davinópolis e Imperatriz… Mas não são as duas, é só uma.

Como esse tipo de ministro e essa atuação do Ministério, a presidente da República não teve opção: em pleno fim de semana, mandou demitir a cúpula do Ministério dos Transportes, formada por Luiz Antônio Pagot, Mauro Barbosa, Luiz Tito Bonvini e José Francisco das Neves, o Juquinha, muito ligado ao deputado federal Valdemar Costa Neto (PR-SP), que em 2005 renunciou ao mandato para escapar da cassação por causa de envolvimento no mensalão, configurando um caso de reincidência específica em corrupção. Em seguida, o próprio ministro Alfredo Nascimento foi demitido. 

Um dos executivos afastados, Luiz Antonio Pagot, diretor do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), se recusou a obedecer à ordem da presidente da República e entrou de férias. Logo insinuou que recebia ordens do governo para aditar contratos e praticar outras irregularidades, através do então ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, e até se ofereceu para depor no Congresso.

Diante dos parlamentares, no Senado,  mudou tudo e fez uma ardorosa defesa do Ministério e do Dnit, garantindo que lá não existe corrupção. Seu padrinho e protetor, o senador Blairo Maggi, imediatamente saiu na defesa dele e propôs que Pagot permaneça no cargo, era só o que faltava.

Ontem, Pagot prestou novo depoimento, na Câmara,  e desta vez disse que recebeu “orientação” para sair em férias logo após as denúncias de irregularidades no Ministério dos Transportes. Neste segundo depoimento, na Câmara, ele falou diversas vezes como se fosse permanecer no cargo.

Desta vez, Pagot não falou de quem recebeu a orientação para sair de férias. Na terça-feira, porém, durante audiência no Senado, disse que foi o ex-ministro dos Transportes, Alfredo Nascimento.

“Recebi instrução para entrar de férias. O meu afastamento foi publicado nas revistas, mas minha instrução foi para sair de férias. Se vou continuar de férias só depende de Dilma”, afirmou.

Bem, no Governo do Absurdo, onde se faz tanto teatro, tudo é mesmo possível. Como a corrução continuidada e e incompetência preservada. Mas que país é esse? Só Frncelino Pereira saberia responder. Absurdamente, é claro.

Positivo o saldo de seis meses

Carlos Chagas
                                               
A partir de hoje, mais do que nas outras quintas-feiras, não se encontrará  um deputado ou senador em Brasília. Só por milagre, porque apesar  de o recesso parlamentar de julho  iniciar-se na próxima segunda-feira, ninguém é de ferro. Funcionamento do Congresso, agora, só em agosto.

A pergunta que se faz, acima do balanço sobre  os  trabalhos legislativos,  refere-se ao relacionamento  do Congresso com o governo Dilma Rousseff. Estaria tudo maravilhoso se fosse pelo coquetel oferecido ontem à noite pela presidente aos líderes e dirigentes partidários, no palácio da Alvorada. Só evoés, alvíssaras e lantejoulas. Na realidade, as coisas não se passaram assim. Momentos houve em que bateram de  frente, desde a escolha do novo ministério ao preenchimento ainda inconcluso dos cargos de segundo  escalão, sem esquecer a mais recente lambança interrompida pela        presidente ao afastar o PR da copa e cozinha do ministério dos Transportes.
                                              
Ainda existem contas a ajustar entre Dilma  e os partidos da base parlamentar do governo. A presidente sofreu pressões, em especial do PMDB, mas também do PT. Chegou a atritar-se  com o vice-presidente Michel Temer, o líder maior do PMDB. Não terá gostado de alguns ministros que lhe foram impostos pelo partido, como ministros de outros partidos, também, mas sem ser uma expert na arte de engolir sapos, conseguiu degluti-los.  Entendeu e foi entendida, até agora. Sendo assim, o saldo desses primeiros seis meses é positivo. Alguns reclamam que ela poderia ter sido mais dura, mais inflexível, como era de seu estilo na chefia da Casa Civil.  Melhor assim.

***
NEM TÃO FIRMES COMO PARECE
                                                                  
Dias atrás, num de seus improvisos, a presidente Dilma Rousseff aproveitou para elogiar alguns de seus ministros que a imprensa vinha considerando não apenas inócuos, mas candidatos a deixar de ser ministros. Alguns sequer haviam despachado isoladamente com a chefe do governo, seis meses depois de empossados. Tratava-se dos ministros impostos a Dilma por força de acordos partidários. Vamos evitar o constrangimento de citá-los nominalmente, mas estão á vista de todos. Depois dos elogios,  inflaram o peito  se consideraram inamovíveis.  

Pode não ser bem assim. Porque as raízes de sua fraqueza continuam enterradas na areia. Há quem preveja,  para o segundo semestre,   demissões que não serão em massa, mas poderão atingir dois ou três desses personagens que até agora não disseram a que vieram.

***
PASSOU EM BRANCO
                                                                  
Depois do fiasco que foi o depoimento de Luiz Antônio Pagot no Senado, terça-feira, verificou-se como o dia seguinte sempre consegue ficar um pouquinho pior do que a véspera. Na Câmara, ontem, o ex-diretor-geral do Dnit contribuiu menos ainda para esclarecer as denúncias de corrupção no ministério dos Transportes. Limitou-se a repetir a leitura do organograma do órgão que dirigiu, não respondendo às indagações  sobre o porquê da demissão de quatro altos funcionários do ministério, inclusive ele, e, muito menos, do já agora ex-ministro Alfredo Nascimento. Em suma, tempo perdido para todo mundo.
 
***
ALGUÉM LUCROU
                                                                  
Deu em nada o carnaval feito em torno da fusão dos supermercados Pão de Açúcar e Carrefour, depois que a presidente Dilma Rousseff mandou  o BNDES sair de campo. Menos num detalhe: quando a operação foi anunciada, então com a participação do banco, registrou-se súbita e expressiva alta nas ações do Pão de Açúcar. Muita gente ganhou dinheiro sem trabalhar, apenas conhecendo de antemão a tentativa. Capitalismo é assim.

Aposentadoria do INSS: defasagem é muito maior do que o STF imagina

Pedro do Coutto

Numa decisão de setembro de 2010 somente divulgada pelo STF na tarde de terça-feira, a Corte Suprema, por unanimidade, determinou a correção de 131 mil aposentadorias e pensões pagas pelo INSS aos trabalhadores que se aposentaram no espaço de tempo compreendido entre abril de 91 a janeiro de 2004. Li com atenção as matérias sobre o assunto de Geralda Doca, O Globo, Ana Carolina Oliveira, Folha de São Paulo, Lu Aiko Otta, O Estado de São Paulo, todas publicadas nas edições de quarta-feira 13. Infelizmente o texto integral do julgamento do Supremo não foi ainda divulgado e é fundamental que seja para que todos possam analisá-lo ampla e corretamente.

As leis, emendas constitucionais e acórdãos têm que ser lidos na íntegra. Os recursos, por melhores que sejam, caso dos que estão nas páginas daqueles três jornais, não são suficientes para que se possa ter uma visão geral e mais profunda do conteúdo da sentença. Ele certamente é muito mais amplo e dá margem a reflexos em sequência. Pois se o Supremo decidiu corrigir uma determinada defasagem, abril de 91 a Janeiro de 2004, nem por isso corrige todas as defasagens que envolvem o relacionamento administrativo entre o Instituto Nacional de Seguridade Social, de um lado, e os milhões de aposentados e pensionistas de outro.

Vou esperar o texto integral a ser publicado em Diário Oficial. Mas a defasagem é flagrante e atinge especialmente em cheio todos os segurados da Previdência cujos vencimentos são maiores que o salário mínimo. Dos 28 milhões de aposentados e pensionistas (10 milhões praticamente para cada parte), apenas sete milhões têm vencimentos superiores ao piso básico nacional. São as maiores vítimas do labirinto chamado INSS. Basta ver o seguinte: quem se aposentou com o teto de dez salários, hoje recebe no máximo 5,5. Onde está a preservação do valor da aposentadoria ou da pensão?

Em lugar algum. A descapitalização decorreu de um longo processo iniciado no governo Fernando Collor, revertido pelo presidente Itamar Franco, retomado por Fernando Henrique, não corrigido por Lula, a não ser em 2009 e 2010, e que permanece ainda indefinido nas mãos e na mente da presidente Dilma Roussef. Isso tudo aconteceu porque foram concedidos aumentos ao salário mínimo acima dos índices inflacionários do IBGE, mas não estendidos aos inativos que se aposentaram com valores superiores ao piso básico.

Para comprovar tal rebaixamento basta dizer que, como a Consultoria ICA divulgou recentemente, enquanto o salário médio brasileiro está em torno de 1 mil e 500 reais por mês, setenta e cinco por cento dos aposentados e pensionistas do INSS ganham apenas o salário mínimo. A perda, portanto, é enorme quando da passagem do trabalho para o andar de baixo da seguridade, classificação usada por Élio Gáspari, inspirado no clássico Metrópolis de Fritz Lang.

Essa perda é estrutural e mais dramática do que aquela que envolve os que estão no andar do meio. Mas nem por isso esta segunda perda deixa de ser  real e intensa. E já que o governo não age para corrigi-la, que o STF preencha esse vazio legal. Vazio legal, uma expressão usada por Santiago Dantas para dar exemplo concreto da eficácia insubstituível da lei. Sem lei – dizia – não há civilização.

A questão é simples, tornada complexa pela disposição negativa que marca a situação do INSS. Um empregado contribui a vida inteira sobre determinado número de mínimos de 1 a 10, teto máximo. Porém quando se aposenta passa a ganhar menor número de mínimos do que aqueles para os quais foi descontado. Surge uma defasagem até inconstitucional. Porque o parágrafo 4 do art. 201 da CF diz textualmente:”É assegurado o reajustamento dos  benefícios (direitos) para preservar-lhes, em caráter permanente o valor real, conforme critérios definidos em lei”. Mais claro impossível, acrescentamos eu e a torcida brasileira.

