Perdeu, Sar-Nem

Sebastião Nery

Em 1963, o presidente João Goulart imaginou esfriar o caldeirão da oposição chamando um udenista para seu ministério. Convidou José Sarney, deputado federal do grupo Bossa Nova da UDN.

Uma noite, em Brasília, quatro jovens políticos tomaram um automóvel preto em frente ao Hotel Nacional e seguiram para o Palácio da Alvorada: Petrônio Portela, governador do Piauí, Seixas Dória, governador de Sergipe, José Aparecido, deputado federal e secretário do governo de Magalhães Pinto em Minas, e José Sarney, deputado federal do Maranhão.

Cada um deles era líder da UDN em seu Estado. Iam para o acerto final com Jango devidamente autorizados por toda a Bossa Nova.

 ***
JANGO

Quando o carro se aproximava do Alvorada, Sarney, nervoso, planejou a conversa:

– Petrônio, como o escolhido, acho que não devo falar. Você, que é o mais velho, falará por nós quatro.

– Nada disso, Sarney. Nossa missão é levar ao Presidente o pensamento do grupo todo. O Jango não vê em mim um udenista. Ele sabe que eu sou um esquerdista. Se eu falar, ele vai ver, em minhas palavras, não a posição da Bossa Nova da UDN, mas o ponto de vista das esquerdas. Quem deve falar é o Seixas ou o Aparecido, os únicos realmente udenistas.

O automóvel preto parou, Jango esperava os quatro, Seixas Dória deu o recado, Sarney foi dormir ministro convidado e aceito.

 ***
VITORINO

Sarney ia ser ministro de Jango, representando a Bossa Nova da UDN. Tudo combinado, houve reunião da direção nacional do partido para dar sinal verde. Djalma Marinho, do Rio Grande do Norte, não concordou:

– Ministro de Jango, só deixando a UDN.

Mesmo assim, no dia seguinte, Carlos Castelo Branco informava em sua “Coluna do Castelo”, já no “Jortnal do Brasil”:

-“Sarney só não será ministro se Vitorino Freire vetar junto a Jango”.

Vitorino telefonou para Castelo:

– Olhe, Castelo, eu faço política em cima da fivela. Não sou do PTB nem da UDN. Se o galho não é meu, não tenho nada com o macaco. O doutor Sarney pode ser até ministro da Guerra do doutor Jango.

Jango e a UDN entenderam o veto. Sarney foi desministrado.

Dois anos depois, veio o golpe militar de 1964, Seixas Doria foi confinado em Fernando de Noronha, José Aparecido asilado na embaixada da Yugoslávia e José Sarney ficou engraxando as botas dos militares.

***
CASSIO

Onde houver governo e mamatas de governo, Sarney está lá. E onde puder usar o governo para violentar os adversários, lança mão das armas mais despudoradas. Só duas semanas atrás, um ano depois da eleição, o Tribunal Eleitoral da Paraíba  entregou o diploma de senador a Cássio Cunha Lima, o mais votado do Estado, e que afinal assumiu o mandato no Senado, apesar das mais solertes manobras comandadas por Sarney, para que outro, derrotado nas urnas, continuasse exercendo seu mandato.  

No Amapá, a mesma coisa. No “Globo”, Catarina Allencastro contou:

1. –  “Na semana passada, a Mesa Diretora do Senado se reuniu para fechar o dia em que João Capiberibe, diplomado pelo Tribunal Eleitoral do Amapá, poderá assumir seu mandato, mas a situação permanece indefinida. Ainda que deseje protelar mais a chegada do adversário à Casa, Sarney não tem mais margem regimental para tanto. Pela lei, o Senado é obrigado a empossá-lo cinco sessões após a diplomação pela Justiça eleitoral”.

***
CAPIBERIBE

 2. – “Além do atraso no Senado, Capiberibe teve que aguardar o julgamento de recursos no Supremo Tribunal Federal (STF). O relator do caso, ministro Luiz Fux, decidiu que ele tinha o direito de assumir o mandato, mas outro recurso foi interposto por Gilvan Borges (PMDB), que concorreu contra ele nas eleições, foi derrotado, e acabou assumindo sua vaga no Senado. O STF reafirmou sua decisão em favor do político no último dia 3, quando decretou sua diplomação imediata. Disse Capiberibe:

– “O Sarney foi o responsável pela minha cassação em 2005. Ele é o político mais influente do país, tê-lo como inimigo não é fácil. Mas voltei, Na quarta-feira, apresento minha diplomação no Senado e aí vou ver se haverá embromação ou não para a minha posse”.

“Gilvan Borges foi o terceiro votado nas eleições do Amapá e ocupou o lugar de Capiberibe. Exerceu o cargo por menos de dois meses e passou a cadeira para o suplente,o irmão Geovany Borges,também aliado de Sarney”

Agora, os senadores Cássio Cunha Lima e João Capiberibe podem dizer a Sarney o que os policiais do Rio disseram ao Nem da Rocinha:

– “Perdeu, Sar-Nem”!

This entry was posted in Sem categoria. Bookmark the permalink.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *