Para-militarismo brasileiro, a tragédia se repete

Bruno Lima Rocha

O convite para o deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL-RJ) sair do país temporariamente, feito pela respeitada Anistia Internacional, é a repetição de um problema que só aumenta de intensidade. Nesta tragédia à brasileira, há onze anos, quando o reformador do aparelho policial fluminense Luiz Eduardo Soares, oficiava de subsecretário de Segurança Pública, entrou em embate direto com a chamada “banda podre das polícias”. Como resultado, perdeu o cargo, e por um período teve de deixar o Brasil em função de ameaças de morte.

Passada uma década, muda o foco do problema. O varejo da rede de quadrilhas do narcotráfico perde espaço no controle territorial do Rio e a “banda podre” se solidifica, sofisticando a corrupção na forma de uma economia informal institucionalizada e operada por “milícias”.

Mais uma vez a arte reproduz a vida. A Operação Guilhotina (fevereiro deste ano), realizada pela PF, cortara parte da cabeça dos chefes de milícias dentro da Polícia Civil do RJ. No olho do furacão contra os suspeitos de chefiar milicianos estava o delegado Cláudio Ferraz, um dos redatores do livro “Elite da Tropa II”.

Agora, a mesma obra que inspirou filmes de José Padilha, atinge mais dois personagens. Como bem explora o PSOL, o personagem “Fraga”, do filme “Tropa de Elite II”, é diretamente inspirado em Marcelo Freixo, e assim como no thriller, pode sofrer um atentado a qualquer momento.

Luiz Eduardo Soares, autor principal dos dois livros, também foi protagonista, mas de outra obra. No livro “Meu casaco de general” (Cia. Das Letras, 2000), o cientista político explica por que teve de exilar-se em plena democracia. O problema ultrapassa divisas estaduais, expandindo o formato de para-militarismo pelo Brasil. Esta tecnologia criminosa em gestão de pessoas expande-se por dentro das bandas podres de carcomidos aparelhos policiais até agora intocados por governos dos estados.

Novamente o Rio de Janeiro “inova”. Na década de 80 do século passado, a Scuderie Le Cocq, o Esquadrão da Morte abrangia além do Rio, também Minas Gerais e Espírito Santo. Em terras capixabas o modelo obteve sucesso, acarretando uma quase intervenção federal no ano de 2002. O caso seria de falência múltipla dos órgãos de Estado, e a “solução” foi paliativa.

O fenômeno das milícias é mais grave do que parece. A tendência é termos uma mescla de modelos semelhantes, como as Autodefesas Unidas de Colômbia entreverada com a máfia policial-partidária da Polícia da Província de Buenos Aires. É hora de enfrentar essa chaga.

Bruno Lima Rocha é cientista político(www.estrategiaeanalise.com.br/ blimarocha@gmail.com)

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