O galope de Cristina

Sebastião Nery

O motorista que me levava, no meio da  tarde, em outubro de 2007, para o comitê de campanha (eles chamam de “bunker”) da Cristina Kirchner, no hotel Intercontinental, para as bandas da 9 de julho e da “Casa Rosada”, um senhor elegante, bem vestido, paletó e gravata apesar do belo dia ensolarado, não tinha duvida nenhuma sobre o resultado da eleição:

– Ela vai ganhar. Contra meu voto mas vai ganhar. Não voto em gente peronista . Vai ser a vitória do “vo-tox” : muito voto e muito botox.

Ria da própria piada , mas era um riso meio raiva, de escárnio. Já era a terceira cena, mais ou menos igual, a que eu assistia desde a manhã. No café do hotel “Kempinski”, na esquina da Alvear, ao lado da embaixada brasileira, dois grupos, em mesas separadas, falavam de coisas diferentes, turistas do interior comentando a cidade. Em uma das mesas, uma mulher folheava o “O Clarim” e aparecia a foto, bem grande, da Cristina Kirchner.  

Um mulher da outra mesa, sem falar uma palavra qualquer, abriu bem a boca,  pôs para fora uma língua enorme, rosada, e ficou assim até a dona do jornal perceber que ela estava botando a língua para a candidata Kirchner. 

Mais do que o escárnio do motorista, era raiva mesmo.

***
NO TAXI

A segunda foi no primeiro táxi que tomei, na porta do hotel, para ir a uma das deslumbrantes livrarias “El Ateneo”, na avenida Santa Fé, exatamente comprar os ultimos livros da campanha eleitoral e principalmente o da veterana e competente jornalista Olga Wornat:“Reina Cristina” (Planeta). 

Os melhores repórteres de uma cidade são sempre os taxistas. Vou logo puxando conversa. Mas percebi que o jovem motorista, cabelo bem negro, italianado, mudou de assunto quando perguntei pelas eleições. Insisti, reagiu:

– Desculpe o senhor, mas não falo de política, muito menos de eleição. Ao menos desta eleição. Já sei que o casal vai ganhar, que meus candidatos vão perder e não vai ser bom para a Argentina, porque os pelegos da CGT (Confederação Geral dos Trabalhadores) vão voltar a ter força e influencia.

 ***
RADICAIS

– Quem são seus candidatos?

– Os radicais da UCR (União Cívica Radical), de Frondisi e Alfonsin, que se dividiram entre a “Gorda” Carrió e o professor e ex-ministro da Econonia, Lavanha. Qualquer um dos dois seria um bom presidente, organizando a economia, sem o perigo que é essa dona Cristina jogar o pais na desordem com os sindicalistas, o que não conseguiram  fazer com o Kirchner e que aliás foi o unico mérito dele. Mas essa gente é sempre a mesma, vem desde Perón. Sobem os salários, esculhambam a economia e vem a inflação.

Tentei avançar o passo, lembrando que a Cristina só estava forte assim porque o marido Kirchner tirou o pais do buraco em que Menem jogou e  o pôs para crescer a 9% ao mês. Isso era ruim ou bom?  Cortou o assunto:

– Por favor, não vamos falar de política. Mesmo acertando, são ruins. 

***
PERONISTAS

Ninguem mais parecido com um getulista do que um peronista. Da mesma forma que o petista é um getulista ou peronista de roupa nova.

Estava lá em 2003 e 2007 e vi. Sem Perón, nem Kirchner teria vencido em 2003 nem a Cristina em 2007. São netos dele. A espetacular vitoria dela em 2007, em quase todas as províncias, exceto cinco, era a continuidade da fidelidade do povo à memória de Perón. Viram nele o herdeiro de Perón.  

Só isso explica que a radical Curió tenha tido fantastica vitória na capital, Buenos Aires, pequena em território e em votos, e na Provincia de Buenos Aires, que representa 40% da população e do eleitorado, a Cristina tenha tido, sozinha, mais de 45% de todos os votos.

É só fazer o mapa social da capital e da província para ver que a capital é a Avenida Paulista,  a Zona Sul do Rio, onde as elites sempre venceram. Enquanto isso, todo o grande cinturão industrial da Província de Buenos, com seus trabalhadores sindicalizados e a CGT ainda liderando, votou fechado em Cristina, como quando votava em Perón. Em nome dos trabalhadores.

***
OPOSIÇÃO

Domingo, a oposição abriu o jogo. Seus dois mais fortes candidatos a presidente em outubro desistiram. O prefeito de Buenos Ayres, Mauricio Macri e o cineasta Pino Solanos disputaram a prefeitura, que representa só 8,6% dos eleitores. Macri teve 45,4% no primeiro turno e Daniel Filmus, candidato de Cristina, 29,7%, o que os peronistas jamais tiveram na capital. 

Nas oito eleições regionais que já houve, a Cristina venceu na maioria. Domingo, 14 de agosto, as primárias indicarão o rumo argentino em outubro.

Pagot tem razão, não há corrupção nos Transportes. A presidente Dilma então precisa anular a demissão da quadrilha e do ex-ministro Alfredo Nascimento.

Carlos Newton

O Brasil é um país muito estranho. A presidente da República manda demitir a cúpula do Ministério dos Transportes, formada por Luiz Antônio Pagot, Mauro Barbosa, Luiz Tito Bonvini e José Francisco das Neves, o Juquinha, muito ligado ao deputado federal Valdemar Costa Neto (PR-SP), que em 2005 renunciou ao mandato para escapar da cassação por causa de envolvimento no mensalão, configurando um caso de reincidência específica em corrupção. Em seguida, o próprio ministro Alfredo Nascimento foi demitido. 

Um dos executivos afastados, Luiz Antonio Pagot, diretor do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), se recusou a obedecer à ordem da presidente da República e entrou de férias. Logo insinuou que recebia ordens do governo para aditar contratos e praticar outras irregularidades, através do então ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, e até se ofereceu para depor no Congresso.

Diante dos parlamentares, porém, mudou tudo e fez uma ardorosa defesa do Ministério e do DNIT, garantindo que lá não existe corrupção. Seu padrinho e protetor, o senador Blairo Maggi, imediatamente saiu na defesa dele e propôs que Pagot permaneça no cargo, era só o que faltava.

Mas se é assim, por que a presidente Dilma não confessa que cometeu um gravíssimo erro, ao denegrir a imagem de um ministro, quatro executivos e um deputado federal. Em seguida, deve reconduzir a quadrilha toda, incluindo o verdadeiro chefe, deputado Valdemar Costa Neto, que tinha até sala privativa no Ministério para “despachar” mais à vontade.

A presidente precisa também determinar à Polícia Federal que interrompa os 74 inquéritos em andamento. Da mesma fora, acionar a Controladoria-Geral da União para que cancele suas investigações e destitua imediatamente a comissão recém-instaurada para a fazer uma sindicância patrimonial e apurar as denúncias de enriquecimento ilícito de Mauro Barbosa, ex-chefe de gabinete do ex-ministro dos Transportes, Alfredo Nascimento – um dos primeiros demitidos na crise do setor, desencadeada no fim de semana passado. Mauro Barbosa está construindo uma mansão de 1,4 mil m² no Lago Sul, bairro nobre de Brasília, avaliada em mais de R$ 5 milhões.

Mauro Barbosa, que por coincidência é funcionário de carreira da CGU (analista de finanças e controle, está afastado do órgão há mais de sete anos), tão logo deixou seu cargo no Ministério dos Transportes tratou de entrar de férias por 30 dias. Ele comunicou sua decisão à Controladoria, a exemplo do que fez o diretor-geral do Dnit, Luiz Antônio Pagot.

Primeiro, ele foi cedido para a Câmara dos Deputados e, em seguida, para o Dnit e depois, finalmente, para o Ministério dos Transportes. Assim que terminarem as suas férias, ele deverá se reapresentar à CGU.

Pela legislação, seu chefe imediato poderá afastá-lo por até 120 dias, sem prejuízo financeiro, mas somente depois que se passarem os primeiros 30 dias e a sindicância estiver bem encaminhada é que a CGU tomará uma decisão em relação ao seu destino. O afastamento normalmente só ocorre em caso de o funcionário atrapalhar a investigações.

Segundo a CGU, no Ministério dos Transportes há pelo menos mais 150 processos admistrativos disciplinares em andamento. Há ainda mais 18 instaurados pela Controladoria, todos  também em andamento. É tudo uma  brutal perda de tempo, pois como diz Pagot, não há corrupção no Ministério dos Transportes.

Sergio Cabral baixou Código de Conduta Ética, mas está morando no apartamento de um empresário amigo.

Carlos Newton

O governador Sergio Cabral, ao que parece, está necessitando de cuidados médicos especiais. Depois de toda a confusão das graves denúncias de envolvimento com empresários amigos, que o fizeram pedir desculpas à população e aprovar rapidamente um Código de Conduta Ética, para que pudesse saber o que é certo ou errado, agora ele separou da mulher e está morando na casa de um empresário amigo.

A revelação foi feita pelo jornalista Ricardo Setti em seu blog e está circulando celeremente na internet. A assessoria de Cabral respondeu que o empresário generoso, Guilherme Paes, um dos diretores do banco de investimentos BTG Pactual e irmão do prefeito do Rio, Eduardo Paes (PMDB), tem “zero negócios” com o governo do Estado.

Ao concluir essa notícia, Ricardo Setti faz uma indagação: “Mas me digam uma coisa, amigos: no lugar de Cabral, a quem não faltam dores de cabeça, vocês fariam isso? Ou optariam por um hotel, a casa do pai – no caso, o jornalista e grande especialista em música popular Sérgio Cabral –, de um irmão? Por que não o bom e velho flat? O que é que custaria ao governador do Rio evitar mais confusão? Me expliquem, que eu quero entender.”

Ora, Setti, tentar entender a cabeça de Sergio Cabral é entrar por andros e meandros e mergulhar num verdadeiro labirinto psicossomático. É melhor ficar de fora, apenas observando, porque Cabral é muito capaz, quer dizer, é capaz de tudo.

Agora, por exemplo, o governador acaba de aprovar um gigantesco aumento das verbas oficiais destinadas ao setor de publicidade e imprensa. Em dois decretos publicados após as acusações, Cabral elevou de R$ 55,7 milhões para R$ 120,7 milhões a autorização para gastos com Serviços de Comunicação e Divulgação, elevação de 116,75%. Até ontem, já foram empenhados R$ 75,6 milhões e liquidados R$ 67 milhões. Isso significa que os novos R$ 120,7 milhões se somam a estes R$ 75,6 milhões já empenhados.

Abilio Diniz acorda do delírio e desiste do Carrefour. E quem ficou muito mal foi o BNDES, que está sendo pessimamente gerido.

Carlos Newton

O espertalhão Abilio Diniz desistiu do plano de união do Pão de Açúcar e do Carrefour no Brasil, anunciado há duas semanas. A decisão ocorreu no mesmo dia em que o sócio da varejista brasileira, o Casino, se posicionou oficialmente contra o negócio e que o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) cancelou seu apoio à operação.

O francês Casino, que vinha descrevendo a proposta de fusão como “hostil e ilegal”, disse que seu Conselho de Administração rejeitou por unanimidade a tentativa de aliança do Pão de Açúcar com seu rival Carrefour.

Em nota, a Península Participações, que representa os interesses da família Diniz, disse reconhecer “que, nas presentes condições, não é factível prosseguir” com a atual proposta de fusão. Diniz, que atualmente divide o controle do Pão de Açúcar com o Casino por meio da holding Wilkes, esteve na reunião do Conselho do sócio francês em Paris, mas não participou da votação.

Agora, que o sonho acabou, quem ficou muito mal foi o BNDES, que não tinha de apoiar os delírios de Diniz, ao invés de se preocupar com os interesses  brasileiros. Sob comando de Luciano Coutinho, o BNDES tem sido uma decepção.

***
O BNDES E OS BRASILEIROS 

Delfim Netto

É no mínimo estranha a interferência do BNDES numa transação privada, que deveria ser conduzida exclusivamente pelos sócios, como esta que envolve as empresas que comandam as redes mercadistas Casino, Pão de Açúcar e Carrefour. Não vi nenhuma razão que beneficiasse o Brasil com essa participação.

O que está aparente é que o dinheiro do banco seria usado para pagar os acionistas do Carrefour francês que estão querendo sair do negócio. Nunca se imaginou que esta poderia ser a sua função.

O BNDES é uma instituição muito importante para os brasileiros. Concentra um volume substancial de recursos públicos (e que, portanto, são subtraídos de todos os contribuintes) e recursos privados (que, no fundo, são dívidas contingentes do Estado brasileiro) destinados a financiar o desenvolvimento de nossa economia e a estimular o fortalecimento do mercado de capitais.

Sua criação, com a sigla BNDE, data de 1952, como instituição destinada ao financiamento dos programas da Comissão Mista Brasil-Estados Unidos, com aportes iniciais de recursos do Banco Mundial e do Eximbank.

Posteriormente, incorporou o Finsocial e com ele o “S” da nova sigla e criou uma subsidiária BNDESPar, uma sociedade anônima destinada a agilizar a missão do banco em participações acionárias para, basicamente, fortalecer o mercado de capitais; dinamizar empresas privadas nacionais; facilitar a criação, transferência e incorporação de novas tecnologias e estimular o fortalecimento gerencial de empresas nacionais.

O BNDES tem um corpo técnico de reconhecida competência. Até duas décadas atrás,  escolhiam – ou procuravam escolher – projetos nacionais pioneiros com boa taxa de retorno no longo prazo e alta probabilidade de sucesso.

Em anos recentes, porém, ele tem sido induzido por obra e arte do poder executivo de plantão a apoiar ambiciosos programas cujos resultados têm sido duvidosos.

Estimularam a criação de oligopsônios combinados com oligopólios (poucos compradores em mercados com milhares de fornecedores e milhões de consumidores), o que lhes dá enorme poder econômico e a possibilidade de controlar as margens de seus fornecedores e impor preços mais altos aos consumidores.

Mais do que isso, o BNDES tem sido chamado para salvar bancos privados que se meteram no financiamento entusiasmado de alguns setores sem a preocupação de aumentar-lhes a eficiência.

Envolve-se agora, de forma pouco razoável, numa intriga comercial entre dois sócios que nada tem a ver com o interesse nacional. Sem maiores cuidados deu apoio antecipado a uma operação que seria “boa para todos”, exceto para os consumidores e fornecedores brasileiros que mais uma vez seriam contrastados com um aumento do poder econômico.

No final, o recurso do BNDES (ou seja, o nosso dinheiro) iria reforçar um “campeão francês” em pura decadência comprando ações na França dos controladores do Carrefour que querem vendê-las e não têm para quem…

O trem-bala não passa de uma brincadeira provinciana de um governo que não sabe distinguir quais são os verdadeiros interesses nacionais.

Carlos Newton

É inacreditável a insistência do governo em implantar o trem-bala. Depois do fracasso do leilão de segunda-feira, esperava-se que o Planalto colocasse o pé no freio e diminuísse a velocidade do insano projeto. Mas não. O governo comporta-se como se estivessem de antolhos e não pudesse olhar para os lados.

A solução foi bestial, como dizem nossos irmão lusitanos.A Agência Nacional de Transportes Terrestres decidiu dividir em duas a licitação. Vai licitar primeiro o modelo de tecnologia (coreano, japonês ou europeu, por exemplo). Depois de definida a tecnologia, será feita a licitação das obras de engenharia.

O governo não tem nem ideia do preço da obra, nesse país ainda com bolsões em tudo carentes. Os “especialistas” avaliam que assim ficará mais fácil estimar o custo da empreitada, que deverá ser aberta para participação de construtoras internacionais. É muito amadorismo, não é mesmo?

“Não estão previstas mudanças estruturais no novo edital, previsto para ser lançado até outubro, nem novos cálculos econômicos”, afirmou o diretor-geral da Agência Nacional de Transportes Terrestres, Bernardo Figueiredo.

“Não estou mudando a essência, só a forma de licitar”, alegou Figueiredo, que estima o valor total da obra em R$ 33 bilhões – aproximadamente R$ 9 bilhões para equipamentos e operação e R$ 24 bilhões para obra. “Não vamos desfigurar o projeto para atender um perfil de empresas”, argumentou.

Como todos sabem, o leilão do trem da alta velocidade fracassou porque nenhum grupo se apresentou na concorrência. Segundo o “especialista” Figueiredo, que tem explicações para tudo, o fracasso foi motivado pela dificuldade das empresas detentoras de tecnologia de formar aliança com as empresas de construção nacionais. Por isso o governo acredita que, fatiando o processo, o leilão será um sucesso.

Apenas grupos que detêm tecnologia, e que estavam interessados em atuar como fornecedores, estiveram na Bovespa para verificar se havia ou não interessados no empreendimento. Compareceram grupos da França, do Japão e da Coreia do Sul, além de dois outros que nem quiseram se identificar.

Na verdade, sempre ansiosos em agradar a quem está no poder, as autoridades do segundo escalão do governo brasileiro não medem esforços. Defendem os projetos mais idiotas, aplaudem as ideias mais estapafúrdias, incentivam as propostas mais escalafobéticas, porque vale tudo para bajular os poderosos, até mesmo se expor ao ridículo.

É o que está acontecendo com o economista Luciano Coutinho, presidente do BNDES, que se prepara para abrir os cofres do banco estatal e subtrair-lhe dezenas de bilhões de reais, a pretexto de financiar essa nova brincadeirinha do governo Lula Rousseff. Para justificar tamanho desperdício num país com tantas necessidades básicas, afirmou o consagrado economista:

“O trem-bala é um projeto da maior importância, porque seu percurso vai unir os três maiores aeroportos do Brasil, em São Paulo, Campinas e Rio de Janeiro”.

Diante dessa declaração lapidar, pode-se concluir que, com pensadores como Luciano Coutinho, não há trem-bala que consiga conduzir o Brasil para a frente. Afinal, qualquer criança sabe que o veículo de transporte que liga os aeroportos é o avião, jamais o trem.

É tudo muito prático e funcional. Poderemos dizer que, agora sim, os maiores aeroportos estarão realmente “interligados”. Isso porque vivemos num país governado por políticos moderninhos e provincianos, que sonham em imitar tudo que veem nos países estrangeiros, ao invés de raciocinar sobre as verdadeiras necessidades brasileiras.

Se ainda estivéssemos no regime militar, o ministro Juracy Magalhães resolveria a questão com apenas uma frase. Ao invés de proclamar “o que é bom para os Estados Unidos, é bom para o Brasil”, ele faria o percurso contrário e diria: “O que não é bom para os Estados Unidos, não é bom para o Brasil”.

Ora, se a Matrix mundial segue se recusando a adotar a novidade, por ser antieconômica e não resolver nada em matéria de transportes, porque a Filial aqui continua querendo enveredar por outro ramal? Por que não aproveitar essa gigantesca verba para melhorar as ferrovias ainda existentes e recuperar as que foram extintas?  Ou melhorar os aeroportos, portos e rodovias, diminuindo o chamado Custo Brasil?

O mais interessante, no caso, é a incrível velocidade com que aumenta o valor do trem-bala brasileiro. Quando se lançou a idéia, a obra custaria cerca de R$ 10 bilhões e seria inteiramente custeada com recursos privados. Antes mesmo de ser projetada, rapidamente já estava em R$ 33 bilhões. Mas ainda é pouco, porque nem apareceram interessados. E todos sabem que a infeliz iniciativa não sairá por menos de R$ 50 bilhões, vejam só como funciona essa espantosa máquina de sugar dinheiro público.

Quando lançou o projeto, o maquinista Lula estava encantado com o trenzinho de brinquedo e logo criou uma estatal, com capital inicial de modestos R$ 3 bilhões, para administrar a obra e 80% de seus investimentos, que serão financiados pelos cofres subsidiados do BNDES.

