Papai Noel é um bom velhinho para o mundo dos negócios. Para as crianças, nem tanto.

Paulo Peres

Enquanto a nova classe média brasileira gastará, aproximadamente, 53,9% (R$ 34,6 bilhões) do valor que receberá do 13º salário com o pagamento de dívidas, conforme revelou a pesquisa do Instituto Data Popular, o restante da população, seguindo a tradição, irá às compras atendendo ao apelo do Papai Noel, um velhinho bonachão apenas para o comércio.

Todavia, a chegada de Papai Noel na noite de Natal é esperada com ansiedade por inúmeras crianças em todo o mundo, embora o mito do “bom velhinho” carregue outras versões em nada carismáticas ou bondosas, como revela Roland Barthers em seu livro “Mitologias”, que se ocupa com uma análise semiológica das mensagens veiculadas pelos meios de comunicação de massa.

Segundo o livro, Papai Noel funciona como imagem reparadora da sociedade. É um momento em que a sociedade se livra de sua culpa através do presente e da imagem idealizadora do “bom velhinho” , do pai e do mundo adulto, pois a sociedade não aceita que se possa ter um lado bom e outro mau. Papai Noel surge, neste aspecto, como um personagem apenas bom e com ele a sociedade se redime. Isso passa para a criança que é impedida de expressar o seu lado agressivo (mau).

“A imagem da infancia é feita de formulações ideais de bondade e inocência”, afirmam os psicólogos, que vêem assim, “um comportamento repressor do Papai Noel, na medida em que o presente, na verdade, é uma troca. Só recebe presente que se comporta bem, uma maneira do pai esconder a repressão que ele exerce sobre o filho”.

A ideia de que Papai Noel teve origem como sucessor de São Nicolau ou São Klaus pode ter sido o início do hábito de dar presentes na Alemanha, não é muito aceita pelos psicólogos. ” Na versão de Walt Disney para Papai Noel, nota-se que ele confecciona brinquedos numa fábrica em que os anões são artesãos e há, naturalmente, um artesão-chefe. Logo, Papai Noel procura ocultar o caráter de produção coletiva da indústria”.

Destarte, neutraliza-se a coisa, repete-se o modelo do Ateliê. Assim como o que aparece é o ateliê de violinos de Stradivarius, não a fábrica de violeiros da Hering. É uma fábrica sem máquinas, em que o artesão constrói o seu brinquedo, uma fábrica do Gepeto que fabrica o Pinóquio. Não é uma fábrica em que esse Gepeto, esse artesão, já não existe mais, ou então ele é um especialista solidário com o controle do empreendimento.

Não encarado mais com um simples artesão, é um planejador que fica fora da produção. Procura-se, segundo os psicólogos, apresentar uma visão inocentadora da realidade, escondendo os pontos que são sensíveis à consciência da criança. Porque seria inacreditável que os presentes de Papai Noel resultassem da exploração dos trabalhos dos anões.

Para os psicólogos, Papai Noel, como se apresenta hoje, é uma constrrução moldada sobre fragmentos de mitos europeus. “Nessa construção encontramos, entre outros, o componente de humanização que é semelhante aos dos desenhos animados. Quer dizer, a figura do Papai Noel é acentuada pelos traços curvos, é engordada como acontece com os bichos”.

Nesse sentido, Papai Noel não é um velho qualquer, é um velho humanizado, feito para ser simpático, como faz Walt Disney com o ratinho e os gatos, de acordo com o seu interesse. Desse modo, Papai Noel é tão inocentado quanto os bichinhos de Disney, pois reflete o mito da inocência, na medida em que é inocentado por uma elaboração industrial e a consequente venda comercial.

