Para descansar da política, que tal ler uma crônica da Marina Colasanti?

Resultado de imagem para marina colasanti frasesCarmen Lins

Dentro da vertente aberta pelo poeta, compositor e jornalista Paulo Peres, aproveito para postar a mais conhecida crônica de Marina Colasanti, um texto que considero atual, embora escrito há aproximadamente 30 anos.

Marina Colasanti nasceu em Asmara, na Etiópia, morou 11 anos na Itália e desde então vive no Brasil. Publicou vários livros de contos, crônicas, poemas e histórias infantis. Recebeu o Prêmio Jabuti com “Eu sei mas não devia”. É casada com o escritor e poeta Affonso Romano de Sant’Anna. Esta crônica foi extraída do livro “Eu sei, mas não devia”, Editora Rocco – Rio de Janeiro, 1999.

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EU SEI, MAS NÃO DEVIA
Marina Colasanti

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.

A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez vai pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer, a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.

7 thoughts on “Para descansar da política, que tal ler uma crônica da Marina Colasanti?

  1. Carmen, este texto é dos anos 70, do Jornal do Brasil. E foi por causa dele que eu e meu ex brigamos.

    Voltávamos do passeio a um lugar na Serra, que já não me lembro qual. No carro, eu, marido e um casal de amigos do qual seríamos padrinhos de casamento tempos depois;

    Meu ex parou em algum ponto da descida da serra para comprar cigarros em uma lojinha. Estava frio, bastante frio. Os vidros embaçaram. A tal ponto que abri o porta-luvas pra pegar uma flanela. Peguei um papel branco bem dobrado. Abri. O texto era este, da Marina. Não lembro se havia alguma parte sublinhada. Mas me recordo bem deste trecho: “A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto”.

    Pode ser o trecho que mais mexeu com minha imaginação. Pode não ser. De qualquer modo, fiquei impactada. E quando o marido voltou ao carro, entreguei o papel a ele, que ficou desconcertado.

    Já havia mostrado o papel aos meus amigos no banco de trás.

    E descemos a serra no mais profundo silêncio.
    Ninguém disse palavra. Ah: havia uma assinatura naquele papel, SONIA.

    Não nos falamos naquela noite. No dia seguinte, ao voltar do trabalho, ele me trouxe uma carta fabricada, escrita à máquina, com envelope em que se lia CONFIDENCIAL.

    Continuei muda. E saímos para conversar. Pra onde íamos? Não sei. Ele pegou o caminho pra Tijuca. E foi ali, na Avenida Maracanã, esquina do Ramatis, que ele acelerou para cruzar o sinal, que iria trocar. Não estava vermelho. Mas um SP3 acelerou no cruzamento, não esperou o sinal abrir pra ele. E os dois carros bateram.

    Meu marido sofreu mais. Cortou a cabeça no ferro do… como é que chama?… quebra-luz? Não é este o nome, mas não lembro. A camisa branca ficou cheia de sangue.

    Eu amassei o painel do Corcel novinho com os joelhos. E cortei um pouco a cabeça com o espelho retrovisor superposto ao original.

    Um casal muito gentil nos levou no fusca deles para o Hospital do Andaraí. Onde o marido teve o couro cabeludo costurado, enquanto eu fiz apenas RX e não aceitei tomar nada.

    Meu irmão, que morava na Pracinha Xavier de Brito, foi ao nosso encontro no hospital.

    Só fui ter dor de barriga em casa.

    Meu médico do coração, mais querido Dr. Abel de Paula, que morava no Leme, foi me ver em casa no dia seguinte. Pediu ao meu pai (morávamos no apê ao lado) para comprar vacina de tétano. Cuidadoso como era, pingou uma gota no meu olho para ver se haveria reação. Não houve. Então ele me aplicou a vacina.

    Meu marido estava deitado no quarto e não apareceu na sala. Dr. Abel disse: “Avisa ao seu marido para ter muito cuidado, cortes como o dele costumam causar aneurisma. Ah: ele não ficou com o conserto feito no hospital. Fomos à Clínica Sorocaba, em Botafogo, onde Dr. Tourinho refez o procedimento de sutura.