Mas a obra, de prioridade duvidosa diante de tantas outras carências nacionais na área da infraestrutura, só terá algum concorrente em leilão, nos moldes em que está organizada, se o governo entrar com todos os recursos. Os ditos interesses privados somente aflorarão com muito incentivo púbico, tal o espírito de aventura e a falta de planejamento que caracterizam o velocíssimo projeto.

Na verdade, o trem-bala não passa de uma brincadeira provinciana de um governo que não sabe distinguir quais são os verdadeiros interesses nacionais. É por isso que já está sendo chamado de “trem-bala perdida”.

Desencontros, avanços e recuos

Carlos Chagas

 Continuamos assistindo a  um festival de desencontros, avanços e recuos do governo e de sua base parlamentar. Afinal, a presidente Dilma Rousseff demitiu com desonra  quatro altos funcionários do ministério dos Transportes,  e depois, o  próprio ministro, para deixar aquele setor da administração federal nas mãos da mesma quadrilha do PR,  que o dilapidava? Se não era assim,  por que convidou o senador Blairo Maggi para novo ministro? Se estava mesmo determinada a fazer de Paulo Passos o titular do ministério, por que demorou tanto para confirmá-lo?

E o PR, que repudiou a designação interina do secretário-executivo do ministério,  como logo depois curvou-se à sua nomeação? Dilma participou ou não a senadores do PR haver-se decidido por Paulo Passos? O palácio do Planalto  diz que sim, Blairo Maggi, que não. Mas tem mais: Luiz Antônio Pagot prometeu revelar que autoridades situadasno governo Lula e no PT,  acima dele,  decidiam a respeito do superfaturamento de  obras rodoviárias, mas, depois, desmentiu a intenção. Teria sido pressionado pela cúpula do PR, tendo esta se acertado com a presidente da  República?  Afinal, houve roubalheira ou não, no ministério dos Transportes?  Quem será responsabilizado? Quem  vai pagar?

Um adendo: e as  empreiteiras, as que contribuíram com altas comissões e propinas para dirigentes do PR, serão identificadas, consideradas inidôneas,  perdendo  seus contratos?

***
 O PARTO DA MONTANHA

Como acontece faz tempo, a montanha gerou um rato. Na administração pública, sempre que alguém se vê  caído  em desgraça, começa fazendo ameaças. Anuncia que contará tudo o que se passou nos bastidores, acusando autoridades superiores como responsáveis pelas irregularidades causadoras de seu infortúnio.  Põe o mundo em polvorosa, sem saber se fala a verdade e se efetivamente dispõe  de  provas contra seus superiores. No fim, é convencido a calar, sabe-se lá porque variados métodos de persuasão. 

Uma única frase de Luiz Antônio Pagot em seu depoimento de ontem, no Senado, condensa essa prática centenária entre nós: “ele nunca me exigiu  nem me pediu nada”.

Ele, no caso, é o ministro  Paulo Bernardo, que ocupava o Planejamento no governo Lula e há dias  foi denunciado  por Pagot como quem ditava o  comportamento do Dnit, inclusive escolhendo empreiteiras de obras e  autorizando superfaturamentos. De repente, a acusação se esvai, o depoente nega tudo o que antes  vazou para a imprensa.  Alguma coisa terá acontecido, nesse interregno. Entre mortos e feridos salvaram-se todos. Pagot não fez denúncias e a culpa, como sempre, será debitada aos  meios de comunicação.        

***
VEXAME

Vexame, mesmo, ontem, nessa lambança envolvendo Luiz Antonio Pagot, o PR e  o  governo,  foi a súbita interrupção da transmissão  do depoimento do ex-diretor-geral do Dnit  nas Comissões de Infra-estrutura e Meio Ambiente do Senado.  Quando eram formuladas as primeiras indagações capazes de elucidar  denúncias de corrupção no ministério dos Transportes, a TV-Senado entrou com imagens de uma reunião da Comissão de Economia onde se discutiam  empréstimos para o governo do Rio de Janeiro. Trocaram  Pagot pelo Pezão. 

Fica difícil acreditar que tudo não passou da aplicação dos postulados da emissora, dentro da hierarquia de transmissão dos trabalhos das comissões.   Obviamente vieram de  cima  ordens para tirar do ar uma  discussão que deixava todo mundo mal, a começar pelo governo.   

Adiantou muito pouco, pois a imprensa inteira continuou acompanhando o depoimento de Pagot. Infelizmente, tratou-se de  mais uma  demonstração de estarem  os meios de comunicação estatais e públicos submetidos a forças e  a  interesses situados além da natureza do jornalismo, que é  divulgar os fatos  importantes.

***
EM RITMO LENTO

Com todo o respeito, mas acaba de ser encenada outra novela-tartaruga. Há três semanas que os supermercados Pão de Açúcar e Carrefour anunciaram a disposição de se unir numa só empresa, sob os auspícios do BNDES, que entraria com 4 bilhões de reais. Mais do que surpresa, a informação  despertou indignação.  Por que usar  recursos públicos num negócio exclusivamente privado?  Apesar da gritaria na imprensa e no Congresso, o governo endossou a fusão das empresas. A chefe da Casa Civil confirmou e apoiou o ingresso dos recursos do  BNDES.

Agora vem a presidente Dilma e dá o dito pelo não dito. Quer  aquele banco público  de desenvolvimento econômico e social  fora da operação privada. Uma decisão acertada, mas profundamente lenta. O desgaste é evidente, para o governo.

Poder público está bancando todos os estádios da Copa de 2014

Pedro do Coutto

Reportagem – aliás excelente – de Fernanda Odila, Folha de São Paulo de segunda-feira, revela que, de fato, são os poderes públicos que estão financiando, mais do que isso, bancando, quase todas as obras de modernização, expansão e construção dos estádios para a Copa do Mundo de 2014. Seja através do BNDES, principal fonte móvel de recursos, seja por intermédio de incentivos e isenções fiscais. As chamadas parcerias público privadas só tem aparência de participação particular. Na realidade as empresas particulares não investem nada. Pelo contrário. Capitalizam-se fortemente.

Em primeiro lugar porque executam os contratos. Encontram um novo e amplo mercado à sua frente. Em segundo lugar porque recebem os financiamentos. Em terceiro porque, quando assinam créditos, os juros cobrados correm pela TJIP, na base de 6% ao ano. Mas existe a carência para iniciarem as amortizações. Geralmente dois anos.

Esse espaço de tempo aplicam nos títulos do Tesouro Nacional que financiam a dívida interna, à base da taxa Selic: 12% de juros anuais. Assim, enquanto de um lado pagam 6, de outro são remunerados em 12%. Vencido o prazo de carência, em vez de começar a pagar, na verdade recebem novas parcelas. Os adiantamentos e os reajustes, afinal de contas, existem para quê?? Para remunerar bem o capital. Acima da inflação do IBGE. O destino dos salários é outro: situa-se exatamente no plano oposto.

Fernanda Odila publicou os cálculos percentuais: as obras do Fonte Nova, Salvador, têm cobertura (hoje) de 79% do BNDES. As do Castelão, em Fortaleza, 71%. O estádio de Recife recebe 82% do BNDES. O estádio Magalhães Pinto o Mineirão, prevê sustentação de 58%. O de Natal, 96%. Faltam o Beira-Rio em Porto Alegre, o Mário Filho, Maracanã, no RJ, o do Coríntians em Itaquera, cujas obras estão muito no início.

O ritmo dos trabalhos do Maracanã vão de vento em popa, com a Odebrecht, a Andrade Gutierrez e também a Delta, na linha de frente, não parecendo haver problema quanto à conclusão, para 2013, pois ele será uma das sede importantes da Copa das Confederaçãoes, que, tradicionalmente, antecede a Taça do Mundo. Mas o problema da Copa de 14, e das Olimpíadas de 16, não está só na edificação e modernização dos templos das histórias  dramáticas e emocionantes da bola. Não. Situam-se também nos transportes, especialmente nos aeroportos. Além de na hotelaria. Enfim na infraestrutura indispensável.

Empreendimentos imobiliários para novos hotéis? Não há sinal ainda à vista. Não quero sustentar que não vão ser feitos. Mas todos com financiamento público. Os empréstimos públicos não são fáceis de resgatar. Pois muitos empresários poder-se-iam julgar vítimas de grave descortesia se cobrados em suas dívidas fossem ou forem. Não é da tradição brasileira corruptos e corruptores irem para a cadeia. Seria um escândalo, algo capaz de despertar profunda surpresa.

O máximo que acontece é a exposição pública através da imprensa. Veja-se, por exemplo, o processo do mensalão. O crime emergiu em 2005, o Supremo Tribunal federal aceitou a denúncia do então Procurador Geral, Antonio Fernando de Souza, em 2007, os acusados devem ser julgados em 2012. E isso porque o Procurador Geral de hoje, Roberto Gurgel, desfechou contra os principais acusados nova torrente de denúncias, tanto confirmando quanto ampliando as anteriores. Mas esta é outra questão.

O fato essencial é o seguinte: financiamento estatal para as obras da Copa e privatização dos lucros que, no final da ópera, elas proporcionarem. É por isso que, no Brasil, a massa salarial pesa 40% do PIB, como destaca o leitor Flávio Bertolotto, enquanto a remuneração do capital 60%. Nos EUA, acontece exatamente o oposto: massa salarial 60, remuneração do capital 40%. Eis a diferença.

A farsa e o farsante

Sebastião Nery

Ferreira Dantas, amigo de infância do presidente da Paraíba  Camilo de Holanda (antes de 1930, governador era presidente), era jornalista e lhe fazia violenta oposição. Camilo respeitava.

Manhã bem cedo, Camilo encontrou Ferreira Dantas na rua, parou o carro, ofereceu-lhe carona. Ferreira Dantas agradeceu, ele insistiu, o jornalista aceitou. Carro em João Pessoa, naqueles tempos (1918), era como helicóptero hoje, coisa de governador.

O adversário no carro, Camilo rodou a manhã inteira. Correu a cidade, praças e subúrbios. Humildemente, deu explicações, anotou providências, concordou com muitas críticas, prometeu consertar e pediu que ele continuasse apontando os erros do governo.

