Piketty é importante, porque chama atenção para os problemas do capitalismo

Charge do Allan Sieber (allansieber.blogosfera.uol.com.br)

Flávio José Bortolotto

O capitalismo como sistema de produção existe desde a antiguidade, com propriedade privada dos meios de produção e escolhas individuais sobre o quê, quanto e para quem, mantendo o uso do mecanismo de mercados para alocar os recursos. Sintetizando, a principal característica do capitalismo (perfeito ou imperfeito) é a descentralização do sistema de escolhas.

A partir do Século XV, principalmente com as grandes navegações, o capitalismo se desenvolveu muito, tendo como base principal o comércio. A partir do Século XVIII, com a máquina a vapor e a revolução industrial na Inglaterra, deu um grande salto, tendo a indústria como mais uma base. E a partir da segunda metade do Século XX, deu mais uma acelerada, tendo como nova base o mercado financeiro.

Como nos mostra o economista francês Thomas Piketty na obra “O Capital no Século XXI”, primorosamente analisada na Tribuna da Internet por Moacir Pimentel, a riqueza/renda sob a atual fase de predominância de capitalismo financeiro, está se concentrando nos 1% mais ricos, especialmente nos 0,1% do topo da pirâmide social, o que leva a desequilíbrio crescente do sistema.

TESE DE PIKETTY

Podemos resumir a tese de Piketty como: “Os ricos estão ficando mais ricos, numa proporção maior, do que os pobres estejam ficando menos pobres”.

Semana passada, corajosamente o ministro da Indústria e Comércio da Argentina, Rogélio Frigério, declarou que seu país hoje tem 30% de pobres ( abaixo da classe média e alta) e que cerca de10% deles, “dormem com fome”.

Me parece que essa proporção é a mesma no Brasil, e é com ela que o governo Temer/Meirelles deveria trabalhar.

IMPORTANTE PROBLEMA

Piketty é importante porque chama atenção para esse importante problema do capitalismo.

Será que Karl Marx, que escreveu no auge do capitalismo de fase industrial (1848 – 1883), e previu o fim do capitalismo industrial pelo agravamento de suas contradições internas, não estaria certo agora com a perspectiva do capitalismo financeiro? Só o futuro dirá.

20 thoughts on “Piketty é importante, porque chama atenção para os problemas do capitalismo

  1. Só vou comentar a charge (e já é muito): não existe problema no consumo, o problema é quando ele é artificial causado por uma política de empréstimos desvairados.
    Não é difícil entender.

  2. Boa pergunta, Sr. Bortolotto. Creio que a resposta terá de vir do próprio sistema capitalista, já que não existe outro sistema de produção criado pelo homem. O comunismo não é sistema de produção e, portanto, nào pode oferecer resposta.
    A anomalia capitalista estâ concentrada no sistema financeiro como já escrevemos aqui por diversas vezes. A solução será a adoção da fórmula de juros simples – sistema de capitalização linear.

    • Caro Wagner, o que desequilibra o sistema capitalista são os governos. Quem gasta o dinheiro ganho sem produzir nada são os governos formados por políticos muitos deles apenas corruptos. Podemos ver, claramente que nos países, onde a política é limitada, a pobreza diminui e onde a política conduz a nação, como o Brasil a pobreza nunca é reduzida. Diminua o tamanho do governo e a felicidade será geral.

  3. Licença: parabéns às FFAA e bombeiros japoneses que, após seis longos dias, encontraram vivo, o menino Yamato, que foi deixado pelos pais em uma rodovia, às margens de uma floresta onde vivem ursos cujo peso aproxima-se de meia tonelada.

    Na Budologia, Yama é o “Deus da Morte” e a partícula “To” significa “harmonia com o universo”.

    No Japão, as FFAA são conhecidas como Forças de Autodefesa: eis aí, a meu ver, um belo exemplo de função das FFAA e não, intervir na política.

  4. Caro Bortolloto,

    A sua pergunta é de suma importância num momento no qual o capitalismo é entendido como natural, inevitável, permanente e, sem dúvida, o que é intrigante, pós ideológico. Então se a maioria das pessoas acredita que o capitalismo é tudo isso , que importa se é ético ? Se ele é algo inevitável, uma realidade imutável porque as pessoas vão sempre querer trocar umas coisinhas por outras e ter mais , então entrar nessa conversa e questionar a moralidade da desigualdade que nenhum sistema até hoje conseguiu erradicar, é irrelevante , uma dessas curiosidades petistas da academia, certo?

