Submissão do criador à criatura

Carlos Chagas

O pêndulo se desloca. Até pouco o PT mantinha o monopólio não só do poder, mas da arrogância e  da presunção.  À sua volta, os demais partidos da base governamental  que se arrumassem com as sobras do banquete. Os companheiros não perceberam que o presidente Lula se descolava deles, tornava-se uma entidade  maior do que eles. Acabaram descolados  pela aproximação do processo sucessório e as  exigências dos aliados para garantirem a continuidade não do petismo, mas do lulismo.

No centro dessa mutação postou-se o PMDB, sem o qual fracassaria, como ainda  poderá fracassar, o projeto do Lula  de permanência no  controle do governo,  no futuro.   Ao impor a candidatura de Dilma Rousseff ao PT o presidente  moveu   a primeira peça destinada a  esvaziar  sua antiga base de sustentação.  Para  viabilizar a candidata que os companheiros não escolheram,  obrigou-se  a cortejar o maior partido nacional,  que já havia aquinhoado com seis ministérios e centenas de diretorias de empresas estatais, possuidor das maiores bancadas no Congresso. Veio a decisão de  obrigar o PT  a não apresentar candidatos nos estados onde o governador é do PMDB. Em seguida, o episódio recente da preservação a qualquer custo do senador José Sarney na presidência do Senado. Para isso, o primeiro-companheiro não hesitou em humilhar seu próprio partido,  levando-o a sustentar o ex-presidente da República às custas da determinação da bancada petista que pregava o  seu licenciamento. O processo culminou com o enquadramento do líder Aloísio Mercadante, que da renúncia irrevogável passou à permanência inaceitável.

Encontra-se o PT na situação de que,  se ficar,  o bicho come, mas se fugir, o bicho pega. Já se fala até mesmo na aceitação de candidaturas do PMDB a governador nos estados onde o  PT é  governo, inversão vergonhosa  do princípio anterior.

Fazer o quê? –  indagam-se os petistas. Aceitar as imposições  cada vez mais cruéis do chefe equivalerá a marcharem  de cabeça baixa até o cadafalso. Mas insurgir-se, rebelar-se e contrariar o presidente Lula será pior, condenados ao massacre no campo de batalha.

Uma conseqüência parece  certa:   o PT, criador, submete-se à força inexorável da criatura. Ficará para os exegetas do futuro identificar em que momento da sua trajetória   deu-se o início da ruptura do objetivo  de tornar-se o partido que mudaria o Brasil.  Pode ter sido quando o partido trocou os ideais pela presunção e a arrogância.

Não existe, mas se existir?

Voltaire, depois de passar a maior parte de sua longa vida negando a existência de Deus e atacando com virulência a Igreja, em seu leito de morte mandou chamar um  padre para confessar-se e receber os últimos sacramentos. Não  perdeu a ironia. Justificou-se diante da surpresa dos amigos afirmando: “não existe,  mas se existir, é bom que eu  esteja preparado…”

Com todo o respeito,  o  episódio se conta a propósito da sucessão presidencial do ano que vem. O presidente Lula não acredita nas possibilidades de Marina Silva, que acaba de trocar o PT pelo PV.  Nos tempos em que a senadora era ministra do Meio Ambiente,  sofreu  com a má-vontade e a indiferença do chefe. Mas,  por via das duvidas, se ela crescer como candidata  e passar para o segundo turno, não custa nada elogia-la desde já…

Ainda não é hora

O governador Aécio Neves não gostou nem um pouco das notinhas plantadas na imprensa a respeito de já ter-se  decidido a formar na chapa de José Serra,  como candidato a vice-presidente. Está sinceramente decidido a disputar a indicação presidencial, no  ninho dos tucanos. Admitir a hipótese seria enfraquecer e até sepultar o projeto de seguir o exemplo do avô.    Agora, se até o começo do próximo ano verificar a impossibilidade de superar o governador de São Paulo, no âmbito do PSDB, por que desconsiderar a formação de uma dupla eleitoralmente fortíssima, daquelas de botar os adversários para correr?

Incompreensível

Poucos entenderam a mais recente intervenção do ex-presidente Fernando Henrique ao defender não apenas a descriminalização do uso das drogas, mas ao  considerar  que devemos conviver com elas, esperando que causem o  mínimo dano possível à sociedade, mas tendo-as como   inevitáveis.  Seria ensarilhar as armas e aceitar o  inaceitável, mesmo sabendo das dificuldades para evita-lo.  A  Humanidade convive desde tempos  imemoriais  com a prostituição, mas considerá-la um mal inevitável é mais ou  menos  como condenar filhas, mães e irmãs à mais antiga das profissões do planeta. Vale o mesmo para os usuários de drogas. Mesmo sabendo que levará séculos para que desapareçam,  assim como a prostituição, devemos acomodar-nos para a convivência?

Um enigma: o emprego aumentou e o consumo diminuiu

Pedro do Coutto

Tese, antítese, síntese. O princípio que o filósofo alemão Hegel eternizou na passagem do século 18 para o 19, ele morreu em 1831, atravessa o tempo e, acredito, ficará para sempre. Agora mesmo, pode-se revivê-lo, não na teoria, mas na prática. Na edição de 21 de agosto, o Globo publicou duas excelentes reportagens, uma de Geralda Doca, outra de Liana Melo. Interessante fazer-se o cotejo. Ambos os dados tem o governo como fonte. A primeira matéria focaliza a queda da receita federal no primeiro semestre de 2009 em relação ao mesmo período de 2008. A segunda revela que o desemprego recuou de 8,1 para 8% nas seis regiões metropolitanas do país, e que a renda média mensal do trabalho subiu 3,4 pontos no mesmo espaço, alcançando 1 mil e 323 reais. Como explicar o fenômeno?