***
FERREIRA DANTAS

Meio-dia, quando voltaram ao Palácio, a cidade toda já comentava, sem entender, o passeio do governador com Ferreira Dantas, seu mais terrível adversário. Camilo saltou, viu o olhar assustado dos auxiliares, mandou o carro oficial levar o jornalista até o jornal:

– Não me largou a manhã todinha!

***
CAMILO DE HOLANDA

Ferreira Dantas denunciou torturas contra presos na cadeia de João Pessoa. Atacou violentamente Camilo de Holanda, “presidente do Estado e portanto responsável”. E ressaltou a posição do chefe de Polícia, “homem de categoria, incapaz de conivência com essas barbaridades”.

O chefe de Polícia mandou abrir inquérito. Camilo não gostou, “porque  ele está querendo é fazer média com a oposição”. Uma manhã, chamou o chefe de Polícia e foram os dois para a cadeia:

– Cabo Chico Diabo, o que é que está havendo ai? Que negócio é esse de tortura?

– Não é tortura, não, presidente. São uns ladrões de cavalos, uma escumalha. Dei uns bolos neles para eles aprenderem que cavalo tem dono.

***
CHICO DIABO            

O presidente Camilo de Holanda nem se sentou:

– Cabo Chico Diabo, vá buscar os ladrões. 

Quando os ladrões chegaram, nova ordem :

– Cabo Chico Diabo, meia dúzia de bolos neste aqui. Depois, meia dúzia nesse aí. E meia dúzia naquele ali também.

O chefe de Polícia pálido e calado. Camilo de Holanda, de pé. Cara fechada, espiava o teto. E os pobres homens gemendo na palmatória grossa de furinho no meio.

Quando os bolos terminaram, Camilo bateu a mão no ombro do chefe de Polícia, já branco e suando, sem entender nada:

– Doutor chefe de Polícia, prossiga com o inquérito. E com rigor. Com todo o rigor!

***
LULA

Lula é o chefe de Policia do governo Dilma. Protege qualquer ladrão de cavalo. No “Globo”, o Moreno, catedrático de mistérios palacianos, contou que, na semana passada, depois de inaugurar o teleferico da favela do Alemão, no Rio, a presidente Dilma “simplesmente desapareceu”:

– “Já dentro da base aerea do Galeão, avisou aos ministros de sua comitiva : – “Me esperem aqui. Vou ali e volto já”. Dilma só reapareceu para o embarque cinco horas depois. Durante cinco horas, Dilma esteve reunida, em algum lugar da cidade, com Lula”.   

Evidentemente, nem Lula nem Dilma estavam jogando biriba. Lula  tentava convencer Dilma a manter o ministerio dos Transportes com o PR (Partido Republicano) do Alfredo Nascimento e do Waldemar Costa Neto.

***
MENSALÃO

Esta compulsão de Lula em proteger os corruptos é irresistível. Quando o honrado procurador-geral da Republica nos dois governos dele, Fernando de Souza, denunciou o Mensalão ao Supremo Tribunal Federal, dizendo que era “uma associação criminosa e o chefe da quadrilha era o José Dirceu”, e o imperturbável ministro Joaquim Barbosa aceitou a denuncia,  Lula fez questão de defender os mensaleiros, chamando a acusação do procurador-geral e a aceitação do ministro de “uma farsa” e que “ia sair pelo pais denunciando a farsa”. 

Agora, o procurador-geral do governo Dilma, Roberto Gurgel, “após ouvir a defesa de todos os acusados, em 390 páginas, manteve a convicção de que uma quadrilha chefiada pelo então ministro da Casa Civil José Dirceu saqueou os cofres públicos, para comprar apoio político no Congresso, pedindo a condenação de 36 pessoas, a maioria políticos do PT e de partidos aliados ao governo petista” (Globo).

Impressionante relato de um médico que conseguiu sobreviver a um erro hospitalar.

Dr. Eduardo Raia

Bom, aqui estou eu vivo e saudável graças ao meu bom Deus que com toda a certeza deste mundo estava ao meu lado, ou melhor, estava comigo em seus braços e aos seus anjos da guarda enviados, Marcello Vianna, Márcio Ananias e Cláudio Vieira, todos muito responsáveis por eu estar aqui agora escrevendo esta história.

Estava eu internado, sendo hidratado para tentar expelir uns cálculos que estavam impactados em meu ureter, quando um auxiliar de enfermagem da Casa de Saúde São José colocou uma solução de 50 ml de soro fisiológico com uma medicação chamada Nexium. que serviria para proteger meu estômago. Não era o Nexium que estava ali dentro.

Era ali, naquele momento, que começaria a pior experiência que eu passei em toda a minha vida, a de morrer, de saber que ia morrer sem nada poder fazer, de saber do que estava morrendo e não poder avisar aos meus anjos que me socorriam, de morrer tão jovem e cheio de sonhos…

Uma sucessão de erros iniciados na farmácia da Casa de Saúde, que liberou uma droga de uso restrito em centro cirúrgico para um andar de enfermarias, passando pela diluição sem conferência pela enfermagem, culminou na administração de uma droga chamada Nimbium em minha veia.

O Nimbium é um relaxante muscular derivado do curare, usado em anestesia geral para paralisar os músculos, permitindo ao cirurgião um relaxamento muscular adequado à realização de cirurgias. Portanto, quando administrada sozinha, esta droga, produz paralisia de todos os músculos do corpo, inclusive os responsáveis pela respiração, mantendo a pessoa imobilizada, porém consciente de tudo.

Agora, vocês podem imaginar o que eu, um anestesiologista, conhecedor profundo dos efeitos desta droga, senti. Minha vida foi-se indo, sem forças para respirar, sem forças para avisar aos meus anjos, que ainda atônitos me davam os primeiros socorros de suporte a vida, sem ter a menor idéia do que havia acontecido.

Com toda a minha força e alegria de viver, lutei contra esta droga, que por alguns segundos me venceu. Porém, graças a uma máscara e um ambú salvador, que demorou a chegar porque o carrinho com o equipamento de ressuscitação do hospital estava com suas rodas quebradas e se desprendendo, ressurgi respirando por força das “ambuzadas”  salvadoras do Cláudio Vieira, um amigo, pai, irmão, companheiro de trabalho que lutava ali pra me salvar. Juntei todas as minhas forças, porque graças à “presença de espírito” do Marcello Vianna, que estava ao meu lado quando se iniciou a administração da droga, a mesma foi interrompida por ele, permitindo que apenas uma pequena quantidade tenha realmente entrado em minha veia.  Consegui então, verbalizar com muito esforço aos meus outros dois anjos (Márcio Ananias e Cláudio Vieira) a palavra: “Curare… foi curare…” E desta forma receber o tratamento definitivo.

O mais impressionante de tudo isto, é que naquele momento a Casa de Saúde estava recebendo um certificado internacional de Acreditação Hospitalar, e eu ali, morrendo por um erro grosseiro de toda uma estrutura hospitalar que estava sendo certificada internacionalmente por sua excelência em atendimento hospitalar, que ironia não?

Curiosamente neste dia, folgas de funcionários haviam sido canceladas, número de cirurgias diminuídos para que não se repetissem as cenas que eu vi na semana anterior, de pacientes e acompanhantes sentados no chão da recepção de tão cheio que o hospital estava. Tudo isso para que os acreditadores tivessem uma boa impressão do hospital.

Mas o que aconteceu? O que levou a tantos erros? O que pode levar um funcionário da farmácia a liberar uma medicação errada? O que pode levar uma farmacêutica permitir que isso aconteça? O que levou um auxiliar de enfermagem experiente a diluir e administrar uma droga errada? Que a Acreditação canadense me responda. Que o excesso de burocracia ou “burrocracia” que a tão falada Acreditação prega, me responda. Que bom que possam responder a mim e não aos meus herdeiros…

Será que não estamos vivendo um momento de excesso de papéis? São tantos termos, formulários, protocolos, fichas que os profissionais de saúde têm que preencher que no momento mais crucial, no momento em que deve haver mais concentração, no momento em que se deve cuidar do paciente, separar e diluir as medicações, estes profissionais estão esgotados mentalmente, sendo passíveis de erros tão grosseiros que podem determinar o fim da vida de um ser humano.

Que segurança hospitalar é essa pregada onde papéis são mais importantes do que os seres humanos? Muitos me perguntam o que eu vou fazer, outros me afirmam “você vai processar, né?”, porém, o que eu realmente vou fazer, com o tempo, todos saberão. Todavia, eu que sempre lutei pela ética, pela boa prática médica, pela lisura em todos os campos da vida, que critiquei os que se omitiram por covardia, eu, que sempre levei o lema “não me assustam os gritos dos homens maus, mas sim, o silêncio dos homens de bem”, não posso me calar, tenho que lutar e exigir mudanças.

Não é possível se administrar uma medicação e simplesmente dar as costas para o paciente. Por que o enfermeiro não leva a prescrição até o quarto, não a lê para o paciente e prepara a diluição na frente do paciente? Isso não aumentaria a segurança? Não seria isso excelência hospitalar?

De uma coisa eu tenho certeza, mudanças profundas precisam ocorrer, porque o que aconteceu comigo não pode acontecer mais. A medicina e a assistência ao paciente precisam de uma reformulação profunda de seus conceitos, visando à maior atenção a quem de direito: pacientes e profissionais de saúde em detrimento ao lucro e a papelada burocrática.

Encerro aqui muito feliz por estar vivo e bem, agradecendo a Deus por tudo em minha vida e a todos meus amigos e parentes por fazerem parte da minha vida.

(Publicado originalmente
no blog do Dr. Eduardo Raia)

 

A quem interessa um Judiciário fraco e subserviente?

Jean Lafitte 

A magistratura federal vive momentos angustiantes. Os vencimentos dos juízes federais não têm aumento real, como os de qualquer trabalhador, há mais de 5 anos. Pouquíssimos são aqueles que dispõem de carro oficial,  e, quando têm, são veículos velhos e totalmente sem condições de uso. Mesmo os juízes federais que trabalham em comarcas do interior utilizam seus automóveis próprios. Ao contrário dos parlamentares, que legislam em causa própria e possuem as mais variadas verbas de representação, os juízes federais não recebem nem auxílio-combustível.