    Errado

    Ora, como tal conversa é perda de tempo , ela termina deslizando para um buraco negro da racionalidade e nós continuamos lamentando o mundo amaldiçoado e pronto. Ligamos a televisão. E as questões aparentemente desafiadoras do capitalismo continuam conduzindo, inexoravelmente , à uma conclusão em favor da defesa do status quo, certo?

    Errado.

    As pessoas que hoje recusam-se a entreter até mesmo uma conversa , ou a imaginar uma economia pós-capitalista, não são diferentes dos barões feudais e dos camponeses que não puderam prever ou foram hostis ao capitalismo dinâmico recém-chegado há séculos. Para elas, é como se a humanidade já tivesse atingindo o ápice da sua capacidade de gerar ideias econômicas e soluções políticas.

    Mas manter uma visão da humanidade como estática, ou supor que poderemos continuar consumindo cada vez mais produtos dos quais não precisamos , destruindo recursos não renováveis de um planeta FINITO já não é mais possível. Portanto que tal apostar na nossa capacidade de inovar e criar já demonstrada, cabalmente , pela história humana?

    O capitalismo está sim apresentando alguns problemas apesar de ter , no meu entendimento, tirado da miséria bilhões de seres humanos e isso é demonstrado por um olhar rápido sobre o estado atual do nosso mundo. Então por que não criticá-lo visando o seu aperfeiçoamento?

    Já conversamos na TI sobre terceiras vias, como por exemplo , o socialismo-liberal , que mescla liberdade econômica com o estado de bem estar social , com resultados excelentes nos países escandinavos.

    Parece que nos esquecemos de que nós, seres humanos, inventamos a economia. Se ela deixou de servir-nos, em seguida, os nossos melhores esforços deveriam ser no sentido de aprimorá-la.

    Antes que nos mandem para Cuba ou para a Coreia do Norte com um bilhete só de ida , talvez fosse prudente colocar que tal questionamento hoje é feito em lugares bem inesperados.

    Recomendo a leitura , por exemplo de uma crítica ao neoliberalismo diferente das milhares que já foram feitas até hoje. Publicada há dois dias , ela é da lavra de três pesquisadores, de pedigree impecável , pois trabalham para o Fundo Monetário Internacional …

    ISTO MESMO O FMI !

    São eles Jonathan D. Ostry, Prakash Loungani e Davide Furceri . O trabalho intitulado de

    Neoliberalismo : Superfaturado?

    está sendo , no momento debatido , por todo vasto mundo. Eis um dos seus trechos:

    Os resultados da pesquisa sugerem a necessidade de uma visão mais matizada do que é provável que seja capaz de alcançar a agenda neoliberal. O FMI, que supervisiona o sistema monetário internacional, tem estado na vanguarda desta nova apreciação.

    Por exemplo, o seu ex-economista-chefe, Olivier Blanchard, disse em 2010 que

    “O que é necessário em muitas economias avançadas é uma consolidação orçamental credível a médio prazo e não o laço fiscal de hoje”.

    Três anos mais tarde, a diretora do FMI, Christine Lagarde, disse que a instituição acreditava que o Congresso dos Estados Unidos estava certo ao elevar o teto da dívida do país “, porque a questão não é contrair a economia, cortando gastos brutalmente no momento em que ela estava decolando .”

    Em 2015 o FMI aconselhou que os países da área do euro com “espaço fiscal usassem tal recurso para apoiar o investimento.”

    Na questão da liberalização do capital, a visão do FMI também mudou da convicção que considerava os controles de capital como quase sempre contraproducentes para uma maior aceitação de controles para lidar com a volatilidade dos fluxos de capital.

    O FMI também reconhece que a liberalização do fluxo total de capital não é sempre uma meta-fim apropriada, e que uma maior liberalização é mais benéfica e menos arriscada se os países chegaram a certos limiares de desenvolvimento financeiro e institucional.

    A experiência pioneira do Chile com o neoliberalismo recebeu elogios do Nobel Friedman, mas muitos economistas agora giram em torno de uma visão dotada de mais nuances e expressada pelo professor da Universidade de Columbia Joseph Stiglitz – ele próprio um laureado com o Nobel- no sentido de que o Chile

    “É um exemplo de sucesso de mercado combinado com regulamentação apropriada “.

    Stiglitz observou que, nos primeiros anos de sua mudança para o neoliberalismo,o Chile impôs

    “controles sobre os fluxos de capital, de modo que não fosse inundado por eles”, como, por exemplo, o primeiro país asiático a entrar em crise, a Tailândia, uma década e meia mais tarde. A experiência do Chile (o país agora evita os controles de capital), e de outros países, sugere que nenhuma agenda fixa proporciona bons resultados para todos os países para todos os momentos.

