Plano da Odebrecht para anular Lava Jato continua em execução

Pai pede que Marcelo faça delação, mas ele confia na impunidade

Carlos Newton

No início da Lava Jato, muitos envolvidos sonhavam em anular as investigações por vícios de origem, repetindo o que aconteceu em outras operações da Polícia Federal, como a Satiagraha e a Castelo de Areia. Acreditavam conseguir a mesma impunidade do banqueiro Daniel Dantas, que na operação Satiagraha conseguiu se livrar de uma sentença de 10 anos de prisão.

Muitos meses antes de sua empresa ser denunciada, Marcelo Odebrecht já preparava um esquema preventivo. Segundo a Polícia Federal, com base em uma auditoria realizada em Curitiba, partiu do empresário o golpe de plantar um aparelho de escuta ilegal dentro da cela do doleiro Alberto Youssef, para que fossem anuladas as investigações.

Para aplicar um golpe desses, é preciso apoio interno, e foi cooptado o agente federal Dalmey Fernando Werlang, responsável por instalar a escuta.

SERVIÇO MAL FEITO

O problema é que o serviço foi muito mal feito. O agente Werlang instalou na cela um equipamento antigo e obsoleto, que Youssef encontrou com a maior facilidade. Era completamente inverossímil que a Polícia Federal ainda usasse esse tipo de escuta.

Mesmo assim, Werlang denunciou que o equipamento estava operante e envolveu vários delegados da Lava Jato, embora eles não tivessem o menor interesse em  grampear Youssef, que havia feito delação premiada e estava cooperando plenamente com a força-tarefa.

CHEGA O DELEGADO

Simultaneamente entrou em cena o delegado Mário Renato Fanton, lotado em São Paulo e que viajou a Curitiba para outra finalidade, mas conseguiu encontrar uma justificativa para fazer “investigações” sobre a escuta na cela de Youssef e até colheu o depoimento do agente “Werlang” num hotel em Curitiba.

Com isso, criou-se uma grande confusão a respeito do grampo ilegal, porque no Congresso entrava no circuito o deputado federal Aluísio Mendes (PSDC-MA), ex-agente da PF e hoje integrante da CPI da Petrobras, que passou a propagar que a sindicância que apurou o grampo na cela de Youssef tinha sido “criminosa” e poderia ensejar a anulação da operação, citando os exemplos da Satiagraha e da Castelo de Areia.

Mendes foi autor dos requerimentos para tomada de depoimento do agente Werlang e do delegado Fanton, e passou a dizer repetidas vezes à imprensa que há “fatos contundentes” que poderiam questionar a primeira sindicância feita pela PF sobre a questão.

PROCURADORIA REAGE

O Ministério Público Federal reagiu e denunciou criminalmente o delegado Mário Fanton e o agente Dalmey Werlang, acusados de se associarem para  desestabilizar as apurações e tentar algum tipo de nulidade legal da Lava Jato.

No relatório que pediu o indiciamento, a Polícia Federal aponta como figura central desse suposto plano justamente o empresário Marcelo Odebrecht, que ainda reluta em fazer delação premiada.

A iniciativa da Procuradoria foi prontamente atacada pelo deputado Aluísio Mendes Guimarães (PSDC-MA), dizendo que era uma forma de intimidar Fanton, que estava convocado para depor na CPI da Petrobrás, por proposta do próprio Mendes.

A denúncia da Procuradoria foi rejeitada pelo juiz da 12ª Vara Federal de Curitiba, Danilo Pereira Júnior, que entendeu que somente no caso de as informações de Werlang e Fanton não se confirmarem é que eles terão incorrido em ato criminoso, incursos em Denunciação Caluniosa – art. 339 do CP, com possibilidade de prisão de dois a oito anos.

DEPOIMENTOS

E o plano de Marcelo Odebrecht segue em frente. O agente Werlang e o delegado Fanton já depuseram na CPI, tentando enlamear a honra dos integrantes da força-tarefa da operação Lava Jato. Eles contam com a prestimosa colaboração de grande parte da mídia, que aparenta levar a sério as denúncias que os dois fazem.

As possibilidades desse plano dar certo são mínimas. O empresário Emílio Odebrecht, pai de Marcelo, já pediu que o filho faça delação premiada, ma ele ainda reluta. Prefere   continuar investindo (e bota investimento nisso…) na tentativa de anular a Lava Jato.

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