Pimentel entregou o cargo, Dilma não aceitou

Carlos Chagas

À margem da versão oficial de que só trataram de assuntos ligados ao desenvolvimento, à indústria e ao comércio exterior, como terá sido, na realidade, o despacho de ontem entre a presidente Dilma e o ministro Fernando Pimentel?
Há quem imagine que o ministro, mesmo negando qualquer malfeito em seu anterior papel de consultor de empresas, e em função de sua longa amizade com a presidente, teria colocado o cargo à disposição. Claro que Dilma não aceitou, nem quer ouvir falar da hipótese de dispensar mais um auxiliar, especialmente esse ao qual está ligada por fortes laços de companheirismo. Militaram juntos na resistência ao regime militar, sendo Pimentel um dos poucos auxiliares escolhidos por Dilma sem interferência do Lula ou do PT.

Se verdadeira a versão, tratou-se de uma demonstração de caráter por parte do ministro. E de uma espécie de “basta” da presidente diante da cascata de demissões que vem marcando seu governo. Tudo no condicional, é óbvio, porque se fatos novos surgirem deixando pior ainda a já combalida P-21 Consultoria, a conversa terá de ser outra.

Parece injusta a comparação de situações entre o ex-ministro Antônio Palocci e Fernando Pimentel. Afinal, como chefe da Casa Civil, Palocci negou-se a dar os nomes de seus clientes, preferindo exonerar-se. Devem ter sido clientes explosivos, daqueles que manipulam milhões às custas dos cofres públicos. Com Pimentel, ao menos até agora, tem sido diferente: ele forneceu o que chamou de lista completa de seus fregueses.

Em suma, o palácio do Planalto quer ver encerrado o episódio das denúncias contra o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. Se vai conseguir, convém aguardar.

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SOBRE A ÉTICA

Mil correntes filosóficas tentaram explicar a ética, desde os pré-socráticos, passando por Aristóteles, Bacon e Maquiavel até Kant, Nietsche e Marx. Discute-se até hoje se a ética existe separada do indivíduo, ou se este nasce com o senso ético ou o adquire pela experiência.

O problema é que de uns tempos para cá, no Brasil, ética passou a produto em falta nas prateleiras dos governos. Cada vez com mais intensidade, em especial a partir da Nova República, ministros confundem o público com o privado. Julgam-se no direito de traficar influência, depois que deixam de ser ministros, ou até durante suas gestões. Centenas de malfeitos escaparam da vigilância da imprensa, ainda que ultimamente se torne mais difícil escondê-los.

Ministros fizeram suas festas particulares de enriquecimento com as privatizações, assim como ministros foram flagrados recebendo propina, favorecendo empresas de correligionários, celebrando contratos fajutos, prestando consultorias duvidosas e sucedâneos. Para eles, a ética não existe como forma de utilização da liberdade individual para chegar a um objetivo último, seja sentir-se bem consigo mesmo, fazer o mundo funcionar melhor, ganhar o Reino dos Céus ou obrigar o vizinho do lado a também ser ético.

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DESVIARAM O DESVIO

Deputados visitaram recentemente as obras, ou o que seriam as obras, de desvio das águas do rio São Francisco. Voltaram estarrecidos. Na maioria das frentes de trabalho não se trabalha. Máquinas enferrujam nos canteiros, os tais milhares de empregos foram para o espaço e o Velho Chico continua caindo no mar sem sequer respingar nos estados onde deveria correr. O ministro da Integração Nacional, Fernando Bezerra, pouco pode fazer. O projeto deixou de ser prioritário, na prática. Virou uma espécie de trem-bala, ou será o trem-bala que está virando o desvio do São Francisco?

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NOVA MOEDA DE TROCA

Os últimos embaixadores do Brasil escolhidos fora da carreira diplomática foram Itamar Franco, em Roma, e Paes de Andrade, em Lisboa, no primeiro mandato do presidente Lula. Depois, o governo cedeu à pressão do Itamaraty e veio a decisão de que nossos embaixadores teriam obrigatoriamente de pertencer aos quadros do ministério das Relações Exteriores. Há quem discorde, até hoje, do não aproveitamento de cidadãos capazes de prestar bons e até melhores serviços ao país do que os diplomatas, mas trata-se de uma decisão de estado.

Pois não é que na singular base parlamentar do governo tem gente prestes a colocar diante da presidente Dilma uma espécie de compensação pelos ministérios não conseguidos, as diretorias de estatais não preenchidas e até as emendas ao orçamento não liberadas? Se determinados ministros foram apresentados aos assuntos de seus ministérios apenas no dia da posse, não fariam pior dirigentes partidários se ocupassem determinadas embaixadas sem muita expressão, mas com mordomias garantidas. Melhor esperar para ver se pega esse novo tipo de pressão, ou nova moeda de troca política.

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