Pane no sistema da CEF durou de setembro de 2008 a agosto de 2009?

Pedro do Coutto

Reportagem de Natuza Nery, Dimi Amora e Rubens Valente, manchete principal da Folha de São Paulo de domingo 10, iluminou nebuloso episódio ocorrido na Caixa Econômica Federal, que pode ter acusado – frisaram os repórteres – um prejuízo da ordem de 1 bilhão de reais. Uma pane no sistema de informática deu margem a que a corretora Tetto lucrasse negociando títulos de baixo valor por preços acima dos de mercado.

Algo estranho aconteceu no reino da Dinamarca. E chama especialmente atenção o fato de que os títulos foram comercializados no período de setembro de 2008 a agosto 2009. A pane no esquema informatizado terá durado onze meses? E os técnicos não perceberam? Tampouco o mercado?

Transações desse tipo, envolvendo as chamadas moedas podres, atraem interesse dos especialistas.Não só diante da surpresa, mas também face a perspectiva de lucros altos e rápidos. O mercado financeiro, em todo o mundo, é extremamente nervoso. Quem não se anima com a hipótese de se capitalizar? Sobretudo os especuladores que vivem o dia a dia das movimentações financeiras.

Difícil acreditar que no espaço de onze meses nada de anormal haja sido percebido. Tanto assim que, de acordo com matéria assinada por Maria Clara Cabral, já anteontem, segunda-feira, o problema tinha sequência a partir da investigação promovida pela própria Caixa Econômica.

A CEF culpa a Tetto. Porém são necessárias maiores explicações para percorrer os fios da teia de aranha. Assim como nos romances policiais.Se Jô Soares, como fez em seu livro, chamasse o Sherlock Holmes, este fatalmente repetiria a pergunta: A quem interessou a transação? Aliás as transações, já que seguramente foram várias, repetindo-se quase durante um ano.

A Tettto, valendo-se de uma falha vendeu os papeis. Os adquiriu de quem? A que preço? E os vendeu a quem e a qual preço? Sim. Porque se alguém vendeu é porque alguém comprou. Não fosse atraente o negócio, ele não teria se concretizado. Mas se concretizou. A trama não termina aí.

Os que pagaram preços acima dos do mercado só poderiam ter razões para isso. Mas não entendo onde se localiza a hipótese de prejuízo para a CEF. Se os títulos não eram dela, e ela não os adquiriu de forma antieconômica, qual o ponto da questão que a envolve?

Sherlock Holmes deveria fazer tais perguntas, degrau por degrau. Afinal de contas, quais seriam os personagens que pagaram mais do que deveriam ter pago? A explicação não parece fácil, a menos que se esteja diante de um assalto do tipo daquele praticado no início da década de 60 envolvendo a emissão da letra de câmbio da empresa Manessmann.

Inundou o mercado de papeis e depois o presidente da empresa, Sigmund Weiss, denunciou a falsificação. A assinatura nos títulos era de Jorge Serpa Filho, diretor financeiro, considerado um supercraque no mundo dos negócios. E também em matéria de envolvimento de políticos e administradores. Neles, sua firma, fora falsificada. Os exames grafotécnicos apontaram a falsificação.

Mas, aí é que entra a astúcia: os papeis teriam sido falsificados com o conhecimento do próprio autor. E também com o conhecimento de Weiss, a quem a entrevistei para o Correio da Manhã, no seu apartamento da Avenida Atlântica. Acho que o caso não terminou até hoje, 50 anos depois da sua explosão na imprensa e no mercado.

Talvez seja útil a Jô Soares fazer com que Holmes e Watson percorram a trilha de Jorge Serpa, incluindo sua passagem pelo Globo, como assessor especial do jornalista Roberto Marinho. Desenvolto, possuidor de um toque mágico, lançou luz sobre sombras, em vários casos. Em outros tantos, incluindo o Correio da Manhã, tempo de Niomar Moniz Sodré, contrapôs a sombra à claridade. De qualquer forma, é um paradigma para qualquer investigação. Até mesmo para as que não levam a nada.

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