Por que estamos cada vez beijando e abraçando menos?

Charge do Frank, reprodução do jornal A Notícia

Eduardo Aquino
O Tempo

Peço licença aos poetas, me desculpo previamente com os conservadores, além de saber do risco de parecer tacanho e fútil ao falar de tema aparentemente tão banal. Mas habito um universo onde o romantismo ainda gravita em torno de astros impregnados da fertilidade do afeto, onde estrelas brilham em noites repletas de amores platônicos. Nesse contexto, beijar alguém sempre teve a magia inenarrável de uma experiência extra-corpórea, uma sensação sensorial retida em lugar especial nas minhas “paredes da memória”.

Confesso que beijei poucas bocas relativamente. Mas a cada uma delas sempre houve uma bela história de paixão, encantamento e raros amores. Lembro de todas elas, as minhas musas de então e minhas demoradas e belas danças de acasalamento.

Contei aos meus filhos a belíssima história do meu primeiro beijo, uma aventura que demorou dois anos. Sim, fui chamado de ridículo, vaiado, até que me pediram que contasse. Foram necessários vários dias, e depois o sucesso foi tal que virou palestra no colégio deles. Em época de “ficação”, beijar centenas de bocas, ora fedendo a cigarro, a álcool ou coisas piores, a banalização dos beijos nas baladas e carnavais, criou-se o beijo anônimo, sem graça, sem história, órfão de emoção, mecânico e frio.

RITUAL DO BEIJO – Retomando o fio da meada, todo esse preâmbulo é para falar de um estudo que mostra que em todas as faixas etárias está caindo assustadoramente o ritual do beijo e o ato de abraçar os parceiros. Seria por qual motivo? Falta de tempo ou tempo demais voltado para as telas? Uma tendência a indiferença e a praticidade? O sexo fácil e descartável que desincentiva preliminares? Ou, mais provavelmente, a perda de intimidade e estímulo? A conferir em questionários posteriores.

Anteriormente, anos atrás, me chegou às mãos um trabalho que correlacionava o potencial do casamento com a diminuição ou a manutenção do hábito do casal em se beijar. Beijo francês, de língua (desculpem a sinceridade). Anos de casamento e o prazer do beijo se manter é um ótimo sinal de amor e afinidade. Diminuir ou parar de beijar, por outro lado, é um mau sinal em termos futuros.

E O ABRAÇO? – Quanto a abraçar, algo antes tão acolhedor e comum, vai se escasseando na mesma proporção que dedos frenéticos manipulam seus smartphones ou a individualização tranca cada qual no seu quadrado. O distanciamento de pais e filhos, numa inibição afetiva mascarada de “pagar mico”, igualmente está dizimando o afeto em forma de abraço. Cafuné, carinho, uma massagem lenta, gostosa, um colo ou ombro amigo, bem, aí é pedir demais. Estranhamente, sobra carência e desejo de ter alguém ao lado.

Ah! Já ia esquecendo: caiu a atividade sexual, preterida por ficar conectado às redes. Mas essa é outra história, já que aumentou o acesso aos sites pornográficos. Vá entender…

17 thoughts on “Por que estamos cada vez beijando e abraçando menos?

  1. Acho interessante esses cartazes – aqui no Brasil não vi um sequer – que dizem FREE HUGHS.

    O pessoal que passa em volta acredita, vai lá e abraça. Bonito.

    Tenho amigas e parentes que pouco abraçam e beijam seus filhos. Eu não consigo. Ao ver meu filho, que mora em outro estado, minha primeira reação é logo abraçá-lo.

    Quando ele tinha 14 anos e começou a sair e voltar tarde pra casa, eu o esperava na janela.
    Ligava pro jornal e perguntava a quem estava de plantão na sala de rádio – um amigo – se tinha acontecido alguma coisa na rua, se ele sabia de algo. E meu amigo me dizia: “Deixa o menino se divertir.”

    Às vezes, antes de ele chegar em casa, eu até pensava em reclamar. Mas era vê-lo entrar na sala que tudo passava. Eu só queria abraçá-lo.

    Também acho uma delícia o casal que ainda namora após muitos anos de casados. Li que Sílvio Santos e a mulher, Íris, são desse tipo de casal.