A imprensa noticia, cada vez mais, que os juizes federais ganham R$ 21 mil por mês, mas ninguém tem coragem de noticiar que 40% desse valor não entram no bolso dos juízes e vão direto para o “Leão”, o que resulta num vencimento real de aproximadamente R$ 15 mil.

Apesar de a Constituição lhes assegurar autonomia administrativa e financeira (art. 99), o aumento dos vencimentos dos magistrados, às vezes simples correções, está condicionado a um beija-mão interminável que passa necessariamente pela “boa-vontade” do Legislativo e do Executivo, que, assim ficam donos das suas almas, tais como Mefistófoles, no “Fausto”de Goethe.

Será que ninguém percebe que isso é catastrófico para a independência e altivez do Poder Judiciário?  Será que ninguém percebe que a independência do Poder Judiciário é, antes de tudo, garantia do cidadão?

Muito se fala nas prerrogativas dos juízes (vitaliciedade, inamovibilidade e irredutibilidade de subsídio). Ninguém, contudo, as explica. Faço, então, eu, a explicação, correndo o risco, é claro de ser apedrejado pela opinião pública, tal como na música do Chico, como fizeram com a pobre “Geni”.

Os cidadãos que reclamam do arbítrio do Estado já se deparam com a total ausência da indispensável “paridade de armas”. Os atos da administração pública, presumem-se legítimos. A União, os Estados, as autarquias e por aí vai, possuem prazo em dobro para recorrer e em quádruplo para contestar, em qualquer ação movida por um cidadão. Se no final da sua “via crucis”, ganhar a ação contra o Poder Público (e que Poder!) ainda terão eles, os incautos que ousaram contender com o Poder Público, que amargar a fila dos precatórios, verdadeiro purgatório, de fazer corar de inveja Dante Alighieri.

Podem jogar pedra à vontade, mas as garantias da magistratura são garantias do cidadão contra o arbítrio. Imaginem os senhores se os juízes pudessem ser trocados, mexidos, movidos, ao talante do governante de ocasião. E se, ao julgar uma causa grande contra a União, um juiz (propenso a reconhecer o direito do cidadão em confronto com o do Estado) pudesse ser removido pelo tal governante para a Conchinchina? Pois, é. Só falta isso. Não falta mais nada.

A magistratura há anos não recebe um aumento real. E quando nisso se fala, é pedra pra todo o lado. Cada vez mais os juízes federais estão à mercê da boa-vontade do Executivo e do Legislativo. Quem perde, é você, cidadão. Quando um juiz ganha mal, quem perde é você, cidadão. Quando a dignidade do Poder Judiciário é conspurcada, quem perde é você, cidadão. Quando o Poder Judiciário fica “devendo um favorzinho” ao Executivo e ao Legislativo, quem perde é você, cidadão, porque no Jogo dos Poderes da Fábrica de Brinquedos Estrela, “não tem almoço grátis” para ninguém.

Os grandes ditadores da história da humanidade, de esquerda ou de direita, sempre começaram por empreender um objetivo em comum, a fim de garantir a concentração do Poder: enfraquecer o Judiciário, até torná-lo subserviente. De Hitler a Idi Amim Dada, passando por Slobodan Milosevic, o ponto de partida é enfraquecer o Judiciário.

Falta pouco para governadores entrarem em gabinetes de presidentes de Tribunais “exigindo decisões extra-autos”, falta muito pouco para o Executivo e o Legislativo se intrometerem de vez no Judiciário. Mas o que o País precisa é de um Judiciário forte, é de um Sir Edward Coke, que proclamou, já em 1608, que nem o Rei estava acima da Lei (even the king is not above the law). É de um John Marshall, Chief Justice da Suprema Corte dos Estados Unidos da América do Norte, que no célebre caso Marbury versus Madison proclamou que a essência da liberdade civil está em o cidadão poder reclamar perante o Judiciário os danos imputados pelo Estado.

A imprensa e algumas autoridades de ocasião, oportunistas, corvos, aves de rapina, que querem ficar bem na foto, e seguem a “opinião geral da maioria”, que, na abalizada opinião de Nelson Rodrigues, é burra, e, se não é burra, ao menos ignorante é, prestariam melhor serviço à nação se ajudassem a construir um Judiciário forte, destemido, corajoso, ao invés de apequená-lo perante os cidadãos.

Uma juíza federal, cumpridora de seu trabalho e com a estatística em dia (zerada), diz que a Justiça Federal tem o pior marketing da história do mundo globalizado. E tem mesmo. Porque os juízes, embora tenham muitas vezes razão, não conseguem explicar, senão em juridiquês, as razões que têm.

O pior é que na Justiça “antiguidade é posto”, relegando-se o merecimento. Juízes que trabalham e estão com a estatística em dia, ganham o mesmo que juízes que não trabalham e acumulam 700 processos para sentença. Um horror. Os que trabalham e não se tornam “puxa-sacos de desembargadores” são esquecidos. Já os “Doutores Pangloss”, aqueles otimistas inveterados, que nada veem de errado com o sistema, que passam os seus dias nas salas e antecâmaras do tribunal, a fazerem a “boa política” do sou “fã de V. Exa”, esses sim alavancam vertiginosamente as suas carreiras, quando não conseguem licenças sem prejuízo dos vencimentos, para “se aprimorarem” em cursos no exterior.

Vamos discutir a realidade da Justiça. Mas sem fantasias. Com reconhecimento aos juízes que trabalham e são a maioria, e sem favorecimentos a juízes relapsos, que só envergonham a magistratura.

Reflexões sobre a utopia da independência editorial e sobre a crescente decepção com a classe política e as instituições brasileiras.

Carlos Newton

Desde que começamos a fazer este blog com Helio Fernandes, há pouco mais de dois anos, vem sendo possível perceber uma sensível e expressiva mudança no comportamento dos comentaristas. De início, qualquer artigo com a menor crítica ao governo ou ao então presidente Lula era imediatamente contestado, com o máximo rigor. Surgiam logo muitos comentários ardorosos em defesa da administração petista.

Não fazia diferença se saíssem críticas também ao principal candidato adversário, José Serra, a FHC ou aos demais tucanos, ou aos verdes de Marina Silva, de toda forma o blog era considerado simplesmente antiLula ou antiPT, e era logo postado grande número de comentários nos chamando de PIG (Partido da Imprensa Golpista) e por aí a fora.  

Aos poucos, porém, a situação foi se modificando. Começaram a diminuir expressivamente o número de comentários na defesa incondicional do governo Lula Rousseff. Ao que parece, com o tempo os comentaristas passarem a perceber que nenhum articulista aqui no blog é contra ou a favor de A ou B, deste partido ou daquele.

Todos os que aqui escrevem são livres, nenhum é “amestrado”, como diz Helio Fernandes, nenhum deles está pendurado em sinecuras públicas ou da iniciativa privada. Esta é a grande diferença para os blogs que fazem permanente oposição ao governo ou que simplesmente apóiam tudo o que o governo faz.

Alguns desses blogs, devemos reconhecer, são excelentes. Escritos por grandes jornalistas, sem a menor dúvida trazem informações importantes aos leitores. Mas o que atrapalha é que, de uma forma ou outra, eles são atrelados e se posicionam sempre a favor ou contra o governo.  

Nós aqui, entretanto, insistimos em manter a independência, que é uma espécie de utopia, já que não é possível ao ser humano tornar-se independente por inteiro. Sempre haverá, no recôndito da alma, algum sentimento negativo (seja soberba, inveja, decepção, ira etc.) que nos prejudicará nessa busca da liberdade editorial completa.

De toda forma, porém, é preciso continuar cultivando essa utopia. E muitos comentaristas já se acostumaram com a linha editorial utópica do blog, passando a aproveitar com sabedoria essa liberdade de expressão que lhes é garantida, enquanto muitos outros ainda insistam em defender pontos de vista meramente partidários, ideológicos, filosóficos e até religiosos, o que não é ruim. Pelo contrário, mostra-se salutar e fundamental para que haja debates e entrechoques de opinião.

Percebemos também que a grande maioria dos comentaristas mostra hoje uma grande decepção com a política e os partidos. Do lado de fora do blog, esse fenômeno também se verifica, levando destacados nomes da política a abandonarem nos últimos meses a vida partidária, fazendo pesadas críticas ao comportamento dos governantes e parlamentares do país.

Primeiro, foi o ex-ministro Luiz Carlos Bresser Pereira, fundador do PSDB. Em março, ele tornou pública a decisão de deixar a sigla tucana e a política partidária, após mais de duas décadas de filiação. Depois, em junho, o ex-deputado paulista Fábio Feldmann se desligou do seu último reduto partidário, o PV, após ter passado por PSDB e PMDB. E há duas semanas, foi a vez do ex-deputado Vladimir Palmeira anunciar, com um discurso de cobrança por ética, a saída dele do PT, que ajudou a fundar.

Na verdade, em meio aos sucessivos e rotineiros escândalos de corrupção nos planos federal, estadual e municipal, as deserções de Bresser, Feldman e Vladimir, embora isoladas, expõem a gravidade da crise que atinge as instituições políticas brasileiras, espalhando uma decepção com a política que parece ser a grande característica desse momento difícil que o país atravessa, decepção que também se pode perceber na análise dos comentários que diariamente este blog publica.

É muito triste constatar essa situação desalentadora. As pessoas, para seguirem em frente, precisam ter confiança na classe política, defender suas ideias e se posicionar em prol do interesse público.  Por isso, talvez seja fundamental que, à margem de ideologias e partidos, os brasileiros tentem, pelo menos, redescobrir o nacionalismo, que hipoteticamente deveria entusiamar a todos. Caso contrário, que país estaremos legando às próximas gerações?

Pagot se acertou com o governo no fim de semana e seu depoimento no Senado foi uma grande enrolação. Não será surpresa se for mantido no cargo.

