Pense bem sobre o futuro da China. Muita gente acha que o gigantesco país será o paraíso na Terra. Mas há controvérsias.


Carlos Newton

Fez sucesso aqui no blog o artigo de Luciano Pires sobre o crescimento industrial da China, que ameaça dominar o mundo com seus manufaturados e até já estaria provocando uma desindustrialização em muitos países, desenvolvidos ou não, por falta de competitividade de seus produtos.

Mas há controvérsias, como costumava dizer o irascível personagem Quaresma, interpretado por Francisco Milani em programas humorísticos de TV. Basta conferir o que o próprio Luciano Pires assinalou, em seu brilhante texto aqui postado:

Alguns conhecidos voltaram da China impressionados. Um determinado produto que o Brasil fabrica em um milhão de unidades, uma só fábrica chinesa produz quarenta milhões… A qualidade já é equivalente. E a velocidade de reação é impressionante.

Horas extraordinárias? Na China…? Esqueça !!! O pessoal por lá é tão agradecido por ter um emprego que trabalha horas extras sabendo que não vão receber nada por isso…..”
 
Os chineses colocam qualquer produto no mercado em questão de semanas… Com preços que são uma fração dos praticados aqui. Uma das fábricas está de mudança para o interior, pois os salários da região onde está instalada estão altos demais: 100 dólares.

Um operário brasileiro equivalente ganha 300 dólares no mínimo que acrescidos de impostos e benefícios representam quase 600 dólares. Quando comparados com os 100 dólares dos chineses, que recebem praticamente zero benefícios…. estamos perante uma escravatura amarela e alimentando-a.”

As controvérsias surgem, porque o futuro da China ainda é incerto e só está escrito nas estrelas. Na verdade, os pressupostos que existem de vantagem industrial para os produtos chineses tende a desaparecer no futuro, que pode ser próximo ou remoto, mas acontecerá inexoravelmente.

O principal pressuposto é que a industrialização chinesa se deu a partir da abertura concedida pelo governo às multinacionais, para que instalassem livremente no país fábricas ainda eficientes, mas altamente poluidoras, que paulatinamente foram sendo proibidas nos países desenvolvidos e até em nações emergentes, como o próprio Brasil. Por isso, a China se tornou o país mais poluido do mundo.

Há cidades praticamente inabitáveis, o famoso Rio Amarelo mudou de cor, mercê dos dejetos das fábricas. Para realizar a Olimpíada, por exemplo, o governo mandou suspender com antencedência a operação de todas as indústrias poluidoras instaladas nos arredores da capital. O governo já admite oficialmente que a cada ano morrem cerca de 400 mil pessoas, vítimas da poluição. E quando um governo autoritário e fechado como o chinês reconhece tais assustadores números, o bom-senso manda que o multipliquemos por 10 ou 20, chegando a inacreditáveis 8 milhões de mortos por ano. E isso tem de acabar.

O segundo pressuposto é a mão de obra semi-escrava, como o próprio Luciano Pires acentua, ao relatar que uma das fábricas está de mudança para o interior, porque os salários locais já estão altos demais: 100 dólares mensais. E com o progressivo esclarecimento do povo chinês, que passo a passo passará a exigir direitos trabalhistas já existentes nos países desenvolvidos e em desenvolvimento, essa semi-escravidão também tende a acabar, elevando os custos de produção.

E há um terceiro pressuposto, também da maior importância, a ser levado em consideração. O extraordinário progresso da China se dá em função do regime político-administrativo, totalmente anacrônico e ditatorial, mantido a manu militari, como diziam os romanos.

O país não poderá permanecer eternamente como uma ciclópica ditadura. E quando houver a tão ansiada democratização, seus efeitos serão devastadores. O principal deles será a síndrome soviética. Da mesma forma como ocorreu na antiga URSS, também a China tende a se dividir em grande número de países independentes, que falam linguas diferentes, têm tradições, religiões e costumes totalmente desiguais, e o pior é que algumas das atuais provincias são historicamente  inimigas entre si, seus povos se odeiam, esta é a realidade.

Diante dessas circunstâncias que não podem ser contestadas, é ilusão achar que a China tende a se tornar o paraíso na terra. Muito pelo contrário. O gigantesco país tem um encontro marcado com a modernização ea democracia, mas pagará um altíssimo preço quando a ditadura for sepultada. Quem viver, verá.

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