Paulo Affonso, uma cachoeira política

Sebastião Nery

“Decretado o AI-5, a superditadura dentro da ditadura, em 13 de dezembro de 68, o Congresso foi posto em recesso até 22 de outubro de 69, quando foi reaberto para fingir que ia eleger Presidente o general Médici. Logo depois, o deputado Dias Meneses, do MDB de São Paulo, foi recebido em audiência pelo coronel Paiva Chaves, da Assessoria Parlamentar do Exército, que funcionava no Anexo I da Câmara dos Deputados.

Em dado momento, o deputado ouviu uma voz que saia de baixo da mesa do coronel, advertindo que a fita estava acabando e era necessário trocá-la. Meneses fingiu que não ouviu, o coronel também. O deputado despediu-se do coronel e nunca mais voltou à assessoria parlamentar do Exercito. Dias Meneses nunca soube se o agachado era gente ou fantasma”.

CASTELO E AURO

Outra historia exemplar, daqueles tempos nada exemplares. “Em 7 de novembro de 66, Castelo Branco baixou o Ato Institucional nº 4, convocando extraordinariamente o Congresso para, no período de 2 de dezembro de 66 a 24 de janeiro de 67, votar o projeto de Constituição que estava enviando, elaborado pela Comissão Especial de Juristas, por ele criada, composta pelo jurisconsulto Levy Carneiro (presidente), ministros Orosimbo Nonato e Seabra Fagundes e o professor Temistocles Brandão Cavalcanti?.

O AI nº 4 previa a aprovação tácita da proposta original, com as emendas que fossem aprovadas, se não se concluísse a aprovação até o dia 24 de janeiro de 66.A matéria entrou em Ordem do Dia no Congresso exatamente nesse dia. A discussão e votação prolongaram-se por longo tempo, ficando evidente que o projeto constitucional não seria aprovado no prazo previsto. Diante disso, o senador Auro de Moura Andrade, que presidia a sessão, chamou-me para determinar que os três relógios existentes à época no plenário fossem paralisados. Estranhei seu procedimento, mas ele insistiu na determinação. Comuniquei o fato ao diretor-geral Luciano Brandão. Muitos parlamentares perceberam que os relógios estavam paralisados pouco antes da meia noite e começaram a protestar. Auro de Moura Andrade não tomou conhecimento. Decorridas mais de duas horas, até que fosse completado o processo de votação e redação final, Moura Andrade chamou-me para determinar que os relógios voltassem a funcionar. Ponderei-lhe que haveria necessidade de acertá-los das 23,50 para as 2 horas da madrugada, o que estarreceria mais ainda o plenário. Auto concordou e encerrou a sessão”.

TARCISIO HOLANDA

Essas historias, e tantas outras, imperdíveis, estão no livro oportuno, didático, indispensável nestes dias em que o governo do PT jogou novamente a Câmara no fundo do poço: “O Congresso em Meio Século” (Ed. Plenarium, da Câmara dos Deputados), um depoimento, ao veterano e consagrado jornalista Tarcisio Holanda, do saudoso Paulo Affonso Martins de Oliveira, Secretario-Geral da Câmara dos Deputados por 23 anos, que morreu este ano.

Funcionário da Câmara por 50 anos, desde a Constituinte de 46, depois ministro do Tribunal de Contas, secretario-executivo do ministério da Justiça, foi testemunha privilegiada de meio século da turbulenta vida nacional, entre 45 e 2005. E conta como uma cachoeira política, com sua ética de confidente. São 250 paginas que se lêem como novela.

Tranquilo, seguro, honrado, culto, jurista, Paulo Affonso analisa acontecimentos e pessoas com sua permanente integridade. Falando, contando fatos, vai traçando perfis precisos de Getulio Vargas, Juscelino Kubitscheck, Jânio Quadros, João Goulart, Castelo Branco, Costa e Silva, Tancredo Neves, Ulysses Guimarães, Bilac Pinto, Adauto Lucio Cardoso, José Bonifácio, Flavio Marcilio, outros. Há livros que não adianta comentar, porque não basta. Tão rico em fatos, retratos, historias e relembranças, o livro de Paulo Affonso e Tarcisio Holanda é uma preciosidade. Para ler, aprender, ajudar a entender o Brasil.

OMBUDSMAN

Relembrando tantos fatos, datas e gente, é impossível não haver pequenos equívocos, desimportantes, mas a serem corrigidos na reedição.

Pág. 25 (“A Carta de 46”) : – “Os jornais anunciavam previamente o dia e o horario em que determinados oradores ocupariam a tribuna. Os que despertavam maior interesse eram os irmãos João e Otavio Mangabeira, Hermes Lima, Afonso Arinos, Aliomar Baleeiro, Gustavo Capanema, Nereu Ramos, Nestor Duarte e Carlos Lacerda”. Lacerda não foi constituinte de 46, não poderia falar lá. Cobriu como jornalista para o Correio da Manhã. Em 47, foi eleito vereador do Distrito Federal pela UDN. Só em 54 se elegeu deputado federal.

OMBUDSMAN 2

Pág. 32 (“A Constituinte e a Imprensa”): – “Lembro-me de muitos deles, como Joel Silveira, Espiridião Esper, Carlos Castelo Branco, o Castelinho, Octacílio Lopes, o Cara de Onça, Benedito Coutinho, Vilas Boas Correa, José Wamberto, Danton Jobim, os irmãos Pedro e Paulo Mota Lima e Helio Fernandes. Carlos Chagas era dos mais jovens? Carlos Chagas, nascido em 37, com 10 anos ainda não podia estar na Constituinte. Só começou no jornalismo em 57, com 20 anos, no Globo.

 

This entry was posted in Sem categoria. Bookmark the permalink.

3 thoughts on “Paulo Affonso, uma cachoeira política

  1. Depois de umas férias mais ou menos prolongadas, saúdo o retorno do experiente Jornalista Sebastião Nery. É sempre um prazer ler os seus textos. Para quem gosta de acompanhar a História Política recente, deve ser “um prato cheio”, o Livro depoimento de Paulo Affonso Martins de Oliveira, referente ao período que vai de 1945 – 2005.

    Lembremos de passar na CEF/Lotérica/Itaú e pagar Mensalidade R$ 20/10 ou mesmo 5, para mantermos nosso bom “Tribuna da Imprensa onLine”. Muito Obrigado.

  2. Jornalista : Perdão mas ficou uma dúvida. O senhor disse que Lacerda foi eleito pela UDN vereador pela Guanabara em 1947 ! ! Fica a pergunta : guanabara em 1947 ?

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *