Pastor Feliciano faz lembrar o bispo Cauchon, que condenou Joana D’Arc.

Paulo Solon

Esse pastor-deputado Marco Feliciano faz lembrar aquele Pierre Cauchon, que presidiu o processo contra Joana D’Arc.

Ninguém sabe como esse Feliciano virou pastor, até porque hoje em dia qualquer um vira pastor. Cauchon, no entanto, foi aquele entreguista francês que participou das negociações sobre o Tratado de Troyes em 1420, garantindo a Henrique V da Inglaterra, o eventual título de Rei da França. Como recompensa, Cauchon foi contemplado com uma lucrativa cadeira de bispo. Um excelente bispado para iluminar e preencher seu angustiante e tedioso vazio.

Pronto, tal como Feliciano está hoje, Cauchon ficou moral e eticamente habilitado para julgar, os outros, claro. Imaginem se Joana D’Arc fosse de sexo intermediário, já que, pelo simples fato de usar roupas masculinas, Cauchon e seus frades comandados cheios de “odium theologicum”, tal como nosso Feliciano, mandaram Joana para fogueira.

Vejam apenas o sumário do que consta do processo referente à Paixão de Joana D’Arc, arquivado na biblioteca da Câmara dos Deputados em Paris.

Declara Joana dizer a verdade, sob aterradora pressão:

— “Je jure de dire la verité, toute la verité… rien que la verité… En France, on m’appelle Jeanne… Dans mon village, on m’appelait Jeannette ” (na França me chamam de Jeanne… na minha cidade me chamam de Jeannette).

— “Quel âge avez-vous?” (Qual a sua idade?).

— “Dix-neuf ans…à ce qu`il me semble” (Dezenove anos, me parece).

— “Savez-vous votre Pater?” (Sabe rezar o Padre Nosso?). — “Qui vous l’a appris?” (Quem ensinou a você?).

— “… ma mère” (minha mãe).

— “Voulez-vous réciter le Pater?” (Pode recitá-lo?).

Mas ela não conseguiu, debulhada em lágrimas.

— “Vous prétendez être envoyée par Dieu?” (Você se considera enviada por Deus?).

¬— “Oui…pour sauver la France…” (Sim, para salvar a França) “… c’est pour cela que je suis née” (foi para isso que nasci).

Os frades sorriem de gozo, de humores mórbidos, e tísica iminente, cochichando uns com os outros. “Para facilitar e não cansar o leitor, a partir de agora, vai ser tudo em português.)

— Você pensa que Deus odeia os ingleses?

— Do amor ou do ódio que Deus tem pelos ingleses, eu nada sei,mas bem sei que os ingleses serão expulsos da França, com exceção dos que morrerem.

Joana, de maneira destemida, consegue irritar os entreguistas que fazem propaganda dos ingleses invasores

— Você disse que São Miguel apareceu para você… ( pergunta de Cauchon ) Como é que ele estava? ele tinha asas? Usava coroa? Como estava vestido?

Joana cerra os olhos e não responde!

— Como você pode saber se era um homem ou uma mulher? Ele estava nu? Que insinuação pervertida!

Joana responde de modo desafiador.

— Vocês pensam que Deus não tinha como lhe vestir?

Os juízes ficam desconcertados, deixando de lado sua libertinagem.

— Ele tinha cabelos compridos?

Joana nega.

— Por que ele os cortou?

— Por que você usa roupas masculinas?
— Se dermos a você uma roupa feminina, você a usará?

Joana responde:

— Quando a missão que Deus me deu estiver cumprida, usarei roupa de mulher.

— Então foi Deus que ordenou que você usasse esta roupa masculina?

Joana confirma e todos debocham.

— E qual a recompensa que você espera obter de Nosso Senhor?

Joana entra em delírio e responde:

— A Salvação de minha Alma.

Desnecessário é enfatizar a maldade da pergunta. Todos obedecem a Deus, amam por amor? Não. Para serem recompensados.

Declara Cauchon:

—Devemos deixar que os juízes decidam isto? Quer que ponhamos esta questão sob voto?

Um frade declara:

— Você blasfema Deus.

Os frades ficaram trêmulos e logo perderam o controle. Segue-se uma enxurrada de repreensões de frades suarentos e ensandecidos, cuspindo no rosto de Joana. O julgamento é interrompido e Joana é conduzida a sala de torturas. Lá estavam, entre outros instrumentos, o cavalete e a roda.

Os frades declaram:

— Sabemos que suas declarações não vem de Deus, mas de Asmodeu e de Isacaaron.

Sangram Joana e extraem parte de seu sangue em uma caçarola.

Joana é então relaxada ao braço leigo do Tribunal do Santo Ofício. É conduzida para ser queimada viva em praça pública. Um verdadeiro espetáculo circense, com acrobatas, contorcionistas, prestidigitadores e vendedores de guloseimas.

Queriam prolongar o espetáculo ao máximo possível, mas no fundo tinham o receio de que Arcanjo Miguel viesse libertar sua protegida, arruinando aquele espetáculo público.
Mas o povo ficou paralisado, silencioso e espantado pelo fato de Joana ter permanecido altiva, sem um grito ou gemido sequer.

Imediatamente o populacho se revoltou, rompendo as correntes de isolamento, avançando furiosamente contra os guardas e arcabuzeiros, mesmo sendo por estes espancado com corrente e bola dentada,e atingido por lanças. Gritavam, “vocês queimaram uma santa!”. E apedrejaram a guarda e as vidraças do palácio, colocando os armeiros e arcabuzeiros em tresloucada fuga.

Conversando com uma amiga minha americana sobre este assunto, achei muita graça dela dizer que anjos nunca vão aos Estados Unidos. Cheguei também a conclusão que não gostam muito de voar para o Brasil. Gostam muito da Europa, a julgar pelos anjoletes nos tetos das igrejas.

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