A receita desceu 7,3% já descontada a inflação que, para o IBGE foi de 4,5 no período. Ficou este ano na escala de 384,1 bilhões de reais. Resultado alarmante, inclusive, porque a população cresceu 1,1% entre uma ponta e outra. Consequência provavelmente de um Produto Interno Bruto menor, o reflexo lógico na retração da renda per capita. Já que é o resultado da divisão do PIB pelo número de habitantes. Mas a questão não se esgota aí. Constatar o fenômeno não é suficiente. É necessário interpretá-lo. Traduzi-lo. Todos sabemos que o impulso ao consumo, via crediário, é muito forte, com a sociedade brasileira não atribuindo a importância que deveria dar aos juros cobrados nos financiamentos. Outro aspecto: a população está muito mais voltada para consumir do que para produzir. Da mesma forma que visa infinitamente mais a concentração do que a distribuição. O marxismo tropeçou neste plano da existência humana.

Mas ultrapassadas a tese e a antítese, vamos para a síntese. O IPI recuou muito mais do que o Imposto de Renda. O Imposto sobre Produtos Industrializados é a principal fonte identificadora do consumo. Vejam só. Nos primeiros seis meses deste ano, enquanto o IR apresenta redução de 17,4%, a arrecadação do IPI foi 31,8% menor. Logo o consumo se retraiu. O reflexo é inevitável na receita do ICMS nos principais centros consumidores como São Paulo e Rio de Janeiro. O que pode ter causado isso, já que o sistema de crédito continua aberto inclusive com uma taxa mensal de juros igual a inflação anual?

Qual a explicação para iluminar o vértice das duas reportagens que O Globo publicou? Só pode ser uma para não se por em dúvida a anunciada elevação no rendimento médio mensal do trabalho.

O medo do desemprego. Porque o desemprego é um fantasma. Ele pode não aparecer, pode não se realizar. Mas a simples perspectiva em torno da perda da colocação leva a um natural posicionamento defensivo. Claro. Pois como assumir compromissos financeiros se, de repente, a fonte do pagamento pode cessar? E vale acentuar que todas as estatísticas dão prova de que não é nada fácil retomar uma colocação perdida. Demora meses, às vezes anos. Como pagar as contas? Aí é que reside o verdadeiro problema. Em períodos de recessão, portanto de retração, todos nos sentimos ameaçados. E, de maneira responsável, passamos a agir de forma mais prudente. Este ângulo da condição humana é que não costuma ser analisado, sequer levado em conta, pelos tecnocratas. Os tecnocratas acham que os números frios das projeções que fazem podem resolver tudo. Nada disso. O ser humano é muito mais complexo do que se imagina à primeira vista. O comportamento das pessoas, multiplicado pelas situações em que se envolvem, exige pesquisas de profundidade. O temor é um sentimento permanente. O nível de consumo depende do grau da preocupação. Esta a síntese da divergência dos textos e dos dados.

Contra tudo e contra todos. E até contra si mesmo

Adonias Mangueira Fernandes
“Sei não, professor Fernandes….Mas dessa vez acho que o senhor bateu todos os recordes de ironia…..parabéns…”

Roberto Abranches
“30 anos de relacionamento permitem discordar de você, mas compreendo a tua posição”.

Amilcar Damasceno
“Se não fosse você, Helio, eu nem escreveria, duvidaria dos termos e elogios ao Mercadante. Respeito-o mais ainda, discordando totalmente”.

Silvia Maria Almeida
“Helio, que lição de jornalismo, que capacidade de ver e analisar. Apesar de tudo, tenho que manter minha restrição absoluta ao discurso do líder do PT, que não queria mesmo deixar o cargo”.

Raul Azevedo
“Helio, certamente que você conhece o conceito de Voltaire sobre “não concordar mas respeitar o direito de dizer”. Desculpe, lógico, não elogiaria jamais a fala do Mercadante, mas compreendo integralmente tua posição”.

Maria Amelia Cavalcanti
“Precisava usar todas aquelas palavras para rotularuma mudança de posição que estava decidida?”

Fitzcarraldo Silva
Qual grande patriota brasileiro disse essa genial frase ao Lulla: ‘se me derem mais grana e mais pinto, eu fico!’. Cartas à redação.”

Alexandre Silva
“Caro Hélio: o Mercantilizante joga para a torcida, sofismando a questão entre o ‘fico, mas não concordo’ e o ‘não concordo, mas fico’”.

Ana Georgina
“Helio, não foi o próprio Mercadante que falou várias vezes e dias antes, que a renuncia era irrevogável? Não é mais? E você aceita e elogia?”

Honorio Cabral
Meu caro, acho que a isenção tem um limite, embora no caso você mereça ter ressaltada a generosidade. Só que nem o PT nem Mercadante merecem o seu respeito”.

Nilson da Silveira
“Helio, você esqueceu. O Mercadante não tinha nada que ir conversar com o presidente Lula. Se ele disse que a renúncia era irrevogável, para que conversar? Para revogá-la?”

José Carlos Werneck
“Respeito e prezo a sua opinião embasada em décadas de experiência.mas, ontem mesmo, num comentário que fiz no seu blog,disse que Mercadante não largaria o ‘osso’.”

Comentário de Helio Fernandes
Impressionante. Sobraram dezenas e dezenas de manifestações, nenhuma a favor de Mercadante, todas contra ele. E logicamente, com muita elegância, respeito e, digamos, até com tristeza, opondo restrições ao que o repórter escreveu.

Mas o importante é a isenção, de Mercadante, do repórter, de todos que leram, escreveram, protestaram. Todos no exercício de um direito legítimo de expressão. O maior de todos, o do cidadão, pois sem qualquer dúvida, a última palavra é dele.

Só que Aloisio Mercadante não é o primeiro a mudar de opinião, trocando a posição fácil de ter toda a coletividade a seu lado, para REVOGAR O IRREVOGÁVEL e se sacrificar em nome da coerência, mesmo com o risco de provocar a impressão da incoerência.

O volume dos protestos e das recriminações, não deixam dúvida: ele seria exaltado, elevado e glorificado se jogasse fora a liderança, que no clima atual não vale nada.

Os exemplos até historicamente maiores e mais importantes são inúmeros. Getulio Vargas chefiou ou liderou em 1930, uma revolução pela democracia, assumiu, ficou 15 anos como ditador, não deu lugar a ninguém.

No dia 29 de outubro de 1945, quando finalmente a ditadura foi derrubada, às 9 horas da manhã, Vargas retumbava: “Só saio do Catete morto”. Às 5 e 10 da tarde, saía bem vivo, do lado do cardeal, como era moda na época.

Em 1954, eleito pela primeira vez, quiseram tirá-lo do Poder tentando enganá-lo com uma possível licença de 30 dias. Foi para o quarto, soube da verdade (“não é licença coisa nenhuma”) em 5 minutos deu um tiro no coração, mudou o rumo do país, “saiu da vida para entrar na história”.

Jânio Quadros eleito com votação arrasadora, queria mais, “renunciou”, mudou o país sem se transformar um herói, mostrando seu lado majoritário de farsante. Vargas e Jânio sempre confirmaram as posições, ou tentaram se adaptar ou mudar?

Os famosos “Tenentes”, heróis de 1922, 1924, 1926, chegaram ao poder em 1930, abandonaram suas convicções de lutar pelo povo, se juntaram à ditadura, foram interventores ou governadores, ministros, embaixadores, generais, almirantes. Como eram muito jovens, chegaram à ditadura de 1964, que se instalou principalmente por causa da renúncia de Jânio.

Mercadante sabia sem dúvida alguma que Lula é um manipulador de pessoas e personagens, afinal estão juntos há 30 anos. Mas como resistir? O próprio Mercadante foi traído por Lula em 2003, quando tudo indicava que daria um salto na carreira política.

Muitos declaram, escrevem e assinam: “Mercadante não tinha nada que ir conversar com Lula”. Não sei se Mercadante conhece bem Rui Barbosa. Em 1896, afirmou e depois repetiu: Ninguém pode deixar de atender um chamado do presidente da República, mesmo que sejam adversários”. O que não era o caso de Lula e Mercadante.

Como deixar de atender um presidente, depois de conversar com ele 5 horas? Se não foi gravada, só saberemos detalhes ou trechos. Mas no dia seguinte (ontem), às 9 da manhã, Lula mandava uma carta para Mercadante, carta que Mercadante leu da tribuna, lógico, estava autorizado.

Pergunta inútil e sem resposta: Mercadante ganhou alguma coisa com esse ato de contrariar a todos, se mantendo na liderança que já nem existe? E ele mesmo contou a história dos pedidos da mulher e dos filhos, pedido ou apelo que teve que contrariar.

O Tribunal da Família é o mais alto que existe. Para um político, só existe outro que se iguala, é o Tribunal da Opinião Pública.

Mercadante contrariou os dois, desculpem, isso só com grandeza, desprendimento e generosidade.

Mercado de tabalho, admissões e demissões

Pedro do Coutto

Os jornais de quarta-feira publicaram declarações do ministro Carlos Lupi sobre a reação evidenciada no mercado de trabalho com base na criação de 437,9 mil vagas no primeiro semestre do ano, das quais 138,4 mil no mês de julho. O salário médio, segundo Lupi, subiu 1,49%, atingindo 764 reais. É preciso esclarecer alguns pontos. Em primeiro lugar, confrontar o número das admissões com o das demissões sem justa causa. São muito altas.

Para se ter uma idéia exata, com base no relatório da Caixa Econômica, publicado no Diário Oficial de 27 de abri8l deste ano, relativo a 2008, houve no país 16 milhões e 500 mil demissões que causaram saques no FGTS da ordem de 26,4 bilhões de reais. Portanto a média mensal das dispensas situou-se em torno de 26,4 bilhões de reais. Portanto a média mensal das dispensas situou-se em torno de 1 milhão e 300 mil. É só fazer as contas.

Portanto para que em julho o saldo das contratações tenha sido de 138,4 mil é indispensável que tenham somado, em seu conjunto, 1 milhão e 438 mil, em números redondos, já que a média de demissões é de 1 milhão e 300 mil por mês.

Este resultado não ocorreu só em 2008, claro. È uma tendência estatística constante que talvez tenha crescido mais velozmente no segundo semestre do ano passado.

O ministro Carlos Lupi referiu-se ao resultado positivo do primeiro semestre com a recuperação de 437,9 mil postos de trabalho. Mas este número não confere com os publicados pela Caixa Econômica no relatório relativo ao primeiro semestre deste ano, página 35 do D.O. de 18 de agosto de 2009. Lá está a informação de que a receita do FGTS alcançou 27,1 bilhões de reais, mas os saques atingiram 25,3 bilhões. A receita subiu, se comparada com

a do ano anterior, porém os desembolsos também. Assim, os 437,9 mil postos novos de emprego apontados pela estatística do Ministério do Trabalho não produziram um reflexo proporcional no mesmo sentido nos saldos do Fundo de Garantia. Basta conferir e cotejar. No exercício de 2008, a receita global do FGTS elevou-se a 48,7 bilhões. Os saques somaram 42,6 bilhões de reais. Houve um saldo de 6,1 bilhões. O panorama não mudou, proporcionalmente.

Mas as comparações, em termos de mercado de emprego, não terminam ainda aí. Carlos Lupi disse que o crescimento dos postos este ano fez com que o total de empregos formais (com carteira assinada)n chegassem a 32,4 milhões, representando um resgate de 0,43% em relação presume-se a igual período do ano passado. É pouco. Pois a taxa demográfica brasileira é de 1,2% a/a.

