PMDB ameaça sair, mas três anos fora do poder são uma eternidade

Pedro do Coutto

A repórter Júnia Gama, O Globo edição de segunda-feira, revela a indecisão que envolve o PMDB de decidir deixar o governo Dilma Rousseff, de imediato, ou se espera dando tempo ao tempo, como se dizia antigamente, frase aliás que atravessa os séculos sem perder a atualidade. Serve a todas as épocas, como o PMDB a todos os governos. Júnia Gama deixa claro, a meu ver, que a legenda vai adotar a segunda opção. Tanto assim que adiou para 15 de novembro o encontro nacional organizado pela Fundação Ulisses Guimarães para tratar do assunto.

Sinal de que vai permanecer com os ministérios que possui até o máximo possível. Michel Temer sabe que ficar três anos longe do poder constitui uma eternidade. Sobretudo porque, como dizia Magalhães Pinto, política é como a nuvem. Muda de forma e direção a todo instantes. O ex-governador de Minas Gerais, que em 1960 derrotou Tancredo Neves, disse a frase diante de José Aparecido, de Sebastião Nery, e de mim, olhando para a janela de sua sala de presidente do antigo Banco Nacional que não existe mais. Mas esta é outra questão.

GANHARIA O QUÊ?

O adiamento da reunião coletiva sinaliza que a legenda não se dispõe a deixar o Planalto. Não faria sentido Com isso ganharia o quê? Nada. E, ainda por cima, deixaria o país ingovernável. O PMDB, de fato, basta interpretar bem a entrevista do ex-ministro Moreira Franco a Daniela Lima, Folha de São Paulo também de 21, joga na queda de Dilma Rousseff na hipótese de uma renúncia.

Não através de impeachment. Impedi-lo exigiria o apoio do PMDB e levaria a uma tempestade cujo desfecho institucional tornar-se-ia tão imprevisto quanto arriscado. O poder não pode ficar vago e o impedimento, no fundo, criaria um vazio em Brasília a ser preenchido, além de um recurso de Dilma Rousseff ao Supremo Tribunal Federal, como tentou Café Filho na crise de 55 que terminaria com a intervenção militar do general Teixeira Lott para assegurar o resultado das urnas e a posse de Juscelino na presidência da República a 31 de janeiro de 56.

LABIRINTO

Muito complicado, um labirinto no qual o PMDB não pretende ingressar. Mais lógico permanecer na Esplanada dos Ministérios, apenas ameaçando sair, porém pretendendo ficar, dividindo-se na superfície para, no fundo, renegociar um tipo de apoio que não o afasta abruptamente do voto nas urnas, tampouco do plano alto do Planalto. Será difícil? Certamente que sim. Mas é o único caminho possível, sem trazer consigo o risco de uma explosão.

O PMDB de hoje lembra o PSD de ontem, quando era presidido pelo senador Ernani do Amaral Peixoto. Amaral conhecia bem a política, seus segredos, seus roteiros, suas contradições. O Partido Social Democrático que elegeu Eurico Dutra em 45, e sustentou JK de janeiro  de 56 a janeiro de 61, numa época de alvorada, deixou, sem dúvida, sua marca na história. Era um fator de equilíbrio e estabilidade do poder.

O equilíbrio e a estabilidade foram rompidos em agosto de 61 com a renúncia de Jânio Quadros. Ascensão e queda de João Goulart. Vinte e um anos de ditadura depois.

FORÇA DA INÉRCIA

Por todos esses exemplos, o PMDB não pode romper com Dilma Rousseff. Nem impedí-la, lance que não interessa ao PSDB agora. Com isso, a presidente da República, como escrevi há poucos dias, vai se mantendo pela força da inércia.

6 thoughts on “PMDB ameaça sair, mas três anos fora do poder são uma eternidade

  1. Este partido PMDB não sabe ficar longe do poder, um partido mercenário, fica sempre onde der mais, trai tudo e todos para ser poder, já foi época em que ficava ao lado do povo, bastou Dilma oferecer cargos que os vetos foram derrubados, é uma vergonha nosso parlamento, são conchavos, falcatruas, maracutaias, mas também que são os principais, Renan Calheiros e Eduardo Cunha, não precisa dizer mais nada.

  2. Pedro do Couto, você na política já viu tudo. Quando Getúlio foi eleito em 1950 eu já estava na Marinha, e vi como cidadão e você viu como profissonal e cidadão: A oposição representada por Lacerda já se posicionara dizendo o que ficou na história. (Você sabe o que Lacerda disse). Naquele momento viamos uma luta suja, sem tréguas, de uma facção política (UDN), querendo por todos meios e modos impedir Getúlio de governar. Era claro o que verdadeiramente queriam. Agora as coisas são muito piores, porque os que ameaçam de impeachment (PMDB), estipulam preço: querem ministérios, cargos; chantageiam o governo com lei que altera a constituição, para que a terra indigena invadida e explorada por mais de cinqüênta anos por grileiros fantasiados de ruralistas seja, além da indenização estipulada pela constituição, indenizada como “terra nua” e com preço absurdamente majorado. De sobremesa o visto de asilado para o arquimilionário, bandido e senador boliviano Molina. Que, “por ato humanitário, senadores brasileiros conseguiram $$$$$$$$$ sequestrar da Bolívia, com o concurso de Saboia funcionário do Itamarati e fuzileiros navais, trazendo-o para o Brasil”. Quer dizer: Hoje o PMDB tem preço para o impeachment. Vai virar jurisprudência.

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