    Formuladores de políticas e instituições como o FMI devem ser guiado não pela fé, mas pela evidência do que já funcionou e funciona.

    http://www.imf.org/external/pubs/ft/fandd/2016/06/ostry.htm

    • Moacir, o artigo que você recomenda sobre o neoliberalismo é muito interessante.
      Senti falta, apenas, nas análises e exemplos dados, para aplicação ao caso brasileiro, de uma avaliação do custo da dívida x tamanho da dívida nos diferentes países estudados. Uma dívida grande incorrida a taxas menores do que o retorno do benefício esperado pelo que ela financia é uma coisa, uma dívida incorrida a taxas maiores do que o retorno do benefício esperado é outra. Por causa disso é que os Estados Unidos, como diz a Lagarde, podem tirar o país de uma depressão aumentando o gasto governamental ainda que tenham que aumentar a dívida do governo, e o Brasil não pode, como descobrimos nos últimos anos.
      Também o que diz (talvez um tanto sumariamente) sobre a diferença de efeitos do fluxo de investimento estrangeiro direto versus a do investimento especulativo (que eles chamam de investimentos a curto prazo) é importante para nossa avaliação, porque um país na situação do Brasil atrairá fundamentalmente o capital especulativo e não o capital produtivo.
      O desafio de imaginar um sistema pós-capitalista é conciliar a previsão do futuro com a evidência do que já funcionou e funciona.

      • Com certeza, Wilson.De curtíssimo prazo.Tem que ler o artigo na íntegra , até porque nele , o texto e os gráficos se complementam . Desculpe mas estou sem tempo para teclar e, como você pôde ver , eu apenas traduzi a conclusão da crítica. Por que você não nos tecla sobre as questões levantadas pelo artigo confrontando-as com os problemas que temos que superar por aqui?
        O meu objetivo foi mais amplo : há que se conversar sobre o capitalismo, sobre o nem estar social, sobre educação , sobre os sistemas híbridos tão bem sucedidos no Norte da Europa, sobre como as soluções tem que ser “matizadas” e não simplesmente importadas . Tudo isto depois que tivermos , minimamente, equilibrado nossa economia.O que vai ser difícil enquanto ela continuar a ser envenenada pela política.
        O que eu tentei dizer foi que não há nada neste mundo que esteja acima da crítica e que não possa ser melhorado. E não há que se falar de regras fixas nem de soluções padrão Já é mais do que hora de se desacreditar em promessas vazias e de se utilizar como GPS o que já deu resultado, mesmo que variando alguns dos passos.
        Recomendo-lhe ainda da lavra do Aditya Chakrabortty, comentarista econômico sênior do Guardian, uma outra matéria , no meu entender um bocado fora dos trilhos, pois o neoliberalismo está longe do túmulo, se bem que na antevéspera – quem sabe ? – de uma cirurgia cosmética radical.

        http://www.theguardian.com/commentisfree/2016/may/31/witnessing-death-neoliberalism-imf-economists

  5. Seria extremamente fácil resolver o tal acúmulo de riquezas individuais ou empresariais.

    Da mesma forma que eu disse que, se o Brasil quisesse dinheiro agora para o seu desenvolvimento e imediatas vagas de trabalho, bastaria recambiar as fortunas depositadas no exterior, que deveriam ser depositadas no país de origem!

    Ora, não se pode possibilitar que outras nações se aproveitem para mais ainda desenvolverem-se junto às demais, que não seja aquela que deu origem à fortuna.

    O mundo financeiro deveria se reunir e determinar que, pessoalmente, haveria uma limitação em depósito, extensivo aos familiares, ou seja, a minha família, mulher e três filhos, poderia depositar até Dez Milhões de Dólares, por exemplo ou, então, em meu nome esta totalidade, e o sistema interligado financeiro mundial impediria que eu pudesse fazer o mesmo em outros países.

    Consequentemente, o excedente seria obrigado a ser investido nas indústrias ou comércio ou agronegócios NACIONAIS!

    As fortunas obtidas LEGALMENTE não seriam confiscadas pelo governo, claro que não, tampouco haveria impostos para grandes riquezas, mas a obrigatoriedade de 60% da fortuna total ser aplicada no desenvolvimento do país, e 40% depositados também na mesma Nação, intocáveis, rendendo os juros e dividendos do mercado, evidentemente acima de uma quantia relevante, que citei dez milhões de dólares, mas poderia ser mais, 20/30, quem sabe cem milhões de dólares ou 400.000.000 reais!