Nascem no Brasil aproximadamente 2 milhões de pessoas no espaço de doze meses. Dessa forma, o universo do trabalho, para não registrar perda relativa, tem de crescer também 1,2% a/a. Para empatar. Se aumentar menos que 1,2%, estaremos perdendo espaços do presente para o futuro. E, com isso, agravando as tensões sociais com reflexos no campo das atividades ilegais. Na realidade, o mercado de trabalho brasileiro tem que avançar mais de 1,2%. Isso porque 1,2 significa o empate. E, no caso, o empate nos desclassifica. O país tem de vencer a luta contra o atraso refletido nas condições sociais adversas.

Finalmente uma outra comparação. O avanço de 1,49% na média dos salários não é suficiente. Mesmo se for referente ao primeiro semestre. A previsão inflacionária do IBGE é de 4,5 pontos. Portanto para que não houvesse retrocesso nos seis primeiros meses do ano, era indispensável uma evolução de, no mínimo, 2,25%. Mais do que 1,49.

Em matéria de números é preciso atenção com eles.

Saltando de banda

Carlos Chagas

Nem o presidente Lula nem a ministra Dilma Rousseff tomaram qualquer decisão sobre o companheiro de chapa da candidata. No palácio do Planalto registra-se  a tendência para que venha do PMDB, mas apenas depois da certeza de que o partido se integrará à campanha do PT.  Sob esse prisma, especula-se a respeito da indicação de Michel Temer, presidente da Câmara e presidente licenciado do PMDB, mas o cauteloso deputado por São Paulo anda saltando de banda. Trocaria mais  um mandato na Câmara e sua provável permanência na direção na casa no biênio 2011-2012 por uma aventura eleitoral, já que até agora Dilma  não decolou   nas pesquisas?

Acresce que o presidente Lula não gosta de Temer, costuma referir-se a ele de forma crítica,  enquanto Dilma carece de maiores aproximações com ele.

No PMDB, o sentimento é de expectativa. Um grupo segue a orientação de Orestes Quércia e ainda luta para o partido apoiar José Serra. Mesmo entre os lulistas, porém, existem os peemedebistas  que levantam ressalvas: se a escolha do vice beneficiar líderes polêmicos como o ministro Geddel Vieira Lima e o deputado Eliseu Padilha, ficarão à margem.

Fora do PMDB, Dilma teria outras opções, como Ciro Gomes, apesar de o ex-governador do Ceará insistir em que disputará a presidência da República. Não se cogita de nenhuma chapa-pura, a não ser que o PT fique abandonado. Em suma, faltam dados essenciais para a montagem da equação por enquanto em aberto.

Nem projetos nem programas

Vale começar com uma historinha encenada pelo saudoso crítico literário Agripino Grieco. Ele era o terror dos escritores, censor implacável de todas as mediocridades. Ganhou fama. Freqüentava com assiduidade o salão de um barbeiro no bairro em que morava no Rio, o Meyer. O profissional, com o passar do tempo insinuou-se e insistiu anos a fio para que Grieco lesse os originais de um romance que havia escrito, algo que o elevaria ao patamar de Machado de Assis, José de Alencar e até Eça de Queirós. O crítico deu tanta bandeira na pretensão do barbeiro, recusando-se a levar o texto para casa,  que um dia o coitado  apelou: “está bem,  se o senhor não tem tempo para ler tudo e elaborar uma crônica completa, pelo menos me dê a honra de escolher o título da minha  epopéia.”

Agripino Grieco surpreendeu, concordando e anunciando que daria o título naquela hora mesmo. E indagou: “o seu livro tem trombones?” “Não, de jeito nenhum.”   “Tem trombetas?”  “Também não.”  “Então aí está o título: Nem trombones nem trombetas…”

O episódio se conta a respeito dos candidatos à presidência da República. Estão lançados, freqüentam o noticiário e já percorrem o país em pré-campanha, mostrando-se e aparecendo na televisão.

Dilma Rousseff, José Serra, Aécio Neves, Heloísa Helena e agora Marina Silva e Ciro Gomes  transitam pelo país, não deixam de cortejar o Nordeste e armam  suas candidaturas de maneiras variadas.

Mas alguém já ouvir falar de seus projetos e programas para o próximo mandato presidencial? Dispõe ao menos um dos candidatos um plano-diretor,  um elenco de propostas para definir os objetivos nacionais? Algum conjunto de objetivos maiores a ser conquistados para moldar nosso futuro?

Nada. Dilma  admite continuar a obra do Lula, Serra quer levar para o plano federal sua performance paulista, Aécio lembra o dr. Tancredo, Heloísa Helena fala em demolir tudo, Marina Silva parece o samba de uma nota só, envolto na ecologia e Ciro nem isso.

O governo Lula já fica devendo uma definição  maior, que até agora limitou-se ao PAC,  ao bolsa-família e à satisfação das elites empresariais. Muita gente respira fundo e diz que ainda bem, porque o presidente andou correndo o sério risco de ter de  absorver as loucuras do ex-ministro Mangabeira Unger, felizmente já escafedido.

Em suma, ao menos até agora, os candidatos apresentam-se pelas próprias imagens, sem nenhuma visão estratégica em condições  de nos inserir no contexto  mundial. Mesmo em palavras simples, compreensíveis pela maioria do eleitorado, ficam devendo uma resposta: para onde querem levar o Brasil? Nem projetos nem programas…

E os aposentados?

A lambança verificada no Senado e acentuada na semana que passou leva a mais uma desilusão: e as iniciativas  capazes de  recuperar os aposentados, extinguindo o celerado fator previdenciário e evitando o nivelamento de todos por baixo? Faz muito que a concessão de reajustes a todos os que recebem mais do que o salário mínimo foi discutida,  debatida.  votada e aprovada no Senado e na  Câmara. O presidente Lula vetou o que não seria benefício, mas obrigação do poder público.

Pois bem: há quanto tempo a mesa do Congresso, agora conduzida pelo senador José Sarney, ficou de marcar e não marca a sessão definitiva para a apreciação do veto? Por que as diversas bancadas não exigem essa decisão?