    Não sei se são felizes porque namoram ou se namoram porque são felizes.

    Antigamente se dizia que a TV fazia ter menos filhos e que sem ela o clima ficava favorável a uma prole grande.

    Hoje não sei como a internet funciona nesse sentido, mas o mundo está mesmo esquisito. Não tem um povo cuja camada jovem da população está, declaradamente, fazendo menos sexo? São os japoneses? Não sei, não lembro.

    O beijo, dependendo do beijo, é mais sexual. Mas o abraço, de filho, de amigo, de irmão, de pai, de mãe, de namorado, não importa o tipo, é qualquer coisa de bom. Muito bom. Afaga a alma.

    • Ah: sempre fiz muito cafuné no meu ex e no meu filho. É gostoso. Às vezes entrava no quarto, meu filho já na cama, e ele dizia:
      “Coça costas?” E eu coçava até ele dormir.
      Quem não sabe o que é isto não sabe o que é afeto, desconhece essa linguagem tão especial entre os seres.

      Que não é apenas coisa de humanos. Os animais também trocam carinhos, se coçam, se lambem.

    • Ofelia, está provado, cientificamente, que o abraço tem uma força energética enorme. Meu filho, que se foi apressadamente, morou sempre comigo, inclusive nas diversas ocasiões em que teve “relações estáveis”, digamos assim. Nosso apartamento tem um corredor enorme. Toda vez que ele cruzava comigo, pedia: “Pai, me dá um abraço”.
      Quando ele morreu, eu tinha uma vontade enorme de abraçá-lo novamente e nem lembrava mais como era a sensação. Poucos dias depois, tive um sonho colorido com ele, que se aproximava de mim e me abraçava. Senti o abraço e até o calor do corpo dele. No sonho, vi minha mulher e minha filha ao longe e gritei: “Newtinho não morreu!”. E ele imediatamente se foi. Penso nele todos os dias.
      Tenho um amigo que diz: “Filho tinha de ser proibido de morrer antes dos país”. Espero que meu filho esteja bem, lá do outro lado da fronteira. Eu ainda estou péssimo. Mas tenho de ir em frente. E vou.

      abs.

      CN

      • Ah, Newton, você me desmontou com sua narrativa. Não sei o que dizer. Senti falta de ar.

        Eu estava aqui quando seu filho se foi. Lembro até do HF escrevendo pra você.

        Passei um ano chorando a morte do meu pai, abraçando as roupas dele no armário e me deitando na cama dele com elas, até dormir.

        Ele tinha 92 anos.

        Sequer consigo imaginar a sua dor. Nem tento. Me aflige muito.

        Ele está bem, Newton, porque você merece; e ele, como seu filho, também merece. Não poderia não ser boa pessoa, impossível.

        Meu pai tinha idade avançada e até hoje, você deve perceber, falo muito nele. Foi meu melhor amigo.

        Pense no Newtinho sempre que tiver vontade, ame-o. Pra você ele não morreu. Amá-lo, pensar nele talvez seja a forma de fazer a ponte entre vocês dois. Quem sabe, lá onde ele estiver, ele sente esse seu amor, que é grande.

        Eu abraçava o travesseiro.
        Experimenta.

        Fica com Deus e o meu abraço amigo

        Ofelia

      • Carlos Newton, também me lembro do seu sofrimento. Filho é um pedaço da gente, literalmente. A música de Chico Buarque “Pedaço de mim” diz perfeitamente sobre a saudade do filho que partiu para o outro lado
        “Oh, pedaço de mim
        Oh, metade arrancada de mim
        Leva o vulto teu
        Que a saudade é o revés de um parto
        A saudade é arrumar o quarto
        Do filho que já morreu”
        Carlos Newton, também dou valor ao abraço. Acho sincero o abraço entre as pessoas. Beijo é automático, o tal beijin, beijim quando as pessoas se encontram. Tornei a me emocionar com suas palavras. Estou com vontade de levar o texto do Eduardo Aquino para minha página no FACE. Acho que ele não vai se importar. Muito boa noite de quem o admira muito

    • Ofélia, parabéns pelo seu texto. Estava precisando, aliás estamos precisando dos sentimentos que levam ao abraço – gosto mais de abraços, são mais aconchegantes,
      Beijim beijin, quando duas pessoas se encontram são aautomáticos, sem sentimentos.

