Para a presidente Dilma Rousseff, não foi difícil vencer as resistências dos comandantes das Forças Armadas à indicação de Celso Amorim

Carlos Newton

O diplomata Celso Amorim é um ministro tão prestigiado que assume a Defesa sem ter direito de preencher nenhum dos cargos mais importantes da pasta. Para neutralizar as resistências ao nome do novo ministro, a presidente Dilma Rousseff conseguiu resolver a questão na própria sexta-feira, ao se reunir com os comandantes das Forças Armadas, antes de embarcar para o Nordeste.

Não foi difícil aparar as arestas, por dois motivos: 1) A presidente convidou os três comandantes (Exército, Marinha e Aeronáutica) para que permaneçam no cargo, garantindo-lhes que Celso Amorim só terá direito de nomear os assessores pessoais. 2) Os militares não suportam Amorim por ter levado o Brasil a assinar um tratado da ONU que transforma em nações independentes todas as rservas indígenas existentes no País (cerca de 20% do território nacional), mas existe um compromisso do governo de jamais levar o tratado à obrigatória ratificação do Congresso Nacional, onde, aliás, o documento seria rejeitado. E desde o primeiro governo Lula esse acordo governo/militares vem sendo cumprido.

Como os comandantes militares desfrutam pessoalmente de uma vida mansa e econômica, com todas as despesas pagas pelo poder público, e o salário hoje não é nada desprezível (R$ 26.723,13) e dá para fazer uma bela poupança, não houve problemas para convencê-los. Além do mais, substituir Jobim por Amorim significa apenas trocar seis por meia dúzia. É uma rima rica, como dizem os poetas, mas totalmente pobre de espírito.

Na reunião em que o três comandantes prazerosamente disseram “sim, digam ao povo que ficamos”, a presidente determinou à cúpula militar que todos, inclusive subordinados, ficassem em silêncio sobre a substituição de Jobim, sem qualquer tipo de manifestação da tropa quanto à troca.

A presidente nem precisava ter pedido o que já consta dos rígidos regulamentos das Forças Armadas, inflexíveis em termos de herarquia e disciplina. Justamente por isso, o mais prestigiado militar do país, o general Augusto Heleno, que comandou a tropa brasileira no Haiti e foi chefe do Comando Militar da Amazônia, considerado uma espécie de porta-voz informal do Exército, na mesma sexta-feira, afirmou que a mudança de ministro “não tem impacto nem trauma, porque troca de comando é rotina para nós”.

Traduzindo: nada de novo no front ocidental, ou tudo como dantes no quartel de Abranches. Mas a vida não será tão fácil para o novo ministro da Defesa. Há assuntos nada agradáveis em pauta, como o projeto da chamada Comissão da Verdade. Nessa questão, por coincidência, ele está em comum acordo com os militares.

Amorim chega ao ministério com a missão de manter o acordo com representantes das Forças Armadas para a instalação da Comissão da Verdade. A orientação do Palácio do Planalto é aprovar até o fim deste mês o projeto de lei em tramitação na Câmara sem fazer alterações no texto.

Sabe-se que Amorim foi contrário à revisão da Lei da Anistia enquanto ocupou o cargo de ministro das Relações Exteriores no governo Lula. Há militantes de direitos humanos que creditam ao novo ministro esforços contrários à instalação da Comissão da Verdade e o cumprimento de sentenças internacionais relacionadas ao regime militar.

O Ministério Público Federal e os familiares das vítimas cobram mudanças na redação da proposta, retirando a possibilidade de os militares participarem do grupo que vai apurar os crimes cometidos durante o regime de exceção. Já os integrantes da Força cobram uma atuação mais efetiva no colegiado e que o texto deixe claro que não haverá possibilidade de punição aos torturadores.

Mas seja qual for o resultado da discussão deste imbróglio na Câmara, na verdade Celso Amorim jamais poderá levar o crédito de vencedor nem de perdedor, simplesmente porque sua influência junto aos deputados é nenhuma. O novo ministro vai assistir à votação como mero espectador.

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