A resposta é simples: porque o presidente Lula não quer. Porque a equipe econômica fez a cabeça dele e sustenta que o país irá à  falência se o reajuste for concedido. Por isso Sua Excelência vetou e por isso pressiona Sarney e as lideranças variadas para adiarem a decisão. Enquanto isso, os aposentados que se danem. Só que tem um problema: os aposentados votam…

Direito  suprimido

Foi nos tempos da Constituinte,  graças à iniciativa do então deputado Nelson Jobim, que se viu suprimido o direito de todos os senadores em exercício terem o direito obrigatório de disputar a reeleição pelos respectivos partidos. Eram candidatos natos, mesmo sendo muitos deles  rejeitados logo depois pelo eleitorado.

Em nome sabe-se lá de que princípio democrático, desapareceu a prerrogativa. Os senadores não tem garantia de receber legenda para tentar um novo mandato, independentemente dos conchavos e articulações partidárias. É o caso do senador Mão Santa, do PMDB do Piauí. Por conta do acordo do partido com o PT, sob a batuta do atual governador, anunciam que legarão ao polêmico senador o direito de concorrer. Não dá para entender.

A Bovespa recuperou 70 por cento do índice, a economia ainda em crise

A alta do “mercado” não é suficiente e não tem consequência para resolver a crise que começou financeira e, como se sabia, passou e continua sendo econômica.

Hoje as ações permaneceram em alta, sem um instante de “sofrimento”.

Abriu em mais 1,12%, fechou em alta de 1,58%, em 57.778 pontos. Pessoas da Bolsa me cobram: “Helio, já caímos para 38 mil pontos, estamos acima de 57 mim e chegaremos a 60 mil”. Não duvido. O que questiono é a importância disso para o desenvolvimento, distribuição de renda, aumento do consumo, ou seja: CRESCIMENTO VERDADEIRO.

O volume, inexistente, 4 BILHÕES e 700 MILHÕES.

O dólar continua na casa de 1,83/ 1,84, hoje caiu 0,63%.

Frases autênticas, textuais e entre aspas

Ministro Marco Aurélio do Supremo: “A agenda serve para documentar os fatos e as datas”. Ótimo, mais um esclarecimento sobre a polêmica do pedido de Dona Dilma a Dona Lina, para “agilizar” investigação sobre o filho do Sarney.

De Aloysio Mercadante terminando seu assombroso discurso: Lula ERROU, o PT ERROU, eu ERREI, nós ERRAMOS, mas temos que lutar pela recuperação”. Magistral.

Todos os senadores do PT, Sergio Guerra, presidente do PSDB, Artur Virgilio, líder do mesmo PSDB, e muitos outros citados por ele: “Mercadante, FICA, precisamos da sua liderança”.

Explicação pessoal urgente

Mercadante começou a falar às 11:05, acabou às 11:24, o carro estava esperando. Foi para o aeroporto, ainda pegou o avião de meio-dia e quinze para São Paulo.

Esse era seu grande auditório

Por que a pressa? Ele mesmo revelou que pela vontade da mulher e dos filhos, SAÍRIA da liderança. As conversar foram mantidas pelo telefone. Tendo tomado a posição mais difícil e sacrificada, precisava explicar tudo, pessoal e carinhosamente. (Exclusiva)

Mercadante: um discurso emocionante

Grandeza, desprendimento, generosidade e sacrifício numa decisão verdadeiramente RESPONSÁVEL

Numa fala de 19 minutos, o senador de São Paulo atinge o ponto mais alto de uma carreira e de uma vida dedicada ao Brasil e à coletividade. Não importa que quase todos esperassem a renúncia, tida e esperada como i-r-r-e-v-o-g-á-v-e-l, e que Mercadante decidisse pela permanência.

Este repórter, ontem, às 2 da tarde, escrevia: “Nada ainda foi determinado por Mercadante, tenham cuidado ao falarem de DEMISSÃO ou RENÚNCIA.”

Agora, aplaudo, louvo, digo com toda a clareza e simplicidade: Mercadante TOMOU A DECISÃO SÁBIA E CERTA. SAIR DA LIDERANÇA ERA MUITO MAIS FÁCIL DO QUE FICAR, NA SITUAÇÃO EM QUE ESTÁ O SENADO E O PT.

Não preciso acrescentar mais nada. Tendo conversado com o presidente da República durante 5 horas (até 1 da madrugada) e recebido às 9 da manhã a carta que recebeu do próprio Lula, a solução MENOR seria sair.

Ficar, nas circunstâncias  em que decidiu ficar, é o gesto de suprema nobreza. Parabéns, Mercadante, essa é a maior decisão, ou melhor, a decisão ÚNICA E RESPONSÁVEL. (Exclusiva)

Otimismo falso, a realidade verdadeira

O presidente do Banco Central dos EUA diz: “Chegamos ao fundo do poço”. Como ninguém (pessoal ou coletivamente) pode cair mais baixo do que o fundo do poço, comentam “só pode melhorar”.

Alemanha e Inglaterra

Duas afirmações oficiais: “Não existem sinais irrefutáveis de recuperação, o sinal de alerta não pode ser desligado”. O desemprego cresce nos mais diversos países, o maior de todos? Os Estados Unidos.

Deturparam a palavra de Lula

Disseram com estardalhaço, como se fosse declaração do presidente: “O PT não está em crise, senadores entram e saem”. Não foi nada disso. O presidente fez declaração diferente.

Tiraram uma palavra-chave

Lula disse com toda convicção: “O M-E-U PT não está em crise”. Essa é realmente o que ele quer e admite.

Mudaram deliberadamente

Sem o M-E-U, a declaração ficou capenga, truncada sem sentido. É obrigatório que os jornalões e as televisões RETIFIQUEM, ou melhor, façam ou desfaçam o REFERENDO do que disse Lula. (Exclusiva)

Terceira vitória do vôlei feminino

Bem que aconselhei: quem puder, fique acordado para ver Brasil-Alemanha. A televisão deve repetir esse novo 3 a 0.