Na verdade, Papai Noel só existe como escamoteamento, porque o consumo continua sendo culpado, enquanto ele é o móvel inocentador desse consumo, pois absolve sua culpa. Por outro lado, ele é um dos muitos mitos do poder em sua imagem dadivosa. Por isso, “ele é Papai Noel, um substituto do pai, porque é o pai quem realmente faz. Pai, em escala social, é a instituição. Logo, Papai Noel é uma imagem institucional”, do ponto de vista psicológico.

Na análise psicanalítica, Papai Noel opera como elemento de frustração do superego e de resistência ao consumo. ” Ele frustra o superego do consumidor naquilo que este tem de crítica à gratificação. Quer dizer, o anseio de gratificação pelo presente de Papai Noel e, este presente é uma autogratificação, sobretudo, quando se dá alguma coisa a um filho”.

Trata-se, pois, de um processo de frustração desse superego crítico em relação à motivação do consumo. Frustração que, para a psicanálise, “se apresenta como um segundo representante do pai, e vai fazer uma passagem entre o pai-indivíduo e o pai-Estado. O pai-Estado não no sentido de governo, mas no sentido do conjunto de forças que detêm o poder na sociedade”.

No sentido sócio-econômico, a lenda de que Papai Noel só presenteia os bons meninos não reflete muito nas crianças extremamente pobres, geralmente residentes no interior do país, uma vez que a representação de Papai Noel não penetra com tanta eficácia nessa classe, a ponto de ser sensível. Este tipo de pobre é um elemento que, além de não ser produtivo no sentido econômico, também não consegue ser um consumidor de bens simbólicos.

A criança extremamente pobre tem meios de satisfazer essa necessidade simbólica, segundo os sociólogos, “ela ainda não se aculturou para ter necessidades padronizadas. Ela não precisa de uma televisão; ela não precisa de uma fantasia. Ela é capaz de transformar qualquer coisa noutra como, por exemplo, um pedaço de madeira em brinquedo”.

No Brasil, o incremento da propaganda do mito Papai Noel, a partir de 1930, associa-se à industrialização e ao acréscimo de dependência externa. Vale ressaltar que, na década de 30, em todo o mundo, Papai Noel assumiu a feição que tem hoje, esse caráter bonachão, no quadro de uma crise econômica duradoura, quando foi necessária a intervenção do Estado em todos os setores da economia (política do New Deal reproduzida nos países europeus de diferentes formas).

Sob esse aspecto, Papai Noel é um ser plurinacional, que se monta sobre as realidades nacionais e que adquiriu seu perfil atual, humanizado, numa década de crise econômica, quando havia a necessidade não só de se unificar o Estado como de apresentá-lo simpaticamemnte, positivamente, ou seja, fazer uma passagem do pai ou Estado, visto o Estado de um ângulo mais positivo e intervencionista.

O Brasil, pelo processo de colonização, vinha desenvolvendo várias representações natalinas próprias, que se centravam nas Festas de Reis. Estas festas, apesar dos folguedos de representações religiosas de origem ibérica, eram de realização brasileira, um ritual que variava de região para região. Não havia no país unidade nacional para manter uma só representação. Mas essas festas foram sendo esmagadas em função da sociedade de consumo, surgindo, então, a imagem definitiva e alienígena de Papai Noel, puxando seu trenó em pleno verão tropical.

O Natal (data do nascimento de Jesus Cristo) foi deturpado pelo mito Papai Noel, pois sua importância como instituição comercial na sociedade brasileira, sobretudo no processo de industrialização de bens de consumo, é notável, uma vez que se reflete nos próprios ciclos de emissão de papel-moeda, explicam os economistas. Nesses ciclos há piques:

“O primeiro ocorre entre os meses de maio e julho, e é destinado à indústria de bens; o segundo ocorre entre agosto e setembro, destinando-se ao comércio atacadista de bens; e o último começa em outubro e emenda dezembro, que é o pique do varejo e do financiamento ao consumidor. Mesmo porque uma boa parte dos brasileiros que vive ao nível de subsistência tem como único recurso de compra a gratificação do Natal”.

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