Pesquisas para 1001 utilidades e interesses

Carlos Chagas

Um anúncio  prendeu as atenções e a admiração geral quando a arte da propaganda explodiu  no Brasil,  há mais de quarenta anos. Nossas agências e  nossos profissionais galgaram os  mais altos patamares de competência e credibilidade, em especial quando apresentaram o Bom Bril, “esponja de aço com 1001 utilidades”. O país inteiro deixou-se seduzir pelo produto e  pela bem elaborada promoção, que permanecem até hoje.

Pois é.  A moda às vezes pega do lado errado. Tome-se as pesquisas eleitorais que, sem poder, pretendem igualar-se ao Bom Bril. Seus números servem para atender a 1001  interesses, satisfazendo todas as tendências e  clientes. Afinal, são pagas, constituem uma atividade comercial, com as exceções de sempre. O freguês tem sempre razão, caso contrário não volta para as eleições seguintes.

Exemplo perfeito é a mais recente pesquisa da CNT-Sensus sobre a próxima sucessão presidencial, um primor de acomodação e, com todo o respeito,  de  enganação. Ficaram  felizes todos os candidatos, importando menos a confusão causada no eleitorado.

Os mentores de Dilma Rousseff adoraram saber que a candidata cresceu de 17,3 % para 21,7%, promissora ascensão capaz de estimular as esperanças do presidente Lula, dos companheiros e de seus aliados. O governo também exultou ao verificar a queda de José Serra nessa mesma consulta, pois de 40% anteriores agora apresenta 31,8% de preferências. Como igualmente importava agradar Ciro Gomes, ele aparece com 17,5%, e até Marina Silva passou dos ralos 2% para 5,9%.

Ficasse a pesquisa nesses percentuais e apenas os tucanos e seus  penduricalhos lamentariam, mas, como também são clientes potenciais e, mais ainda, como  poderão chegar ao poder, melhor agradá-los. Assim, a CNT-Sensus mostrou outra consulta feita na mesma hora, com números bem diversos. Sem Ciro Gomes no páreo,  o governador José Serra passa para 40,5% nas preferências gerais, seguido por Dilma Rousseff com 23,5%.  Alívio e até  festa no ninho, preservando-se também os índices da candidata oficial.

Mas teve mais, seja para confundir, seja para agradar e até para apresentar um possível resultado final capaz de acomodar-se à voz das urnas: para o segundo turno, só com os dois primeiros colocados, Serra sobe para 46,8% e Dilma para 28,2.  Todas as esperanças estão mantidas, ainda que favorecendo o governador, aquele que na primeira consulta do mesmo dia e da mesma hora havia vertiginosamente caído  de 40% para 31,8%.

O problema é que faltava uma última utilidade para a pesquisa, talvez a mais importante e a mais rentável,  porque num país ainda instável como o nosso, tudo acaba sendo possível. Até aqui as consultas foram estimuladas, quer dizer, o instituto deu os nomes e os dois mil eleitores pronunciaram-se apenas sobre eles. A questão final, porém, foi “espontânea”, ou seja, ficou a cargo dos consultados manifestar suas preferências. E quem terá ficado na  maior satisfação foi ele mesmo, o presidente Lula, votado por 18,1%, contra 8,7% de José Serra e 5,8% de Dilma Rousseff. Mesmo com as regras do jogo proibindo um terceiro mandato.

Quem quiser que tire suas conclusões, pois ficaram todos felizes e teriam ido todos para a praia, não fosse a pesquisa também estendida ao interior.  Afinal, Dilma cresceu, Serra é o favorito, Ciro pode surpreender e Marina é uma estrela que surge. Seria  bom tomar cuidado com essas consultas  de 1001 utilidades e interesses …

Chapas que a burrice afasta

Certas evidências estão no ar que a gente respira, prescindindo de pesquisas, elocubrações e conversas. Em termos de sucessão presidencial, seria quase imbatível a formação de uma chapa café-com-leite,ou seja, José Serra para presidente, Aécio Neves para vice.  A dupla sairia de Minas e de São Paulo com mais de 30 milhões de votos, no mínimo. Pelo jeito, e sabe-se lá porque desígnios dos deuses paulistas e mineiros, a hipótese torna-se cada vez mais improvável.

Da mesma forma, do outro  lado, uma dobradinha com Dilma Rousseff e Ciro Gomes seria de balançar qualquer roseira, ainda que dela nem se cogite.

Com a entrada no palco de outro ator, o governador Roberto Requião, se mantiver a tendência expressa em recente reunião do PMDB em Curitiba, nada melhor do que o senador Jarbas Vasconcelos para seu companheiro de chapa, capazes, ambos, de exprimir a verdadeira oposição nacional ao neoliberalismo. O ex-governador de Pernambuco nem ao menos compareceu ao encontro na capital paranaense.

Não haverá que esquecer, também, uma dupla capaz de sensibilizar mais da metade do eleitorado, constituído de mulheres: Marina Silva para presidente, Heloísa Helena para vice.

Nenhuma dessas combinações parece dispor da menor chance, por  falta de visão, mesquinharias políticas e outros fatores secundários.

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