Petrobras ameaçada

Sebastião Nery

A campanha do “O Petróleo É Nosso” estava no auge, em 1953. Em Belo Horizonte, entidades estudantis, lideranças sindicais, organizações de jornalistas e intelectuais preparamos um comício para a Praça da Estação e convidamos os parlamentares. A polícia proibiu, alegando que era uma campanha e um comício de comunistas.

Nenhum deputado federal apareceu. Apenas alguns estaduais, na praça cheia, cercada pela polícia. Lá na frente, servindo de palanque, pusemos um caminhão vazio, sem as laterais, e um microfone. De repente, chega o deputado federal do PTB e já candidato a senador no ano seguinte.

Lúcio Bittencourt, alto, magro, terno claro, bigodinho preto, vai direto para o caminhão. Fomos juntos. Com ele, a polícia não teve coragem de barrar-nos. Alguns de nós falamos. Eu contei a historia, desde que o petróleo apareceu na Bahia. Lucio pegou o microfone e começou:

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BITTENCOURT

– Ontem, li nos jornais que a polícia havia proibido este comício. Liguei para o governador Juscelino, ele me disse que eram ordens federais, do Rio. Confesso que tive dúvidas. Mas, à noite, ouvi o povo me dizendo:

– Vai, Lúcio, vai! Vai!

E Lúcio foi. Deu um passo à frente e caiu esborrachado no chão, embaixo do caminhão. Ainda tentei segurá-lo pela ponta do paletó, não deu tempo. Nosso querido professor desabou. Acabou o comício.

No dia seguinte, no palácio, Juscelino dava gargalhadas:

– Eu bem que disse a ele: – “Não vai, Lúcio! Não vai”!

A Petrobras nasceu da luta de milhares de Lucios Bittencourt, brasileiros de todos os Estados, contra a resistência feroz dos Estados Unidos e suas matilhas colonizadas, que tentavam impedir o começo da exploração e deixar o petróleo inexplorado, como uma reserva estratégica.

No seu segundo governo, Getulio Vargas foi obrigado a mandar para o Congresso o projeto criando a Petrobras, a principio sem o monopolio estatal, depois com ele. Hoje, 60 anos depois, a Petrobras é patrimônio e orgulho do povo brasileiro. Mas está mais uma vez ameaçada:

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NUMEROS

1.- Os preços das ações das empresas guardam similaridade com o preço do barril de petróleo no mercado internacional. Em 2007, o preço do barril do petróleo “Brent”, atingiu 130 dólares. Na época, uma ação da Petrobras era cotada a R$ 57. Já a gigante multinacional Exxon valia R$ 85; a Chevron tinha cotação de R$ 93 e a Shee, era cotada a R$ 84.

2- Em junho de 2012, o petróleo “Brent” tem cotação de 98 dólares o barril. As ações da Exxon são cotadas nas bolsas de valores em valor unitário de R$ 77. A Chevron vale R$ 96. A Sheel tem cotação de R$ 61. Já a Petrobrás tem a “ridícula” cotação de R$ 19.

3.– A supercapitalização da empresa em 2010, quando o governo elevou sua participação acionária, através da emissão de títulos públicos caucionados pelo BNDES, fundamentados nos recursos futuros gerados pelo petróleo do pré-sal, têm parcela na brutal desvalorização das ações.

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PREJUIZOS

4. – Mas a principal razão, danosa aos interesses nacionais e aos seus milhares de acionistas, origina-se na submissão da Petrobras aos governos Lula e/Dilma, que vetaram o reajuste dos preços dos combustíveis. A gasolina há seis anos tem o preço congelado. Por imposição governamental deixou de acompanhar a trajetória de preço internacional na sua remuneração. Subsidiando o consumo, demagogicamente, dos derivados de petróleo para combater a inflação.

5– Ao impedir a atualização dos preços da sua produção a Petrobrás vem destruindo o seu valor de mercado, por imposição de sua diretoria que pode ser responsabilizada por gestão temerária. Gerando insegurança para o futuro pela redução do faturamento, acumulando prejuízo de vários bilhões de reais, reduzindo a sua lucratividade.

6- E pior: exatamente quando precisa aplicar recursos na escala de bilhões de dólares para a exploração do pré-sal. A desvalorização das suas ações, afetando o seu patrimônio, só tem um único responsável: o governo brasileiro. Autêntico crime de lesa pátria que deveria merecer atenção do Ministério Público Federal, em nome dos acionistas brasileiros.

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