Carlos Newton

Quem tinha razão sobre o depoimento de Luiz Antonio Pagot, diretor em férias do Dnit (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes), era o comentarista Luis Fernando, do Rio de Janeiro, que previu: “Sinceramente não vejo motivos para suspense, vai ser aquela ladainha de sempre, eu só falo em juízo,eu não sabia de nada e blá blá blá!!!!!!!!”

Realmente, não deu outra coisa. No fim de semana, o Planalto se acertou com Pagot, e tudo acabou em pizza. Ele fez apenas uma apaixonada e comovente defesa do Dnit, o órgão mais corrupto do país, desde quando se chamada DNER. Mudaram o nome, mas esqueceram de mudar as práticas administrativas ilegais.

“Ele nunca me exigiu nem pediu nada”, disse Pagot sobre o ministro Paulo Bernardo, mudando as antigas versões.  Em seguinda, perguntado sobre a mudança de escopo (faixa de custo) das obras pelo senador Blairo Maggi (PR-MT), Pagot responde que “as obras sofrem mudança de escopo quando a conclusão de estudos de viabilidade aponta a necessidade de alterações necessárias”.

Segundo ele, “o ideal era que só fossem licitadas as obras com projeto executivo. O que acontece é a licitação com projeto básico”. Entre os dois projetos, de acordo com Pagot, são identificados alguns problemas e ocorrem as mudanças de valor (que são sempre para mais).

Foi um depoimento impressionante, em termos de desfaçatez. “Me surpreendi de ela (presidente Dilma Rousseff) ter se admirado de algumas obras estarem acima do escopo inicial”, diz Pagot, citando uma obra do PAC que tinha um valor estimado em R$ 450 milhões e, durante o processo licitatório, subiu para R$ 850 milhões: “A diferença não é superfaturamento. O TCU e o CGU são muito ágeis. Quando a licitação está em andamento, se eles têm algum achado, imediatamente emitem um relato para nós”.

O depoimento ainda nem acabou, mas  não adianta esperar alguma revelação. Pagot está mais do que dominado. Não será surpresa se for mantido no Dnit. Tudo é possível.

Confira como vive Sergio Côrtes, secretário de Saúde de Cabral. É um cirurgião que consegue fazer operações milagrosas (no mercado imobiliário).

Carlos Newton  

De início, é preciso ressalvar que o secretário de Saúde Sérgio Côrtes não apreendeu nada com governador Sergio Cabral. Seus desvios de conduta já vinham de experiências anteriores, especialmente quando dirigiu o Into – Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia, um importante hospital situado no Rio de Janeiro.

Antes mesmo de assumir a Secretaria Estadual de Saúde e iniciar seu relacionamento mais direto com o governador Cabral, Dr. Sérgio Côrtes já dava demonstrações de enriquecimento ilícito. No ano eleitoral que levaria Cabral a conquistar o poder, por exemplo, a 7 de março de 2006 o Diário Oficial do Município registrava que Sérgio Luiz Côrtes da Silveira tinha comprado um imóvel na Avenida Borges de Medeiros 2.475, o apartamento duplex 1.103, de cobertura, com cinco vagas na garage. 

E pagou de Imposto de Transmissão de Bens Imóveis (ITBI) a quantia exata de R$ 71.035,46, correspondente a um imóvel cujo valor  efetivo seria de no mínimo R$ 3.551.773,00, porque o ITBI corresponde a 2% do valor da chamada “planta de valores” atualizada.  

É claro que Sergio Côrtes poderia ser de uma família rica, porque nenhum diretor de hospital público, tão jovem (tinha apenas 39 anos), jamais conseguiria juntar os R$ 3,5 milhões necessários para comprar o imóvel, no valor derivado do Imposto de Transmissão. Mas é justamente aí, na escritura, que começam a surgir as evidências de irregularidades na compra da cobertura duplex, cujo valor de mercado naquela época já era calculado em pelo menos R$ 5 milhões.

Acredite se quiser, mas o preço do imóvel, declarado na escritura, foi de apenas R$ 1,3 milhão, incrivelmente inferior aos R$ 3,5 milhões (do Imposto) ou aos R$ 5 milhões do valor de mercado, vejam que grande negócio. O mais interessante é que a escritura mostra que a cobertura duplex foi comprada à  vista, em dinheiro em espécie. Quer dizer, Sergio Côrtes chegou ao cartório carregando uma mala com R$ 1,3 milhão, que devia guardar no colchão. Ou seja, pagou em dinheiro vivo para não deixar rastro da origem. 

Em 2007, já integrado ao governo Cabral, o secretário de Saúde dá nova tacada imobiliária e entra para o seleto clube dos proprietários do Condomínio Portobello, em Mangaratiba. Mas agora  é que vem o pior.  Côrtes comprou uma mansão, avaliada hoje em 8 milhões (preço em que esteve anunciada a propriedade vizinha), mas declarou no cartório que estava adquirindo apenas um terreno de 4.575 m², constando como se não existisse nada construído lá.

Para não despertar suspeitas, o grande negócio foi feito em nome de sua mulher Verônica Fernandes Vianna, que usou o nome de solteira. Examinando-se o carnê de IPTU da Prefeitura de Mangaratiba, relativo a este ano de 2011, observa-se que nele está registrado: “Área Construída: 0,00”. Ou seja, Sérgio Côrtes continua fraudando a Prefeitura de Mangaratiba, alegando que tem apenas um terreno e não uma mansão luxuosa, para pagar menos IPTU, ora vejam só que espertalhão.

Da mesma forma que aconteceu na negociação do duplex cobertura na Lagoa, o mais interessante é o preço. A cópia da escritura da mansão em Portobello, lavrada em 2007,  por coincidência no Cartório Cabral, em  Mangaratiba, em nome de Verônica Fernandes Vianna, a mulher de Sergio Côrtes, mostra que o negócio foi feito pela módica quantia de R$ 250 mil, embora o próprio IPTU registre que o valor venal do terreno (só o terreno) é de R$ 516 mil, mais do dobro.  

Essas compras de imóveis de altíssimo luxo ocorreram em 2006 e 2007. De lá para cá, com sua convivência mais próxima a Sergio Cabral e sem existir um Código de Conduta que possa refrear a volúpia de determinados administradores do patrimônio público, a fortuna do secretário Sergio Côrtes certamente se multiplicou, porque está mais do que provado que ninguém sabe fazer determinadas “operações” como esse hábil cirurgião. Com ou sem Código de Conduta.

Na Secretaria Estadual de Fazenda, Côrtes agiu de uma forma impressionante, seus ilícitos são inacreditáveis. O mais impressionante, porém, foi que em 30 de novembro do ano passado, quando muitas negociatas do secretário já tinham sido reveladas pela Rede Globo, Cabral teve a desfaçatez de dar entrevista à imprensa anunciando que Côrtes seria ministro da Saúde do governo Dilma Rousseff.

Vamos conferir o que publicou a Agência Brasil (antiga Agência Nacional) naquela data, às 14h05m:

O governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, disse nesta terça-feira (30) que o secretário estadual de Saúde, Sergio Cortes, deverá ser ministro da Saúde no governo da presidenta eleita, Dilma Rousseff. Ele afirmou que conversou “longamente” com Dilma na segunda-feira (29), em Brasília, e que um dos assuntos abordados foi a possibilidade de convidar Cortes para o cargo.

“Ela foi muito enfática, na campanha, na admiração do trabalho que realizamos aqui na área da saúde pública. E o Sergio Cortes, provavelmente, será o próximo ministro da Saúde. Para nós, é uma honra. Já foi feito um convite. Eu já o consultei, e ele aceitou. Mas é evidente que ele vai ter que sentar com a presidenta e conversar”, disse Cabral.

Como se sabe, a nomeação não se concretizou. A presidente Dilma Rousseff teve uma inspiração divina e livrou-se da pressão de Sergio Cabral Filho, apesar de não existir um Código de Conduta em que ela pudesse se basear.

Pausa para um tema sério (final)

Carlos Chagas
                                       
Na tarde de 31 de março, consegui localizá-lo pelo telefone. Eu trabalhava no “Globo” e tivera a informação de que Juscelino havia estado no palácio das Laranjeiras, com o presidente João Goulart. Ele foi seco, do outro  lado da linha: “Estive sim, estou chegando agora do Laranjeiras.  Mas não  me  pergunte mais nada porque  não vou contar.”
                                                       
Os militares batiam cabeça, com a queda de Jango, até que dez dias depois de  os tanques terem  ido para a rua, os generais  decidiram botar ordem  na bagunça e substituir o Comando Supremo da Revolução (Costa e Silva, Augusto Rademaker e Francisco de Assis Correia de Melo) pelo general Castelo Branco. 

Imaginando que as instituições funcionavam, ou fingindo  muito bem, Castelo Branco quis ser eleito pelo Congresso.  Mesmo com as esquerdas cassadas, votos eram necessários, e o futuro presidente foi recebido pela direção do PSD,  maior partido nacional.   Foi na casa do deputado Joaquim Ramos, em Copacabana. Lá estavam Amaral Peixoto, José Maria Alkimin, Negrão de Lima, Martins Rodrigues e outros. Juscelino também. 

A conversa seguia amável,  mas tensa, e JK não parava de olhar o relógio de pulso. Seu diálogo com Castelo foi curto. Quis saber se teríamos eleições presidenciais no ano seguinte, e o futuro presidente garantiu que sim. Malicioso, ao notar que Juscelino continuava olhando o relógio, comentou: “Senador, percebo que o senhor deve ter outro compromisso. Não se prenda por mim, ainda que eu tenha reservado esta noite para dialogar com o PSD”. 

Por mais estranho que pudesse parecer, Juscelino retirou-se logo depois, para espanto dos companheiros. Na  manhã seguinte, Negrão de Lima telefonou: “Juscelino, você ficou  maluco?  Abandonar o todo poderoso  general  que vai tomar posse amanhã! O que você tinha de tão urgente assim?”

