“Pedido de desculpas” da Odebrecht está envolto numa desfaçatez inaceitável

Resultado de imagem para odebrecht pede desculpasJorge Béja

A nota de duas páginas “Desculpe, a Odebrecht errou”, que a empresa estampa hoje nos jornais, é uma lástima. A nota é dirigida a quem? A pergunta faz sentido, porque a nota não tem destinatário. E acima deste título está escrito “Expressão de Opinião”, o que estraga e desmerece ainda mais a nota. É mera “Expressão de Opinião”, e não um Ato de Contrição. E a primeira frase desta nota sem destinatário contém uma mentira que não tem mais tamanho. Uma mentira tão gigantesca quanto o tamanho da empresa e o estrago que ela cometeu por causa da corrupção.

Começa assim: “A Odebrecht reconhece que participou de práticas impróprias em sua atividade empresarial”. E desde quando crimes reiterados contra o erário nacional, contra o dinheiro do povo brasileiro, contra a Nação Brasileira podem ser etiquetados como “práticas impróprias”? Ou seja, a empresa demonstra querer abrandar o que não pode ser abrandado. Tornar leve, suave e suportável o que é monstruosamente pesado e insuportável.

PRESSÕES EXTERNAS? – E prossegue: “Não importa se cedemos a pressões externas, tampouco se há vícios que precisam ser combatidos ou corrigidos no relacionamento entre empresas privadas e o setor público”.

Importa, sim. E como importa! Ou vocês da Odebrecht acham que o povo não sabe o que é cidadania, que o povo brasileiro detesta a desonestidade, sabe o que é decência e não aceita a corrupção?. E mais: “Vícios”? Quer dizer então que os crimes que a empresa e seus dirigentes cometeram contra o povo foram meros “vícios”? Vício é prática repetida de mau hábito. É conduta imprópria.

É de se reconhecer que os senhores usaram um substantivo suave para se referir aos hediondos crimes de lesa-pátria que cometeram, sejam como corruptores e/ou corrompidos ou as duas coisas juntas.

AGRESSÃO A VALORES – “Foi um grande erro, uma violação dos nossos princípios, uma agressão a valores consagrados de honestidade e ética. Não admitiremos que isso se repita”.

Que saiba esta empresa, que apesar de sua inegável tradição e dos relevantes serviços prestados, os crimes cometidos jamais poderiam ter ocorrido, no passado, no presente e no futuro. Logo, prometer que daqui para frente os crimes não mais se repetirão não é uma virtude, mas comezinho dever no relacionamento da empresa com o setor público, relacionamento que a empresa desprezou e deu no que deu.

E essa frase “Por isso, a Odebrecht pede desculpas, inclusive por não ter tomado antes esta iniciativa” não externa arrependimento. Muito menos arrependimento eficaz. O pedido era para ser de perdão. Pedir desculpas é muito pouco. Desculpas se pede quando alguém, sem querer esbarra na outra pessoa, na rua, no ônibus, quando dá um encontrão no outro… Para se redimir da reiterada prática de atos criminosos contra o povo, o mínimo que se espera é pedir perdão. Pedir perdão por toda a vida. E pedido de perdão tendo o povo brasileiro como destinatário.

VÁRIAS LIÇÕES – E acrescenta a nota: “A Odebreccht aprendeu várias lições com os seus erros. E está evoluindo. Estamos comprometidos, por convicção, a virar essa página”.

Se vê que do início ao fim a empresa rotula os crimes que cometeu como meros “erros”. E garante que está evoluindo, que está comprometida, por convicção a “virar essa página”. Não, senhores, não foram “erros”, mas crimes hediondos. E nem era preciso dizer que está evoluindo… que está comprometida, por convicção, a virar essa página. São garantias que não precisam ser prometidas.

E aqueles 10 compromissos que os senhores assumem no verso da página da nota nem precisavam estar escritas. “Não tolerar a corrupção”, “dizer não à desonestidade”… e os demais compromissos deveriam ter sido sempre rotineiramente praticados. É obrigatório. É civilidade. É ordem. É da lei. É da moral.

