Por que o Bolsa Família desperta tanto ódio de classe?

Fátima Oliveira

Eu não tinha a dimensão do ódio de classe contra o Bolsa Família. Supunha que era apenas uma birra de conservadores contra o PT e quem criticava o Bolsa Família o fazia por rancor de classe a Lula, ou algo do gênero, jamais por ser contra pobre matar a sua fome com dinheiro público.

Idiota ingenuidade a minha! A questão não é de autoria, mas de destinatário! Os críticos esquecem que a fome não é um problema pessoal de quem passa fome, mas um problema político. E Lula assumiu que o Brasil tem o dever de cuidar de sua gente quando ela não dá conta e enquanto não dá conta por si mesma. E Dilma honra o compromisso.

Estou exausta de tanto ouvir que não há mais empregada doméstica, babá, “meninas pra criar”, braços para a lavoura e as lidas das fazendas que não são agronegócios… E que a culpa é do Bolsa Família!

Conheço muita gente que está vendendo casas de campo, médias e pequenas propriedades rurais porque simplesmente não encontra “trabalhadores braçais” nem para capinar um pátio, quanto mais para manter a postos “um moleque de mandados”, como era o costume até há pouco tempo! E o fenômeno é creditado exclusivamente ao Bolsa Família.

Esquecem a penetração massiva do capitalismo no campo que emprega, ainda que pagando uma “merreca”, com garantias trabalhistas, em serviços menos duros do que ficar 24 horas por dia à disposição dos “mandados” da casa-grande, que raramente “assina carteira”. Eis a verdade!

Esquecem que a população rural no Brasil hoje é escassa. Dados do IBGE de setembro de 2012: a população residente rural é 15% da população total do país: 195,24 milhões.

QUASE-ESCRAVIDÃO

Não há muitos braços disponíveis no campo, muito menos sobrando e clamando por um prato de comida, gente disposta a alugar sua força de trabalho por qualquer tostão, num regime de quase escravidão, além do que há outras ocupações com salários e condições trabalhistas mais atraentes do que capinar, “trabalhar de aluguel”, que em geral nem dá para comprar o “dicumê”. Dados de 2009 já informavam que 44,7% dos moradores na zona rural auferiam renda de atividades não agrícolas!

Basta juntar três pessoas de classe média que as críticas negativas ao Bolsa Família brotam como cogumelos. Após a boataria de 18 de maio, que o Bolsa Família seria extinto, esse assunto se tornou obrigatório. Fazem questão de ignorar que ele é o maior e mais importante programa antipobreza do mundo e foi copiado por 40 países – é uma “transferência condicional de renda” que objetiva combater a pobreza existente e quebrar o seu ciclo.

Atualmente, ajuda 50 milhões de brasileiros: mais de 1/4 do povo! E investe apenas 0,8% do PIB! Sem tal dinheiro, mais de 1/4 da população brasileira ainda estaria passando fome!

Mas há gente sem repertório humanitário, como as que escreveram dois tuítes que recebi: “Nunca vi tanta gente nutrida nas filas dos caixas eletrônicos para receber o Bolsa Família, até parecia fila para fazer cirurgia bariátrica”; e “Eu também nunca havia visto tanta gente rechonchuda reunida para sugar a bolsa-voto!”.

São evidências de que há gente que não se importa e até gosta de viver num mundo em que, como escreveu Josué de Castro, em Geografia da Fome (1984): “Metade da humanidade não come e a outra não dorme com medo da que não come…”.

(Artigo de O Tempo, enviado por Sergio Caldieri)

 

 

This entry was posted in Sem categoria. Bookmark the permalink.

10 thoughts on “Por que o Bolsa Família desperta tanto ódio de classe?

  1. A senhora Fátima de Oliveira poderia ter feito um artigo melhor, mais abrangente sobre o benefício do Bolsa Família e, ao mesmo tempo, suas implicações junto àqueles que a recebem.
    Indiscutivelmente se trata de uma medida governamental digna de elogios. Sensível, humana, solidária, irrepreensível.
    Impedir que pessoas passem fome é obrigação de governos democráticos, que se preocupam com a população. No entanto, tal auxílio, deveria vir acompanhado de outras medidas paralelas, que motivassem os beneficiados a saírem da condição de dependentes, de buscarem novos patamares em suas vidas.
    Por exemplo:
    Oferecimento de Escolas Técnicas para o aprendizado de algum ofício ou para aperfeiçoá-lo;
    Planejamento Familiar, de modo que a família onde o alimento se faz necessário evitasse a ter mais filhos sem a menor condição para tê-lo;
    Abertura de postos de trabalho, REMUNERANDO o trabalhador e diminuindo-lhe a quantidade de gêneros na razão direta do salário recebido;
    Bônus em reais para o cidadão que estiver trabalhando em um dos locais determinados pelo governo, que estivesse estudando em uma Escola Técnica, ter se inscrito no Planejamento Familiar, e ter colocado seus filhos na escola, até chegar a perceber proventos que eliminassem o benefício;
    Utilizar a mão de obra à disposição à construção de escolas. Com elas prontas, a possibilidade de se empregar cozinheiras, faxineiras, carpinteiros, encanadores, advindos do Bolsa Família que seriam prioritários na contratação a respeito da manutenção dos colégios.
    Enfim, colaborar à restituição da dignidade do ser humano que trabalha, estuda, cuida de seus filhos e os coloca em escolas.
    Entretanto, o benefício é pelo benefício e, lógico, com a intenção de cobrar do assistido os votos necessários às reeleições com a promessa de sua continuidade sem qualquer ônus por parte do cidadão, a não ser que permaneça na sua letargia, no seu comodismo, à espera de o governo a cada mês botar comida na sua mesa, enquanto este obtém como agradecimento o delicioso sufrágio, que o mantém à mesa de banquetes em Brasília quanto no Exterior e, aos pobres, a sua bondade representada em migalhas e sujeitos às vontades de seus governantes!
    Faltou este detalhe crucial ao artigo da srª Fátima:
    A condenação perpétua à miséria, porém alimentados, de boa fatia da população brasileira!