Resposta: “Uma reunião na casa do Bené Nunes, que ia tocar piano para um grupo de amigos…”

Como senador por Goiás, JK votou em Castelo Branco, sem perceber que se transformaria na maior vítima do regime de arbítrio. Não demorou para que o mandato do primeiro general-presidente fosse prorrogado por um ano, sob o argumento de que o país não poderia viver em 1965 uma convulsão eleitoral. A verdade é que a impopularidade da chamada Revolução aumentava dia a dia e todos previam que Juscelino seria eleito por larga margem.  Quando da prorrogação, foi alertado de que  dificilmente o deixariam ser candidato, mas só acreditou quando, em julho,  teve seu  mandato cassado e seus direitos políticos suspensos por dez anos. Seu maior algoz foi o então governador Carlos Lacerda, que também se julgava candidato.
                                     
Avisado por José Maria Alkimin de que seria atingido pelo Ato Institucional, veio a Brasília para pronunciar seu último discurso. Contou-me depois que após o protesto feito pela tribuna, uma das maiores peças de oratória que produziu, deixou o plenário do Senado pelo corredor central. Rostos se viravam quando passava.  Nenhum cumprimento. Desceu com Dona Sarah até o saguão principal do Congresso.  A vida soube  ser cruel com quem, meses antes, era bajulado aos extremos.  
       
Um apressado retorno do exílio levou-o à humilhação de responder a dois Inquéritos Policiais Militares, tratado com  desdém por coronéis e majores, obrigado a passar horas sentado num  banquinho, sem direito sequer à presença de seu advogado, Sobral Pinto.  Logo voltou para Portugal, sendo que no aeroporto do Galeão, pela primeira   vez na vida, botou um pequeno revolver  na cintura. O Rio estava cheio de boatos de que não o deixariam embarcar, que o prenderiam na hora. Disse-me que se fosse humilhado, ou se Dona Sarah submetida  a violências, atiraria no primeiro oficial da Aeronáutica que surgisse à sua frente. Seria   morto depois, mas com  honra.       
                                              
O tempo passou, a angústia de JK  crescia em progressão geométrica, longe do Brasil. Pensou em dar fim à vida, num Natal passado em Paris só com o  fiel coronel Afonso Heliodoro.  

No final de 1966 o  general Costa e Silva havia imposto sua candidatura ao presidente Castelo Branco, mas as relações entre eles eram tão tensas que o segundo presidente do ciclo revolucionário entendeu de viajar para o exterior.  Fui mandado acompanhá-lo,  pelo “O Globo”. Lisboa era a primeira parada.  No intervalo de uma visita e outra do general  a autoridades portuguesas, em companhia do jornalista Washington Novaes,  aproveitei para visitar o ex-presidente Juscelino.  Ele tinha escritório no Chiado, bem defronte à  Lisboa Antiga. Recebeu-nos emocionado, pediu notícias do Brasil e em dado momento, levou-nos á sacada, para  ver a vista.   Estávamos os três de frente para a paisagem e aí percebi  o porque da iniciativa. Olhando-o de soslaio, vi  que chorava.   

De noite, no hotel, um daqueles coronéis truculentos da comitiva veio tirar satisfações. Como tínhamos ido conversar com o inimigo da Revolução? Para falta de sorte dele o general Costa e Silva vinha saindo do elevador e quis   saber sobre o que discutíamos. Contei sobre  a visita e ainda perguntei ao futuro presidente: “Se um dia desses, passeando na rua, o senhor desse de frente com o presidente Juscelino? Faria o quê?”

O sempre surpreendente general respondeu, encerrando o assunto: “Nos cumprimentaríamos, como todo brasileiro deve fazer com outro brasileiro, quando se encontram no exterior…” 

Juscelino acabou voltando ao Brasil, mesmo suspenso em seus direitos políticos, proibido de entrar em Brasília e recebendo os ônus de se haver composto com Carlos Lacerda,  na estranha Frente Ampla que os reuniu a João Goulart numa  luta efêmera pela volta do  país à democracia. 

O resultado foi a agitação dos radicais e a edição do Ato Institucional número 5, o mais hediondo de todos. O presidente era paraninfo de uma turma de formandos, na noite de 13 de dezembro de 1968.  Depois de discursar no Teatro Municipal, no Rio, ao sair foi preso, conduzido ao Forte Copacabana, onde permaneceu alguns dias. Horror dos horrores, naquela mesma hora Carlos Lacerda também tinha sido detido  e conduzido a um quartel da Polícia Militar do Rio de Janeiro. O cárcere não deixou sequelas em JK, ao contrário do antigo desafeto.

Juscelino, segundo Ulysses

Sebastião Nery

RIO – Ulysses Guimarães recordava Juscelino:

– Se você me perguntar qual o maior político que conheci, o mais completo, foi Juscelino. Este realmente tinha tudo, um pouco de todas as qualidades. A coragem, por exemplo.

O Juarez Távora fez um discurso contra ele, e o presidente da República reuniu o Ministério. Os ministros dividiram-se, porque Juarez era general de quatro estrelas, um monumento nacional, e disputara a Presidência contra o próprio Juscelino. Até o ministro da Guerra, marechal Lott, estava na noite. Aí o Juscelino encerrou as discussões:

– Ministro – perguntou ao Lott -, eu só quero saber se o pronunciamento dele infringiu os regulamentos militares.

– Infringiu – respondeu Lott.

– Então mande prendê-lo – concluiu Juscelino. E encerrou a reunião.

Eu disse ao Nelson de Melo, que era chefe do gabinete militar de JK:

– Nelson, acho que amanhã o governo está no chão.

– Nada disso, não vai acontecer nada. O Juarez será preso e nascerá grama na sua porta, porque ninguém vai lá.

De fato, nada aconteceu. Mas foi muita coragem prender Juarez.

***
JUSCELINO

Juscelino tinha sorte. Ele mesmo reconheceu que, se não fosse o suicídio do Getúlio, dificilmente chegaria à Presidência. É claro que de qualquer forma ele tentaria porque tinha uma noção de ser predestinado. E trabalhava incansavelmente. Me chamou ao Catete às 3 horas da manhã:

– Estou preocupado com o Jânio. Ele me telefonou dizendo que vai renunciar, está abaladíssimo com a morte do pai. Gostaria que você fosse lá.

– Posso ir, mas não creio que seja o mais indicado. Conheço o Jânio, fomos colegas na faculdade, mas não temos grande intimidade – argumentou Ulysses.

– Sim, mas você é paulista e é o presidente da Câmara dos Deputados. Acho que será um bom mediador.

E fui no primeiro avião. Conversei, ele se queixou que os políticos não o aceitavam em São Paulo e o tratavam como um mato-grossense.

– Ora, Jânio, um homem que fez a carreira que você fez aqui, vereador, deputado estadual, prefeito e governador, agora citado para ser presidente da República, não pode dizer uma coisa dessas!

Ele continuou triste. Conversamos muito e acabou desistindo da renúncia. Contei essa história para você ver que o Juscelino trabalhava de madrugada, depois de enfrentar todos os problemas do Brasil durante o dia.

***
DILMA

A presidente Dilma está com alguns problemas graves para enfrentar imediatamente e para isso é preciso ter a coragem de Juscelino e ficar acordada até de madrugada.

Primeiro, os banqueiros, cada dia mais especuladores e vorazes, estão apertando o cerco ao Banco Central para jogar os juros lá em cima.
Se não forem enfrentados, a economia vai lá para baixo e ninguém a segura.

Segundo, cresce o número de militares incomodados, inconformados com a novela do SBT, “Amor e Revolução”, um belo, verdadeiro, corajoso, inadiável e histórico trabalho que merecidamente está disparando na audiência, mesmo contando só 10% do que realmente aconteceu.

Terceiro, a gasolina e a Petrobrás. Nas páginas de leitores dos jornais e revistas, na Internet, há uma articulada e criminosa campanha exigindo que a Petrobrás vá ao suicídio para enfrentar sozinha o aumento da gasolina

***
GASOLINA

Os pecados da Petrobrás estão na absurda petização da empresa, com centenas de falsos “dirigentes sindicais” mamando em suas “divinas tetas”.

Mas no preço da gasolina, não. Há seis anos a Petrobrás, sem reajustar o preço, sangra com o aumento internacional do petróleo.

Requião complica a situação de Paulo Bernardo, ao confirmar que o ministro fazia lobby para empreiteiras.

Carlos Newton

Notícia divulgada pela Folha de S. Paulo traz informações liberadas
pelo ex-governador paranaense e senador Roberto Requião (PMDB), que
deixam mal o ministro Paulo Bernardo (hoje na pasta das
Comunicações, mas que ocupava o Ministério do Planejamento no último
mandato do presidente Lula).

Requião afirma que o ministro interessava-se também por ferrovias e
diz ter sido procurado por ele, no Paraná, acusando Bernardo de ter
proposto a construção de uma ferrovia sem licitação, com preço
superfaturado e favorecimento a uma empreiteira. O custo da obra
saltaria de R$ 220 milhões para R$ 550 milhões.

Bernardo admitiu que se reuniu com Requião à época em que ele
governava o Paraná, mas atribuiu a iniciativa a uma “determinação do
presidente Lula”. Negou, porém, que tenha tratado de direcionamento da
obra ferroviária.

O mais interessante é que os dois, Requião e Bernardo, estão se
digladiando na Justiça. O ex-governador acionou o Ministério Público
Federal para investigar o caso, enquanto o ministro também protocolou
no STF uma petição na qual acusa o agora senador de tê-lo caluniado.

Requião, diga-se de passagem, foi quem denunciou o chamado escândalo
dos precatórios, em sua passagem anterior pelo Senado. Depois, quando
governador, na época em que apoiava o presidente Lula, fez acordo para
receber os precatórios pobres que o governo do Paraná detinha. Bateu
de um lado e levou vantagem de outro.

Agora, aguarda-se com ansiedade o depoimento de Luiz Antonio Pagot,
diretor do Dnit (Departamento Nacional de Infraestrutura de
Transportes), esta terça, às 9 da manhã. Se Pagot confirmar as
acusações que tem feito a Bernardo, a República vai tremer.