Por fim, o pior da nota: “A sociedade quer elevar a qualidade das relações entre o poder público e as empresas privadas”. Que barbaridade afirmar isso! Deixa a impressão que nós, a sociedade, o povo brasileiro, é que baixamos a qualidade das relações, quando, na verdade, quem as tornaram promíscuas e imundas foram os senhores e os administradores públicos. Não fomos nós, o povo brasileiro.

6 thoughts on ““Pedido de desculpas” da Odebrecht está envolto numa desfaçatez inaceitável

  1. Triste um empreendimento do porte da Odebrecht ter se tornado letras garrafais das manchetes policiais. É óbvio que a empresa vai falir, já não o fez pelo gigantismo de sua estrutura, mas a longo prazo a Odebrecht não se sustenta. É lamentável. Tanta riqueza, tanta eficiência jogada no lixo. O preço da Lava Jato será o preço da Odebrecht. Os políticos vão se safar, voltarão pras seus domínios nos cafundós do Judas deste imenso país. É claro que a família Odebrecht continuará rica. Mas sem dúvida perderemos a referência de uma das maiores fontes de riqueza que já tivemos. Não é, porém, o primeiro caso. Este conluio Estado brasileiro -empresário já deu noutros semelhantes: Barão de Mauá, por exemplo. O Brasil parece não ter vocação pra ser uma Koreia, onde empresas grandes têm íntima relação com o Estado. Aqui o empresário ou é usado pelo Estado ou se obriga a montar no Estado. Em todo caso o empresário vai perder. Mais cedo ou mais tarde o grande empresário brasileiro é humilhado. É muito cômodo criticar a postura da Odebrecht, mas alguém em sã consciência achava que os negócios da empresa quando estava no auge de produção nacional não eram sob pressão política? O político brasileiro se aproveita da vontade do empresário em crescer e se monta nas costas dele. Sabe, uma relação de parasitismo. O empresário a vítima, carrega o político nas costas e depois é picado nas costas e sucumbe. O político acaba levando a vantagem, afinal ele faz a Lei. O empresário apenas paga o pato. Não é querer justificar os erros da Odebrecht não, mas é que a ideia que se tem passado é que o grande mal é o empresário corruptor, o empresário sonegador, o empresário ambicioso que faz de tudo pra ganhar dinheiro, mas quem não faz? O empresário brasileiro mais uma vez é lesado, o empresário brasileiro que tanto contribuiu mais uma vez terá seu legado nas fichas policiais. Assustador isso tudo. O maior erro da família Odebrecht é não ter ido embora desse país há uns vinte anos, quando já estavam milionários. Ficar aqui deu nisso. Brasil não merece os filhos que tem.

    • Muito bem ponderada sua observação, Francisco Menezes. Mas essa grandiosa empresa tinha o dever de resistir, de não se envolver em corrupção, custasse o que custasse. A dignidade de uma pessoa, de uma empresa, não tem preço. A Justiça do Brasil concede reparação por dano moral às pessoas jurídicas. Logo, sua reputação tem preço, tem valor econômico. E quando foi posta à prova por corruptores, cedeu. Com isso, é co-partícipe da corrupção.

  2. Tanto o Dr. Béja quanto os comentaristas supra expuseram considerações pertinentes.

    A título meramente colaborativo, longe de esgotar o tema, constata-se que um dos aspectos mais perversos da nossa situação está no “aproach” dado aos criminosos, segundo seu “perfil” sócio-econômico.

    Àqueles envolvidos na “simbiose político-empresário” são garantidos a vedação à tortura e ao tratamento desumano/degradante; a observância do juízo natural; o respeito à reserva legal; ao contraditório e à ampla defesa (CB, art. 5º, III, XXXVII, XXXIX e LV, respectivamente), entre outros direitos fundamentais. Ao cabo, podem gozar plenamento dos frutos decorrentes de ilícitos, sem a devida compensação sistêmica.

    Enquanto isso, aos criminosos “comuns” aplica-se um Sistema de Justiça cujos cárceres são preteridos à morte, nas palavras de um Ex-Ministro da pasta…

    Outro triste recorte da nossa realidade.

    Que república (Helio Fernandes).

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