Pelo jeito, pior não fica

Carlos Chagas

Nos idos de 1978, com a candidatura João Figueiredo na rua, imposta pelo então presidente Ernesto Geisel, a oposição resolveu lançar um candidato militar alternativo, o general Euler Bentes Monteiro. Claro que não havia a menor chance de o candidato oficial perder a eleição no Colégio Eleitoral, mas Paulo Brossard produziu um dos mais profundos diagnósticos político-filosóficos da época: “O imprevisto é um Deus avulso que às vezes tem voto decisivo na assembléia dos acontecimentos”.

Vale adaptar o pensamento do ex-senador gaúcho à atualidade. O Partido Republicano confirmou ontem a chantagem explícita desenvolvida contra a presidente Dilma Rousseff: ou ela aceita a indicação de um de seus parlamentares para ministro dos Transportes ou lançarão o Tiririca como candidato à prefeitura de São Paulo.

É o imprevisto, sem tirar nem pôr, que dessa vez poderá ser decisivo na tertúlia travada por tucanos e companheiros pela cadeira de Gilberto Kassab. Porque votos, o Tiririca tem, e muitos. A candidatura dele prejudicaria sensivelmente Fernando Haddad, muito mais do que José Serra.
Mas passando o ex-governador e o deputado mais votado do país para o segundo turno, em quem o PT carregaria sua frustração? Sendo assim, o imprevisto tem nome e endereço. O que salta aos olhos é a desfaçatez com que o PR opera seu fisiologismo.

Acontecerá o que, caso a presidente Dilma ceda à pressão, hipótese ontem na pauta até porque mandou chamar o atual ministro, Paulo Passos, para uma conversa reservada? De um lado, a confirmação de que o governo federal é mesmo um balcão de negócios. De outro, mais uma oportunidade perdida para a presidente Dilma afirmar-se e botar para correr as quadrilhas que se apoderaram da base parlamentar aliada.

Para demonstrar que a moda costuma pegar, quem também pressiona o governo é o PDT, da mesma forma aproveitando-se das eleições paulistanas. Carlos Lupi encontrou-se com o governador Geraldo Alckmin, abrindo a hipótese de seu partido apoiar José Serra. Parece óbvio que se for nomeado ministro do Trabalho alguém indicado pelo presidente do partido, ficará o dito pelo não dito, com o PDT apoiando Fernando Haddad, do PT.

Convenhamos, a política habita um de seus patamares mais baixos. Pelo jeito, pior não fica…

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TEMPERATURA EM ELEVAÇÃO

Elevou a temperatura militar o manifesto assinado por 98 militares da reserva, entre eles 13 generais. Pelos regulamentos castrenses, eles estão proibidos de manifestar-se politicamente, em especial se for contra as autoridades. Devem ter meditado muito para comprometer-se, já que poderão ser punidos, até mesmo com prisão. Os signatários reabriram a questão iniciada pelos presidentes dos Clubes Militar, da Aeronáutica e da Marinha, que haviam protestado eletronicamente contra declarações das ministras dos Direitos Humanos e das Mulheres, favoráveis à Comissão da Verdade e à hipótese de revisão da Lei da Anistia, para a responsabilização judicial de agentes do estado envolvidos em crimes de tortura, durante o regime militar.

Dilma Rousseff exigiu do ministro da Defesa a retirada do site onde protestavam os presidentes dos clubes. Acionados, os três comandantes das forças cumpriram a determinação. Vem agora um grupo de oficiais da reserva e reitera os termos do primeiro manifesto, criticando a presidente da República e acusando as ministras de revanchismo. Citam até “o beneplácito inaceitável do atual governo”.

Estão, os signatários desse novo texto, desconfiados de que a Lei da Anistia poderá ser revogada no Congresso, permitindo a reabertura de velhas feridas. Alertam, inclusive, para o fato de estar o Brasil seguindo na mesma linha de outros países da América Latina, que depois de livres de regimes militares e apesar de leis de anistia, deram o dito pelo não dito e passaram a processar e punir antigos responsáveis por crimes de tortura. Aconteceria o mesmo entre nós?

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CONGRESSO PODE SER ULTRAPASSADO

Nos corredores do Tribunal Superior Eleitoral começa a circular a mesma conversa de anteriores anos eleitorais: já que o Congresso não resolve, deixando de votar mudanças e reformas necessárias ao bom andamento das eleições, o remédio é a Justiça Eleitoral preencher o vazio e estabelecer as normas tidas como imprescindíveis.

Por exemplo: se deputados e senadores vem empurrando com a barriga a proposta do financiamento público das campanhas, caberia ao TSE dispor sobre a questão. Pelo menos para limitar as contribuições particulares dadas aos candidatos. Por que não estabelecer regras mais rígidas para a cassação dos registros de quem for flagrado em ilícitos? Depois vem as queixas e reclamações a respeito da interferência da Justiça Eleitoral em temas da competência do Legislativo, mas como em política não há espaços vazios…

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UM EXEMPLO A SER SEGUIDO?

Em 1960 o major Ney Braga era candidato ao governo do Paraná. Sucederia a Moisés Lupion, de péssima imagem local e nacional, tido como esbanjador de recursos públicos, para dizer o mínimo. Sentindo que seria eleito, Ney começou a praticar um crime, nos palanques: exortava empresários e cidadãos em geral a não pagarem os impostos devidos, porque o dinheiro iria para os cofres e até para o bolso do governador. E prometia ampla anistia fiscal assim que empossado. Foi o que aconteceu.

Guardadas as proporções, e com todo o respeito, mas bem que o exemplo do Paraná podia pegar em Brasília. Pagamos religiosamente os impostos, mas a todo momento falta energia, bairros inteiros carecem de saneamento, o trânsito virou um caos, a segurança pública é uma lástima, os transportes coletivos andam sucateados e o desemprego reúne multidões de camelôs e de pedintes em torno dos semáforos. Será para isso que pagamos impostos?

Melhor seria não pagar, mas o problema é que eleições, aqui, só em 2014…

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