    Desta forma, fortunas acima de meio bilhão de reais deveriam ser convertidas em ações ou participações societárias em empresas brasileiras, e terminantemente proibidas – mediante um poderoso esquema de controle e fiscalização – quaisquer remessas para o exterior, salvo pequenas quantias para sustento de estudos, viagens de laser, aquisição de moradias.

    Não me venham dizer que seria antidemocrático ou impossíveis de serem tomadas essas medidas, pelo menos por enquanto, dez, quinze anos, até o Brasil ser mesmo uma Nação desenvolvida, Educação em alto nível, Saúde Pública satisfatória, Segurança confiável, Infraestrutura em rodovias e estradas de ferro que nos interligariam internamente para os quatro cantos do país!

    Então, se liberariam quantias maiores para depósitos – NO BRASIL – e menos participação acionária ou societária.

    Simples, ninguém perderia dinheiro e, mais:
    As transferências dessas fortunas para o país, devidamente registradas, por obedecerem tais determinações para contribuírem para o nosso crescimento, NÃO SERIAM ALVOS DE IMPOSTOS, mesmo que tenham sido enviadas irregularmente, não importa, mas iniciariam a fazer parte da economia brasileira para empurrá-la ao desenvolvimento com mais rapidez, pagando, em consequência, os impostos e taxas concernentes aos lucros obtidos.

    Acho que devemos deixar de lado a discussão em torno do capitalismo/consumista ou de um comunismo/socialismo/ improdutivos, terminologias gastas e carcomidas pelo tempo e resultados frustrantes, e adotar novas maneiras de desenvolvimento e crescimento, como a utilização das fortunas obtidas naquele país e que não poderiam estar depositadas fora daquela nação que havia proporcionado esta riqueza, razão pela qual o desequilíbrio e falta de dinheiro para investimentos, enquanto fortunas imensas estão guardadas em cofres sem qualquer utilidade, e fora do país de origem.

    Que sejam mantidas, porém 60% investidas e 40% depositadas.

    E proibidas as remessas para fora com objetivos de preservar o dinheiro e dar-lhe supostamente uma segurança maior. Maior tranquilidade e certeza do dinheiro na mão seria o seu depósito e aplicação no Brasil e não fora dele.

    Penso que perdemos muito tempo em teorizações sobre …. dinheiro, se a questão se resume em quem tem e quem não o tem.
    Quem o possui, que seja investido; quem engana não ter, que trate de “encontrar” o dinheiro e recambiá-lo de volta por força de lei, caso contrário perderá o seu dinheiro.

    Imagino, repentinamente, o Brasil receber bilhões de reais na sua economia, o salto que não daríamos, os avanços que teríamos, e de imediato!

  6. Muito Obrigado aos estimados Colegas que me honraram com Comentários.

    Vimos que o Capitalismo foi se transformando de predominância Comercial, para Industrial e agora para Financeiro.
    Nessa trajetória, ampliou muitíssimo a Produção, barateou Custos e gerou PODER DE COMPRA suficiente para tirar bilhões da Miséria/Pobreza.
    Mas nos últimos +- 30 anos, a geração de PODER DE COMPRA não tem sido suficiente para manter o Pleno Emprego, especialmente os Empregos que pagam bons/altos Salários. O Padrão de Vida tem ficado estagnado com viés de queda, nos EUA, Europa e quase o Mundo todo.
    O Poder de compra da Sociedade, em relação ao Total do estoque de Capital, vem caindo continuamente. É preciso reverter este Quadro.
    Então aparece PIKETTY com seu Livro “O Capital no Século XXI”, tentando explicar o fenômeno, e naturalmente dar solução ao Problema, antes que o “velho” KARL MARX, que errou prevendo o fim do Capitalismo Industrial, tenha razão agora na fase predominante de Capitalismo Financeiro.

    O Capitalismo de predominância Financeiro criou Híper-Corporações ( Bancos, Financeiras, Seguradoras, Corretoras, etc ) que pela primeira vez na História são ” To Big to Fail “, o que é absurdo numa Economia de Mercados auto-Reguláveis.

    Para que MARX não tenha razão dessa vez, de uma maneira ou de outra a SOCIEDADE tem resolver esse problemão do ” To Big to Fail”, e fazer a nova Economia criar grande PODER DE COMPRA, mais do que suficiente, para gerar PLENO EMPREGO com altos Salários.

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