Na próxima madrugada (de sexta, hoje, para sábado), as meninas enfrentarão a Holanda, a surpresa do Gran Prix.

Pontos corridos

Como jogam todos contra todos, faltam só dois jogos. Assistam o jogo analisando a RENÚNCIA de Mercadante ou o REFERENDO de Uribe, dos EUA, perdão, da Colômbia. (Exclusiva)

Uribe como Dom Pedro: quer ficar, mas com o sonhado REFERENDO

É mais um que pretende o terceiro mandato, EM NOME do povo. Ontem, quinta-feira, às 9 da noite, foi “autorizado” a tentar o terceiro mandato se ganhar o “direito”. Ha! Ha! Ha!

EUA a favor de Uribe

Agora está aí a explicação para as base militares dos EUA na Colômbia. Os americanos, ostensiva e abertamente, dizem SIM ao REFERENDO. Quem duvida da “VITÓRIA” do já “referendado” presidente?

Mercadante, um nome que não pode ser SILABADO, uma renúncia ou demissão não DECODIFICADA

Que angústia, depressão e indecisão do senador que já foi uma esperança. Vice do próprio Lula em 1994, senador em 2002, agora luta desesperadamente pela reeleição em 2010.

Pode perder até para Quércia

Há mais de 1 ano, Serra decidiu apoiar Quércia para o Senado, o “dono” do PMDB está firme com o governador. Vai se eleger. Lembram quando o presidente Lula chamou Quércia ao Planalto-Alvorada para conversarem?

Mercadante e a renúncia

O senador de São Paulo podia ter deixado a liderança (que não vale nada) com prejuízos políticos e eleitorais menores. Desde ontem, quinta-feira, até hoje às 9 da manhã de hoje, sexta, quando escrevo, curiosidade: Mercadante sabe menos do que todos. Tudo pode acontecer. (Exclusiva)

TV RECORD e TV GLOBO SE ACUSAM MUTUAMENTE

Não bastasse a baixaria diária protagonizada pelos “nobres” senadores da República, que não legislam, depreciam a classe política e consomem anualmente 4 bilhões de reais do orçamento nacional, agora a população está sendo obrigada também a suportar a divulgação das “qualidades” dos dirigentes de duas das principais redes de TV do País. Estão lavando roupa suja em rede internacional.

A Globo acusa Edir Macedo de estar se apossando de doações de milhões de crédulos evangélicos para aumentar seu patrimônio pessoal. É dono de inúmeros canais de TV, emissoras de rádio, casas e apartamentos de luxo e de aeronaves com capacidade de vôo intercontinental.

A TV Record defende-se, repetindo que a TV Globo cresceu à sombra da ditadura e que, com mão de ferro e com apoio de organismos federais, manteve-se líder de audiência e de faturamento às custas do definhamento da concorrência. Prestigiou os ditadores e foi  por eles agraciada. (Está tudo no livro “O outro lado do Poder”, do general Hugo de Abreu, Chefe da Casa Militar de Geisel, e que dava ordens aos que se submetiam a recebê-las).

Nada de novo nas velhas e requentadas acusações tanto de um como de outro lado. As duas redes têm telhado de vidro.

Na guerra, a TV  Record tomou a iniciativa  de trazer à discussão o caso da compra da Rádio Televisão Paulista S/A (hoje TV Globo de São Paulo) por Roberto Marinho com recibos, procurações e substabelecimentos anacrônicos e falsos e que foram considerados válidos pelo DENTEL, em janeiro de 1977, quando pela Portaria 430, o governo “revolucionário” buscou dar validade e ares de legalidade a uma transação inexistente e irreversivelmente contaminada.

O Ministério Público Federal está aguardando o julgamento do recurso especial que tramita no Superior Tribunal de Justiça, no qual se sustenta a inexistência de contrato de venda do citado canal entre as famílias Ortiz Monteiro e Roberto Marinho, para, então,  decidir se propõe ou não  ação anulatória da transferência da concessão para os seus atuais controladores. Essa concessão acaba de ser renovada por mais 15 anos pelo governo federal, ato esse que pode ser judicialmente contestado e declarado sem efeito.

Quanto às falsidades produzidas  para se obter o deferimento da transferência das ações da Tv Globo de São Paulo para o jornalista Roberto Marinho, entre 1964 e 1977, o Instituto Del Picchia de Documentoscopia advertia em seu laudo que “no Direito também, os documentos quando autênticos, sem vícios ou máculas de qualquer espécie, provam os fatos declarados”.

“Não são os fatos que poderiam permitir provar a autenticidade dos documentos. E muito menos os fatos provariam a autenticidade de algum documento quando este padece de FALSIDADE INCONTROVERSA, como a irrealidade e impossibilidade de sua data, por exemplo”.

“O verdadeiro, o real, o legítimo, não carece de RATIFICAÇÃO, prescinde do fabrico malicioso de vários outros documentos com o fito de ser ratificado”.

“A verdade resiste sozinha. A fraude precisa de suporte! E se alguém comete falsidades, para ratificar um documento, a credibilidade deste é a mesma, acompanha aquela das fraudes ratificadoras”.

*   *  *

PS – Se Victor Costa Júnior não era acionista e nem dono da TV Paulista por que Roberto Marinho comprou ações que não lhe pertenciam?

PS2 – Se a família Ortiz Monteiro nada negociou com Roberto Marinho por que, então, a produção de recibos, procurações e substabelecimentos anacrônicos e falsos para sustentar um negócio inexistente, impossível?

PS3 – Esta é exclusiva. Se Victor Costa Junior não era dono da TV Bauru e nem do Canal 11 do Recife como e por que essas emissoras também passaram a ser controladas pela família Marinho, depois da assinatura do Instrumento Particular firmado em 9 de novembro de 1964 com o mesmo não acionista da TV Paulista, Victor Costa Junior?