      • Carmen, quem não tem vergonha de sentir, abraça.

        Eu abraçava até meu analista.
        Não me lembro de ter saído do consultório dele sem abraçá-lo.

        Um dia eu pedi abraço e ele disse: “Por que você está pedindo? Abraço não se pede, se dá”. Concordo não. A gente pedir e o outro dar o abraço é muito bom também.

        Não há receitas. E o que Newton diz é verdade, o abraço tem uma força energética enorme, revigora, passa a energia adiante.

        Quem nos fez e nos deu braços, sabia que íamos nos abraçar.

        Coisa de jogar fora é o apêndice. O braço, minha nossa!, tem aplicações afetivas: braço dado, abraçar a cintura, o ombro, abraço total.

        Desejo que você abrace muito hoje, Carmen.

        Um abraço.
        Ofelia

  2. A TV não passa esse sentimento para os espectadores. Não dá IBOPE como programas de DATENA e outros. Como disse lá em cima, acho o abraço mais sincero, mais aconchegante, conforta mais o (a) amigo(a) – pais, irmãos, parentes. Parabéns Eduardo Aquino.

  3. Tenho reiteradamente escrevendo neste blog incomparável sobre a importância da presença da mulher!

    Somente a sensibilidade feminina, neste caso pela nossa querida Ofélia, um comentário tão primoroso e significante quanto abordar o abraço e o bem que faz tanto para os abraçados.

    E quando perdemos um ente querido, então a saudade indescritível de afagá-lo, que se poderia ter lhe dado muito mais carinho, muito mais atenção.

    Por essas e outras que sempre envio o meu abraço ao término de cada texto de minha autoria, pois entendo esta manifestação de afeto, respeito e consideração, afora as sentimentais em caráter mais íntimo, um gesto sublime, de amizade, de simpatia, de gostar com quem se dialoga.

    E registro com sinceridade o meu abraço às pessoas, em face de que devemos mesmo nos relacionar com um mínimo de afeto.

    Em se tratando de amigos nossos que perderam seus filhos, uma dor que nos testa até onde suportamos o sofrimento não basta apenas o abraço, mas uma comunhão mental também, um enlevo especial, uma amizade que transcende aquelas que consideramos rotineiras, mas uma relação que compreende o desejo que temos de compartilhar a dor, de diminuir o seu peso com quem a sofre sozinho, de quem a levará para o resto de sua vida, porém poderá contar com os amigos quando os caminhos se tornarem mais difíceis e a saudade insuportável!

    O mínimo que posso oferecer aos meus amigos que perderam seus filhos é o meu afeto, a minha amizade mais sincera e profunda, o meu abraço forte, caloroso, fraternal.

    Sei que meus sentimentos afetivos não bastam, evidente, mas eu os ofereço com humildade, com vontade, com o desejo de deixar claro que também divido o padecimento, e que me integro à vida deste meu amigo ou amiga de forma plena, irrestrita, diante da minha intenção em transmitir que se a existência é dolorosa, a pessoa não está só, mas ao lado de outra que lhe oferece apoio, solidariedade, o seu coração!

    Um abraço, a todos, Ofélia, especialmente a ti e ao meu caro amigo Carlos Newton.
    Saúde e Paz para nós!

  4. Ofélia, parabéns pelo seu belo comentário. Meus filhos são hoje quarentões, e sempre nos abraçamos quando nos encontramos. E os netos também.
    Linda frase: “Quem não tem vergonha de sentir, abraça”. Obrigado.
    Carlos, também mal consigo imaginar sua dor. O meu único medo nesta vida é de que algum de meus filhos morra antes de mim.

  5. Me emocionei com todos os comentários. Tenho a sensação do abraço de minha flor que já foi embora há 8 anos. Outro dia, sonhei com ela: A via com uniforme da escola vindo na minha direção e quando vi que se aproximava gritei: Você veio me dar um abraço? Ela não me respondeu, apenas me abraçou e acordei. Este foi o melhor abraço que poderia ter recebido dela e reforça sempre, que um abraço bem apertado, daqueles “tipo ursão”, libera dopaminas, vitaminas, e tudo de bom para a nossa e a vida do abraçado.

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