Por que não muda

Carlos Chagas

Para onde foi o projeto “revolucionário, progressista e indispensável” anunciado segunda-feira pela presidente Dilma, na primeira reunião ministerial do ano? Com todo o respeito, foi para o espaço, virou fumaça naquele dia mesmo, quando o país tomou conhecimento de mais uma execrável tertúlia entre os partidos da base do governo, agora envolvendo PMDB e PSD pela direção-geral e diretorias do Dnocs. Porque esse foi apenas mais um capítulo da abominável novela do fatiamento da administração federal em feudos sob o comando de líderes fisiológicos. Cujo resultado envolve a corrupção, o favorecimento de empresas familiares, o superfaturamento de obras e serviços, a distribuição de comissões e propinas em troca de contratos ilegítimos.

Adianta pouco ou nada a presidente anunciar mais crédito para a produção, monitoramento on-line dos gastos e das realizações sob sua responsabilidade, eficiência e probidade dos ministros e administradores. Na verdade, a maioria dos líderes partidários não está nem aí para as boas intenções de D. Dilma. Dão de ombros para a sua rigidez e as suas broncas permanentes, porque continuam manipulando a coisa pública, a pretexto da garantia de votos no Congresso.

Trata-se de chantagem explícita, da qual a chefe do governo não consegue livrar-se. Virou sonho de noite de verão a ansiada reforma do ministério, oportunidade para ela livrar-se da carga que a sufoca. Apenas mudanças pontuais, duas ou três caso se inclua a Petrobrás na primeira linha da ação oficial.

Os malfeitos multiplicam-se mas cada partido consegue blindar seus indicados ou, como no caso dos seis ministros demitidos ao longo do ano passado, emplacar seus substitutos como se fossem proprietários absolutos dos ministérios.

Não há de ser assim que Dilma Rousseff manterá até 2014 a popularidade ironicamente conquistada até agora. Mesmo com a opinião pública percebendo estar a presidente de um lado e os partidos, de outro, logo se tornarão irrefreáveis as perguntas: “Por que não muda?” “Falta coragem?” “Determinação?” “Adiantaria alguma coisa?”

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“EU E UM OUTRO…”

Não dá para ignorar o super-hiper ego do sociólogo, que em recente entrevista ao “The Economist” afirmou que nos últimos 20 anos só existiram dois líderes no Brasil: ele e um outro. No caso, o Lula, que não personalizou.

O ex-presidente Fernando Henrique tomou a frente do movimento já unânime no Alto Tucanato, de deitar José Serra à água, como carga supérflua, e apostar na carta de marear de Aécio Neves. Não poupou o ex-governador de São Paulo, exortando-o a abrir espaço para outros, num exercício de renovação.

Estreitam-se os caminhos para José Serra tornar-se pela terceira vez candidato à presidência da República. Alguns de seus amigos mais chegados insistem para que se candidate à prefeitura paulistana, onde no mínimo poderia mandar abrir buracos na calçada do prédio onde mora FHC. Felizmente para ele, o Lula mora em São Bernardo…

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SANCIONAR PARA DEPOIS CORTAR

Uma pergunta não quer calar: por que a presidente Dilma sancionou sem cortes o Orçamento para o ano em curso se o ministro Guido Mantega anuncia um corte de pelo menos 50 bilhões, especialmente em emendas parlamentares? Seria, a Lei de Meios, mera peça de ficção? Não constituirá malvadeza alimentar a expectativa de setores e grupos variados com verbas que logo serão suprimidas? Ou existe conluio entre o Executivo e o Legislativo para dar a deputados e senadores momentos de popularidade junto às suas bases, destinando recursos para obras e serviços que, sabem eles, jamais serão realizados? Sempre poderão desculpar-se, depois, dizendo que a culpa foi do governo, cortando o que era essencial para as comunidades.

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SEM PERDER A MEMÓRIA

José Sarney será dos poucos que na próxima quarta-feira, primeiro dia de fevereiro, mesmo estando o Congresso em recesso, lembrará dos 25 anos da instalação da Assembléia Nacional Constituinte. Foi ele quem a convocou, mesmo arriscado a perder parte do poder. Justiça se faça, fez o dever de casa, cumprindo a promessa do dr. Ulisses. Sarney convocou uma comissão de juristas de alto nível para preparar anteprojeto de Constituição, que enviou aos constituintes. Estes, por empáfia ou burrice, desprezaram o texto, decidindo começar tudo do zero. Resultado: correu o ano de 1987 e só em 5 de outubro de 1988 a nova carta pode ser promulgada. Com Sarney, presidente da República, presente à cerimônia.

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