Pantomima ou tragédia? (II)

Carlos Chagas

Para o governador Carlos Lacerda, todos os desencontros daquela noite se resolveriam com a finalmente programada conversa ampla com o presidente Jânio Quadros. Assim pensava quando o carro oficial posto à sua disposição aproximou-se da portaria do palácio da Alvorada. Lá, a surpresa: os vastos portões de ferro não se abriram, e quem se aproximou foi o mordomo do presidente, com a mala na mão. A sua mala. Ela tinha sido desfeita nos aposentos que horas antes ele ocupara no andar de cima do palácio, mas, pelo jeito, pijama, escova de dentes e aparelho de barbear tinham sido recolhidos. A informação foi curta: o presidente mandou reservar para o senhor uma suite no Hotel Nacional. O carro o levará. Boa noite.

Lacerda sentiu-se como se o mundo desabasse. Jamais havia passado por humilhação igual. Convidado para hospedar-se, jantar e conversar com Jânio sobre problemas na Guanabara e no país, via-se escorraçado e mandado embora. Na portaria do Hotel Nacional, rejeitou a suite que a presidência da República lhe havia reservado e bateu na porta do apartamento do piloto que o havia transportado até Brasília. Lá, ao telefone, desancou o ministro Pedroso Horta, participando estar rompido com o governo federal e disposto a ir à televisão denunciar haver sido convidado para um golpe de estado.

Os bastidores do episódio seriam cômicos se não fossem trágicos. Estava tudo acertado para Jânio e Lacerda passarem horas conversando na residência oficial, acertando os ponteiros, mas… Mas D. Eloá havia viajado para São Paulo a fim de atender a filha Tutu, grávida da primeira filha. Sentindo-se livre, o fauno que ocupava a chefia do governo entabolou negociações com uma velha amiga, da alta sociedade paulista, para vir consolá-lo em sua solidão. A gentil senhora acedeu, deve ter iludido o marido e chegou ao palácio da Alvorada pouco antes do governador carioca. E agora, fazer o quê?

Contando com a conivência do ministro da Justiça, Jânio armou a trapalhada para afastar Lacerda daquela noite de prazeres. Pedroso Horta sentiu que a patuscada ameaçava transformar-se em grave crise. Acompanhado de dois litros de uísque, já depois da meia-noite, seguiu para o Hotel Nacional. Na porta do apartamento do piloto, Lacerda negou-se a recebê-lo mas acabou cedendo, pelo barulho que o ministro fazia no corredor. Conversaram aos berros por mais de três horas e duas garrafas de Johnny Walker, Red Label.

O presidente embarcaria para o Espírito Santo naquela manhã, havia convidado Lacerda para acompanhá-lo, mas o governador voltou direto para o Rio. Lá, no palácio Guanabara, convocou secretários mais próximos e deputados da UDN, como Adaucto Lúcio Cardoso, expondo-lhes a proposta golpista do ministro da Justiça. Ainda viajou para São Paulo, naquela tarde, onde faria palestra numa universidade. Esteve com o governador Carvalho Pinto, que informado, silenciou.

De volta à antiga capital, um dia depois, Lacerda hesitava sobre o que fazer, mas num daqueles repentes tão a seu modo, decide cumprir a promessa. Vai para a televisão, onde critica o esquerdismo do governo Jânio Quadros, até por haver dois dias antes condecorado Che Guevara, que voltava de Punta Del Este para Havana, descendo em Brasília para abastecimento da aeronave.
O governador conclui o longo pronunciamento com a denúncia do golpe, apresentando detalhes de suas duas conversas com o ministro da Justiça. Naqueles idos as microondas engatinhavam, sem saber que seriam substituídas pelos satélites, mas mesmo sem imagem, o audio do que se falava no Rio era ouvido em Brasília. Na madrugada de sexta-feira, deputados e senadores acordavam, uns aos outros, para tomarem conhecimento da grave crise. Muitos, ainda noite escura, dirigiram-se às dependências do Congresso.

O sol mal tinha nascido quando todos os partidos concordaram em transformar o plenário da Câmara numa grande Comissão Parlamentar de Inquérito. E já tinham convocado Pedroso Horta para, naquela tarde, depor sobre as acusações de Lacerda. Jânio foi informado ainda cedo, parece que pelo próprio ministro da Justiça. Na véspera, antes do episódio da mala do governador, o presidente tinha telefonado ao ministro de Relações Exteriores, no Rio, para saber onde se encontrava o vice-presidente João Goulart. Afonso Arinos disse que ia se informar e logo telefonaria de volta.

O presidente foi grosseiro, participando que esperaria no aparelho. Logo veio a informação: Jango estava encerrando seu último dia como convidado do governo chinês, em Cantão, e logo viajaria para Cingapura, onde chegaria em poucas horas.

Depois do café da manhã daquele 25 de agosto, Jânio Quadros vai à Esplanada dos Ministérios, onde o aguardam os três ministros militares para a solenidade do Dia do Soldado. Sua última fotografia como presidente da República foi tirada no momento em que passava em revista a tropa, curvando-se diante da bandeira do Brasil. Ao entrar no carro para o pequeno trajeto até o palácio do Planalto, pede aos ministros Odílio Denis, do Exército, Silvio Heck, da Marinha, e Grun Moss, da Aeronáutica, que sigam até a sede do governo, onde teria grave comunicação a fazer.

No gabinete presidencial, aturdidos, o general, o almirante e o brigadeiro ouvem de Jânio que havia decidido renunciar. Silvio Heck chega às lágrimas, Denis mantém a calma e indaga se a causa da renúncia era o Congresso, dados os atritos constantes. Se o presidente quisesse, os militares fechariam o Legislativo naquele momento mesmo. Era precisamente o que Jânio não queria, ou seja, ficar devedor e refém dos três ministros.

Recusou, disse haver várias maneiras de servir ao país, voltaria para sua banca de advogado em São Paulo e pediu-lhes, ao final, que mantivessem a ordem em todo o território nacional. Já no andar de baixo do palácio o brigadeiro Grun Moss verifica haver esquecido o quépi na antesala presidencial. Sobe e surpreende-se ao ver sentados e rindo abertamente os ministros Quintanilha Ribeiro e Pedroso Horta, além do secretário-particular, José Aparecido de Oliveira. (continua amanhã)

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