Pescoço de rosca

Sebastião Nery

Na hora de deixar o governo da Bahia, em 1954, e entregá-lo ao governador eleito Antonio Balbino (pelo PTB, derrotando o candidato do PSD, Pedro Calmon), Regis Pacheco deu um aumento de 25% à polícia estadual. O comandante, coronel Almerindo Rhem, reuniu o Alto Comando:

– Precisamos fazer uma homenagem ao doutor Regis, para provar-lhe nossa gratidão, sobretudo porque ele perdeu as eleições e sai derrotado.

Começaram os palpites. Uns sugeriam o nome em uma ala da Vila Militar, outros um retrato no salão nobre, já outros uma placa na entrada de um dos quartéis. Enfim, por unanimidade, foi aprovada a inauguração de um busto do governador no centro da Vila Militar.

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BAHIA

O coronel Filadelfo Neves, velho e sábio sertanejo, pediu a palavra:

– Está bem o busto. Lá em cima de um pedestal, bem alto. Só que precisamos pensar no futuro. Vai haver, inevitavelmente, outros governos, outros governadores, outros aumentos, outras homenagens.

– Qual é então a sua proposta?

– Busto, mas com pescoço de rosca.

E ficou lá, anos a fio, o busto de Regis Pacheco, com pescoço de rosca.

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PETROBRAS

Há exatos 58 anos, nascia a Petrobras, ao preço de sangue, suor e lágrimas e, logo de saída, um primeiro cadáver, o de Getulio, seu criador. Depois, milhares de técnicos, geólogos, engenheiros, trabalhadores de todos os níveis, a grande maioria jovens, deram vida e alma para o Brasil construir uma poderosa empresa de petróleo, base da sua independência.

Foi o que dizia o “Repórter Esso”: “Testemunha ocular da história”. Jornalista na Bahia no fim dos anos 50 e começo dos 60, vi a Petrobras nascer (e participei) com a primeira grande refinaria pública do País, a de Mataripe, e o primeiro sindicato de trabalhadores do petróleo, o Sindipetro.

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JURACY

Juracy Magalhães, primeiro presidente, em 53 e 54, contratou para chefiar seu Departamento de Pesquisa, por cinco anos, o geólogo-chefe aposentado da norte-americana Standard Oil, Walter Link. Era a raposa no galinheiro. Fez um relatório maroto: não tínhamos petróleo quase nenhum.

Foi então que um grupo de jovens geólogos, dirigentes do departamento de Exploração da Petrobras, passou a pesquisar não apenas as possibilidades em terra, mas também na plataforma submarina, com descobertas surpreendentes. Não por acaso, no golpe militar udenista-americano de 64, foram quase todos eles demitidos da empresa.

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GEISEL E FHC

Todas aquelas lutas resultaram na grandiosa empresa que é hoje a Petrobras. E agora, quando ela descobre a bacia do pré-sal (a maior nova reserva de petróleo do mundo), os mesmos que em 53 tentaram inviabilizá-la querem agora fazer dela uma cabeça descartável, um pescoço de rosca.

A operação-traição começou no governo Geisel, com os “contratos-de-risco”, uma maneira disfarçada de quebrar o monopólio da Petrobras pondo as empresas internacionais de petróleo dentro da exploração. Mas elas jamais quiseram investir em risco nenhum e não descobriram nada.

No governo Fernando Henrique, o “mister Lynk da rua Antonia”, tomaram da Petrobras o “monopólio nacional da exploração e do refino”, vendendo a maioria de suas ações e obrigando-a a fazer “parcerias” com as empresas estrangeiras. Mas as “novas parceiras” não puseram um tostão em novas pesquisas. Associaram-se na extração do já descoberto pela Petrobras.

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PRÉ-SAL

Agora, de repente, quando a Petrobras e seus técnicos descobriram as megabacias do pré-sal, com reservas de até 50 ou 100 bilhões de barris, os gangsters internacionais de sempre soltaram seus perdigueiros, seus cães de fila, como se dizia antigamente, nos jornais, revistas, televisões, Congresso, tentando tirar da Petrobras o comando da exploração do pré-sal.

Ora, se foi ela quem descobriu, cabe a ela comandar a exploração. E a primeira medida, evidentemente, tem que ser assegurar que a Petrobras tenha o controle da exploração e da produção. Para isso, é absolutamente indispensável que ela retome, e logo, a posse da maioria de suas ações, através da nova legislação regulatória da exploração do petróleo.

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LULA

Lula tem razão: “O Brasil não é da Petrobras. A Petrobras é que é do Brasil. Enquanto estiver embaixo da terra, o petróleo é da União. 62% do capital da Petrobras são privados e, desses, 50% são de americanos. Ficarão assegurados à Petrobras os megacampos descobertos” (“Globo”). O presidente da Petrobras, o bravo baiano Sergio Gabrielli, garantiu:
“A Petrobras terá condições técnicas de explorá-los sozinha”.

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O “BOLHA”

A TV Globo passou a dividir as pesquisas do Ibope com as do Datafolha. Depois de sócios no “Valor Econômico”, “Globo” e “Folha” cada dia mais se juntam. Pode surgir daí o “Glofo”. Ou, mais propriamente, o “Bolha”.

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