Pé na porta, faca no pescoço

João Gualberto Jr.

O que mais coloca grilo em um parlamentar? A expectativa de não ser reeleito. E o que leva a essa funesta expectativa? Uma crise de imagem, seja individual ou coletiva. Difícil crer, portanto, que a “absolvição” de Natan Donadon pelo plenário da Câmara, na semana passada, tenha tido todos os riscos calculados. Melhor supor que os colegas que se abstiveram naquela triste noite e os outros que se compadeceram da condição do preso sentenciado apenas gostariam de dar o recado deles. O resultado saiu pior do que a encomenda.

Fazia só 60 dias que o Congresso andava cercado por milhares de manifestantes, o terror no rosto dos vigilantes, e os deputados se prestam a um papel daqueles! Manter o mandato de um cidadão preso em regime fechado! É caso do mais completo absurdo jurídico. Donadon está na impossibilidade de exercer o mandato porque não pode ir à Câmara, ora. Nonsense à brasileira: “Vossa Excelência pode se recolher na carceragem por favor?”

Constata-se que as excelências que ainda gozam do direito de ir e vir só funcionam bem com o pé na porta e a faca no pescoço. Elas têm um prisma especial pelo qual enxergam e se relacionam com a realidade porque são especiais. Multidões na cola dos parlamentares atraem o constrangimento de câmeras, holofotes e, a partir deles, mais “hordas de cidadãos”.

O preocupante é o marasmo, é o aparente bom andamento das Casas, a quase certeza de cassação de um condenado pelo Supremo. O que nasce desses momentos? Surpresas desabonadoras para o Legislativo, para a democracia e para o país. Sobre moleques, a vigília deve ser constante para se evitarem molecagens. Ah, nossos representantes são incansáveis.

REFORMA POLÍTICA???

O tema da vez, desde os protestos de junho, é a reforma política, clamor dos mais audíveis nas ruas. Trata-se de um cipoal complexo, difícil até de se avaliar? Sim. Logo, é compreensível estar em discussão há duas décadas, quase sem sair do lugar? Sim, mas falta vontade também.

Não resta mais dúvida de que qualquer medida a ser tomada para conferir mais moralização à prática política não é espontaneamente desejada pela maioria. Se não fosse um projeto popular com 1,5 milhão de assinaturas, sairia a Lei da Ficha Limpa? Claro que não. Da mesma forma, se não tiver pressão, não teremos nem reforma, nem emenda, nem nada.

O grupo de trabalho da Câmara que se debruça (tomara) sobre o tema já sentenciou que não vislumbra mudança para valer no ano que vem. E assim a banda toca. Vamos esperar o sábado: no 7 de Setembro, o grito não vai ser só dos excluídos, mas de milhões de insatisfeitos.

Mas tem um senão: se a reforma política só sai com o pé na porta, é imprescindível o mínimo de conhecimento. As propostas requerem entendimento, parcimônia e muita discussão mesmo. A combinação da vontade com ciência seria imbatível. (transcrito de O Tempo)

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2 thoughts on “Pé na porta, faca no pescoço

  1. Pior é que estão ameaçando a população tentando diminuir as manifestações do dia 7 de setembro. Brazil com Z, executivo, legislativo e judiciário falidos, terra de putas e de ladrões. Todo mundo trolando todo mundo. Salve-se quem puder. Para tristeza do querido Helio Fernandes

  2. O velho poder estabelecido esta tremendo frente ao horizonte de protestos nacionais esperados para 07 de setembro. Poderá ser verdadeiramente o dia da independência.

    Esses que, como exposto pelo Mestre Hélio, fazem de tudo para manter a roubalheira vigente são os mesmos que vendem nossas empresas e patrimônio a preços de Banana, carregando a bandeira do progresso como estandarte.

    Alguém viu as manchetes do G1 hoje? Quase todas estão voltadas para “atacar” nossos irmão latino-americanos. Ainda existe alguém que acredite que não existem interesses maiores por detrás delas?

    A América do Sul não pode se unir! É isso que pensam nossos eternos exploradores. Temos que continuar na mão de uma elite suja que lucra entregando os recursos do país para grandes multinacionais.

    Vamos deixar que isso aconteça eternamente?

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