Polícia Federal perde seu poder de muçurana, que deveria engolir as outras cobras da crescente corrupção policial.

Benigno Dias

Muçurana (semelhante a muçum, em guarani) ou boiru (cobra grande), é uma serpente negra, não-venenosa, que devora as espécies venenosas, sem sofrer nenhuma dor no sovaco por isso. Ela ocorre, com abundância, no Alto Amazonas.

Especialistas em segurança pública e combate ao crime organizado veem na parceria entre as polícias estaduais e as quadrilhas escusas, o maior obstáculo para enfrentar a criminalidade de “grosso calibre”.

Mas como as milícias estaduais fizeram o crime organizado evoluir de poder paralelo para poder entrelaçado ao Estado? Vamos por partes:

1º O corporativismo pandemônico existente nas instituições policiais;

2º A quase total autonomia político-jurídico-administrativa dos estados em relação à União. Claro que qualquer governador vai recorrer a todos os subterfúgios para não aparecer no cenário nacional como comandante de uma polícia bandida;

3º Apenas a polícia militar de São Paulo, já conta com uma legião superior a 115 m il integrantes. Agora, somemos os efetivos das forças civis e militares das demais Unidades da Federação. Enquanto a Polícia Federal tem em seu quadro cerca de 10 mil elementos;

4º Em nome de fazer frente à criminalidade que prolifera uniformemente pelo país inteiro, resguardadas as devidas proporções, as polícias estaduais já detêm em seus arsenais armas tão letais quanto à Federal e até mesmo às Forças Armadas. Um poder de fogo inexpugnável;

5º Por atuarem mais próximos da estrutura que servem, os policiais estaduais dispõem de maior apoio político, conhecem os seus espaços sociais e os cúmplices com quem formam conluios.

Desse modo, crimes de responsabilidade da Polícia Federal, muitas vezes, têm suas investigações prejudicadas graças a coberturas de policiais estaduais, tais quais: venda de informações privilegiadas a criminosos, proteção e fornecimento de armas a delinquentes; apresentação de indicativos ou provas forjadas para confundir as apurações e salvar a pele dos seus comparsas etc.

É fácil encontrar policiais civis e militares como detentores de arsenais domésticos. Os caras são colecionadores? Nada disso, Mané, eles são locadores, mesmo! Então, para quem eles alugam ou vendem seus armamentos? Para clientes capazes de executarem ações criminosas financeiramente lucrativas, claro!

Um típico exemplo dessa PPP (Parceria Público-Privada) é o que atormenta hoje o estado do Paraná, na região de fronteira com o Paraguai. Menciona-se o caso do Paraná, porque ali as ações desses cartéis já fazem parte do senso comum: mas é certo que a banalização que se revelou naquele estado sulista sirva de protótipo para trazer à superfície os submundos ainda disfarçados noutros estados. Eis a questão.

 

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