E se depois de tudo ela não emplacar?

Carlos Chagas

A pergunta que se fazia em Brasília ontem, dia seguinte  do enterro do PT, era se alguém terá coragem de perguntar ao presidente Lula se tanta truculência valerá à pena, se no final de tudo Dilma Rousseff não emplacar. Porque desde a inusitada imposição da chefe da Casa Civil como candidata até o lamentável episódio de quarta-feira, no Senado, o primeiro-companheiro não hesitou em humilhar seu próprio partido. Sem esquecer as pressões sobre os diretórios estaduais dos estados onde o PMDB tem os governadores, para que neles o PT não lance candidatos.

O presidente tem uma fixação maior do que fazer um bom governo, recuperar o poder aquisitivo das massas, distribuir o bolsa-família e impulsionar uma política externa independente.

Mais do que tudo, ele quer eleger Dilma sua sucessora. Para isso, curva-se às imposições do PMDB, faz concessões variadas a diversos partidos da base oficial, adula governadores e comporta-se como um cabo eleitoral daqueles do interior. Acima de tudo, porém, enquadra e desconsidera o PT e seu passado. Importa-lhe menos que Marina Silva e Flávio Arns peçam as contas ou que Aloísio Mercadante deixe a liderança da bancada pela porta dos fundos do Senado. Ou que o sonho uma vez sonhado pelos companheiros de transformar o Brasil revele-se um pesadelo dos diabos, pelo abandono de programas,  metas  e ideais antes  presididos  pela ética política.

Tragédia será se depois de tudo isso, arriscando até parte de sua popularidade, o presidente defrontar-se com o  impacto da inviabilidade da candidatura de Dilma ou, pior ainda, sua derrota nas eleições do ano que vem.

O PT posto em frangalhos dificilmente se irá recuperar, tanto em sua trajetória parlamentar quando nos resultados eleitorais em termos do novo Congresso e dos governos estaduais. Sem falar na  desmoralização das instituições parlamentares e no fato de ter contra ele, senão a opinião pública, ao menos a totalidade da opinião publicada, irradiada e televisada. Há quem preveja tempestades, se isso acontecer. Retrocessos, na hipótese da passagem do poder para os defensores do neoliberalismo e da prevalência absoluta do mercado comprovadamente fracassado no planeta inteiro.

Os trapalhões

Anos atrás os trapalhões eram quatro: Dedé, Didi, Muçum e Zacarias, os dois últimos de saudosa memória. Hoje, são muitos mais. Acima de fazer rir, fazem chorar, lamentar e ranger os dentes. Jamais se viu na crônica do Senado comportamento tão indigno  de boa  parte de seus integrantes.

Trapalhões foram Paulo Duque, conduzindo o Conselho de Ética como a Mãe Joana conduzia o seu estabelecimento. Aloísio Mercadante, girando mais do que biruta de aeroporto,  desagradando  o PT inteiro e servindo de chacota para os demais partidos. Wellington Salgado, fazendo as vezes de Sansão às avessas, pois quanto mais crescem seus abomináveis cabelos, mais se credencia a demonstrar fraqueza e indigência. Almeida Lima, um Rolando Lero mais eficiente do que o original, na escolinha de horror do Senado. Ideli Salvatti,  a perfeita bruxa da Branca de Neve que em vez de oferecer maçãs envenenadas, engoliu todas de uma vez. Romero Jucá, líder dos dois mundos, pensando em  imitar Taillerand mas representando o papel Luís XVI a caminho da guilhotina. E quantos mais, envolvidos na mais execrável das pantomimas parlamentares,  dirigida dos porões do palácio do Planalto?

Indaga-se quando e como o Senado poderá pensar em recuperar sua imagem, depois do espetáculo desta semana. Parece que nunca, porque não se tratou apenas de salvar José Sarney de  acusações que ele poderia ter respondido com segurança e altivez. No caso, os trapalhões transformaram a atividade parlamentar num circo. No qual tocaram fogo.

Requião com Dilma

Ironicamente, o prato principal foi “coelho à caçadora”. Falamos do jantar de quarta-feira,  que reuniu no palácio na Alvorada o presidente Lula, a ministra Dilma Rousseff e  o governador do Paraná, Roberto Requião, que não foi caçado ou, muito menos, servido.

A preocupação maior do anfitrião foi saber se o convidado de honra seria ou não candidato à presidência da República, embolando ainda mais o meio campo da sucessão do próximo ano. Sem esquecer as duas tentativas em que se lançou, e foi derrotado pelos lamentáveis caciques do PMDB, Requião deixou claro não dispor das menores condições para insistir. Seu partido não é um partido, mas uma federação de discordâncias onde pontificam o fisiologismo e interesses regionais divergentes.

O governador está pronto para apoiar a candidatura de Dilma, claro que sob certas condições, a primeira delas de que a chefe da Casa Civil não selecione para seu companheiro de chapa um dos camaleões do PMDB. Mas entende que o governo Lula, se não é o  mais eficiente em toda a história da República, será ao menos um dos mais competentes. Apóia o presidente em gênero, número e grau, tornando-se natural, assim, seu acoplamento à candidata.

Quanto à sucessão no Paraná, Requião não admite interferências alienígenas. Lançou a candidatura de seu vice-governador e aguarda os entendimentos, mas rejeita respaldar os dois irmãos Dias, seja Álvaro, seja Osmar.  Há tempo para as composições. Pessoalmente, espera candidatar-se ao Senado.

Contando, ninguém acredita

Capítulo extra no festival de lambanças encenado pelo Senado em torno das representações contra José Sarney aconteceu quanto o líder do governo, Romero Jucá, em plena sessão da Comissão de Constituição e Justiça, apresentou requerimento convocando a ministra Dilma Rousseff  a comparecer  e depor a respeito da reunião que teria ou não tido com a ex-chefe da Receita Federal, Lina Vieira.