    Acho que o acidente de carro foi em 1973. Em 1986 ele teve o tal aneurisma.

    Dr. Abel de Paula foi o melhor médico que conheci em minha vida. Não errava uma.
    Não errou nem quando pediu à mulher dele para levar o terno para o hospital onde havia feito cirurgia de vesícula. Diagnosticou uma barbeiragem médica e sabia que morreria. Morreu.

  2. Ofélia, o texto de Marina, trouxe-lhe lembranças entrelaçadas, que não foram esquecidas por você, criatura tão sensível. Foi como um filme que rolou em sua cabeça: o pedaço do papel branco no porta luva, a assinatura, batida dos dois carros, hospital, médicos. Como canta Roberto Carlos: “São coisas que não se esquece/só finge que desconhece/não dá pra esconder verdades/sobre o que ficou” Amo essa canção do Rei.
    “Eu sei, mas não devia” me deixa pensando um bocado. Acho mesmo que a gente se acostuma com as dificuldades, a fim de se adaptar e sobreviver. A própria Marina já diz que a gente não devia se acostumar; entretanto a gente em vez de abrir uma janela para ver uma parede, prefere se mudar para um outro apartamento com vistas para o mar. São tantas as coisas chatas na vida a que a gente vai se acostumando. Felizmente, com os políticos ladrões se elegendo , essa bagunça toda que está ai todos os dias nos envergonhando, que parecíamos acostumados , mas que enfim estamos reagindo.

  3. Não estou lembrando, Carmen, dessa música do Roberto. Eu nem sei mais como se chamam esses tapadores de sol do carro. Não me vem nada à cabeça.

    Estou entristecida, Newton diz para não levar a vida muito a sério. Mas como não levar? A cabeça envelhece mais rápido que o corpo. Se bem que ele dá mostras de cansaço. Às vezes muito cansaço.

    Eu já me acostumei a tantas coisas chatas, Carmen que já nem sei mais quantas. E preciso continuar me acostumando.

    Meu filho pede que eu vá pra SP, mas não quero. Não enquanto eu puder andar, dirigir e reconhecer as pessoas.

    Todo dia encontro alguém conhecido. Pode ser o rapaz que faz chaves, o chaveiro, pode ser o entregador da farmácia ou um(a) vizinho(a).

    Já li que não faz bem mudar para outro canto em casos assim, a gente perde as referências.

    Não entendi isto aqui:
    “…entretanto a gente em vez de abrir uma janela para ver uma parede, prefere se mudar para um outro apartamento com vistas para o mar”. Desculpa, mas não entendi mesmo.
    Abs

    • PS: Os políticos nem usam mais a legenda na propaganda. Só o número. O tal Osório é 45. Só pode ser PSDB.

      Eu me sinto na obrigação de votar, meu pai votou até os 92 anos. Não, até os 91 em outubro. Os 92 eles completou em dezembro.

      Vou precisar de muito esforço pra votar, embora vote perto de casa. O problema é em QUEM?

      Melhor ficar em casa. Meus 70 já me dão esse direito. Nenhum candidato me anima.

      Mas quem sabe até lá?
      Abs

  4. Ofélia, em primeiro lugar, 45 é PSDB. Eu, embora seja dispensada de votar, lia com minha filha que vota na mesma seção, com o fim de rever o bairro aonde morei e ai votava. Mas hoje, nem por um decreto. Fico em casa mesmo. Não me “acostumo mais. Houve um erro “ao abrir a janela”. Quis dizer que em vez de abir a janela e ver sempre a mesma parede, devo perder i esse costume e ir para outro apartamento olhar o mar. Mudar. Ofélia, antigamente, dizia-se que a vida começa aos 40, mas hoje, ela começa aos 60, tenho certeza. Viva a vida! Ela é boa e bela. Falo assim, mas tenho meus momentos tristes e difíceis. Tenho uma amizade que saiu de BH e foi morar na Serra do Cipó! Está encantada com a beleza da Natureza do Parque Nacional, encantada com a simplicidade dos moradores. Agora você entendeu “abrir uma janela para ver uma parede” – acostumar-se à rotina sempre – o que a gente sabe mas não deve fazer. Abs

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