Em poucos segundos o presidente da Comissão percebeu a manobra. Jucá pretendia apresentar e ver rejeitado o pedido, porque naquela hora a bancada  governista era amplamente majoritária.  Rejeitada a petição que os oposicionistas pretendiam apresentar mais tarde,  mas recusada pelos governistas, não poderia mais ser reapresentada.

Um golpe pueril que o senador Demóstenes Torres  identificou e, para evitá-lo, encerrou a sessão. A gente fica pensando se Romero Jucá trata os oposicionistas que lá liderou no passado, como se fossem os governistas de hoje.

Marina troca Senado pelo projeto de derrotar Dilma

Pedro do Coutto

Ao se desligar do PT, partido que ajudou a fundar nas horas difíceis da oposição ao regime militar, e no0 qual se encontrava há trinta anos, Marina Silva, movida por forte impulso interior, decidiu buscar, como disse, um novo caminho político. Certamente depois de superar a dúvida hamletiana, prepara-se para ingressar no caminho verde sob inspiração da ecologia. Sua decisão não deve ter sido fácil. Afinal de contas, ela abriu mão de renovar seu mandato no Senado pelo Acre nas urnas de 2010 para desenvolver o projeto, que no momento parece nítido, o de criar condições para derrotar Dilma Roussef, candidata do presidente Lula à sucessão.

O gesto não encontra outra explicação –ou poderá- candidatar-se à reeleição pelo PV, mas isso não teria a repercussão que pretende obter e, aliás, está alcançando na imprensa. Ela acentua uma dissidência no Partido dos Trabalhadores, já aberta com o desligamento do senador Flavio Arns. E também, de certa forma, com o esvaziamento de Aloísio Mercadante na liderança do partido no Senado. Mercadante defendeu abertamente o afastamento de José Sarney da presidência da Casa, mas foi completamente ultrapassado e desautorizado pela nota do presidente da agremiação, Ricardo Berzoini, lida, não por ele, Mercadante, mas pelo senador João Pedro.

Marina Silva considerou ter contas a ajustar com o PT e com o governo. Provavelmente também com a chefe da Casa Civil. Escolheu o momento certo em meio à tempestade, que tanto envolveu o Legislativo pela bruma da impunidade, quanto a candidata pelo desencontro entre sua versão e a da ex secretária da Receita, Lina Vieira. Sintetizando, na verdade, Marina Silva trocou o Senado pela perspectiva de contribuir na campanha de 2010 para derrotar aquela que considera sua principal adversária.

Mais um fato raro na política brasileira, um imprevisto a mais, uma pedra a mais no caminho. Aquela pedra, sobre a qual escrevi há poucos dias, e que Drumond eternizou na poesia. Eu disse mais um fato raro. Pois é. Não existem muitos. Mas, sem dúvida, entre os poucos, o de Marina Silva acrescenta-se ao de Roberto Jeferson que em 2005, para acuar José Dirceu e conseguir retirá-lo da Casa Civil, acusou-se a si mesmo no episódio que, ele próprio afirmou.

Envolveu recebimento, sem destinação explícita, de um apoio de 4 milhões de reais para candidatos do PTB às eleições municipais. O dinheiro evaporou-se entre as nuvens. Os mandatos do acusador insólito e do acusado perderam-se no espaço do confronto marcado por rastros e raízes de ódio que se tornaram aparentes. Um duelo político que conduziu ao desvendamento de mais uma tragédia brasileira, já que o mensalão pode ser classificado assim.

Agora, um novo duelo se coloca: Marina Silva prefere perder o Senado se assim contribuir para evitar que Dilma chegue à presidência da República. O vulto de Skakespeare ressurge no palco da realidade brasileira.

Um outro assunto. Em matéria publicada no Globo de 20 deste mês, o repórter Túlio Brandão revela que a Agência Nacional de Transportes Terrestre decidiu que o trem bala Rio-São Paulo-Campinas, de alta velocidade, terá que percorrer linhas subterrâneas ao cruzar os subúrbios cariocas. O trajeto pela superfície não se revela seguro.

A obra, com isso, vai encarecer enormemente. Mas não é este o aspecto principal da notícia. Que, aliás, merecia maior destaque. O aspecto principal é a prova da situação da cidade. Conflagrada com choques entre a Polícia e o crime, permanentemente insegura tanto de dia quanto de noite. Incrível.

No “mercado” de ações, investidores ouvem sempre: “a bolsa ou a vida”

Só descuidados, imprudentes ou desatentos participam desses antros, que no mundo inteiro contaminam o setor financeiro. Não se passam muitos anos sem que esses jogadores criem crises irreparáveis.

De 1929 a 2009

São 80 anos, quantas crises, quantas falências coletivas ou individuais foram provocadas pela ganância ou a volúpia do lucro fácil? Por que o senhor Madox de Nova Iorque conseguiu dar um rombo de 50 BILHÕES, de dólares, de dólares?

Não há recuperação para a coletividade

No Brasil (igual ao resto do mundo), o máximo e o mínimo, sem favorecer o cidadão. Já chegaram a 74 mil, caiu para 38 mil, está em 56 mil, pode chegar onde esteve, mas sem investidores, só jogadores.

Alta sem volume

A Bovespa o dia todo sem cair. Mas subindo lentamente, quase nada. Na abertura e no meio da tarde, mais 0,92% em 56.760 pontos. No fechamento, 56 mil e 800, mais 1,2%.

O dólar o tempo todo “em casa”, fechou “zero a zero”, como se fosse Fluminense e Palmeiras.

Cálculo aritmético

Às 13 horas, primeira postagem, estava em 1 BILHÃO e 500 MILHÕES, fiz a projeção: assim, não chega a 4 BILHÕES, fechou em 3 BILHÕES e 700 MILHÕES.