  2. Seja como for, o eleitor só vota se receber alguma recompensa do governo (em todos os níveis). Meu comentário enfoca outro aspecto: resaltaria também que não foi só aquela mão de obra “semi-escrava” que desapareceu. Aquele encanador (ou bombeiro), que vivia de biscates, e que constumavamos chamar para consertar um vazamento hoje está empregado em uma firma. O “up grade” foi geral.

  3. Sinto muito discordar mas em qualquer país que queira aplacar a fome de seus cidadãos se dão vales que podem ser trocados por comida e não dinheiro para se comprar, por exemplo, uma calça para uma adolescente que custa mais de R$ 300!

  4. Senhora Fátima respeito a sua posição, mas tenho o direito de discordar, não é justo a maioria dos trabalhadores acordarem às 5 horas da manhã para ir trabalhar e só voltar para casa lá pelas 19 ou 20 horas, onde só conseguem ver os seus filhos acordados nos finais de semana e o governo meter a mão (para não dizer roubar mesmo) em 27,5% de imposto de renda de seu mísero salário, dinheiro este que faz falta a família do trabalhador e sustenta as diversas bolsas. O governo mantém sim um curral eleitoral com a concessão das bolsas, aproveitando-se desses inocentes úteis; porque os pilantras governantes não oferecem emprego e educação? A senhora não acha um absurdo o bolsa reclusão onde são pagos ao marginal que assaltou, matou, estuprou a quantia de R$971,00 manter sua família,sem falar nas despesas prisionais que o estado tem com o vagabundo; o bolsa reclusão é maior do que o salário mínimo do trabalhador. Sra Fátima a senhora soube das costureiras lá no Nordeste que só aceitariam trabalhar com todos os direitos se não perdessem o bolsa família e quando lhe foram dito que era impossível, as mesmas preferiram ficar em casa recebendo a esmola. Sr Fátima vai chupar parafuso até virar prego.

  5. O programa se transformou numa jogada eleitoreira escancarada. Entendo mesmo que os que recebem merecidamente (há outros que não)a ajuda, são na verdade “confinados” , pois deverão ficar alí pra sempre. O voto precisa ser facultativo no Brasil.

  6. Particularmente sou a favor do bolsa-famíla, nome dado por Lula, para apropriar do bolsa-educação de Cristóvão Buarque e os bolsas-gás e alimentação de FHC.
    O problema é que Lula,além de se fazer passar como o autor do bolsa-família, usou-o para fins eleitoreiros.

  7. Esses programas assistencialistas, implantados por FHC e surrupiados pelo Lula de forma próxima ao estelionato, deveriam cumprir um processo evolutivo. Não é possível esmolar gorduchos e vagabundos a vida inteira. Vejam o exemplo do Paraguai. Esse País está fazendo uma verdadeira revolução nos costumes: estão extinguindo as bolsas-vale-qualquer-coisa e, no lugar dessas esmolas, estão ensinando a vagabundagem a trabalhar. Estão distribuindo máquinas e ferramentas. O indivíduo está deixando de ser um peso para a comunidade e está começando a produzir alguma coisa. Isso ajuda até na saúde, porque o estado psicológico do indivíduo evolui. O PIB do Paraguai, em breve, será maior e deverá crescer de forma sustentável. Devemos seguir de perto esse exemplo do Paraguai. Aquele País está passando por uma grande transformação, sem alarde, sem revolta, mesmo tendo sido expulso dessa porcaria do Mercosul.

  8. Enquanto elementos do Orçamento como o Fator Previdenciário indiretamente prejudicarem o TRABALHADOR para sustentarem PARIDEIRO(A) VAGABUNDO, o Bolsa Família – da forma que é conduzido – deve ser execrado com louvor.

  9. O Bolsa-família era execrado pelo PT quando ainda se chamava Bolsa-Escola. Dizia o PT que ” muitos brasileiros ainda votam com o estômago”, ao denunciar o caráter eleitoreiro da coisa. Os comunistas mais assumidos, diziam que esse tipo de “assistencialismo” tira o poder de consciência de grande parte das camadas populares – um empecilho à revolução sempre pretendida.

    Todos conhecem histórias de pessoas que não precisam, mas recebem o Bolsa Família. E o Bolsismo Petista agora criou mais uma: Bolsa Mobília pra dar uma ajudinha a quem participa do “Minha Casa”.

    De Bolsa em Bolsa, o PT vai enchendo-se de poder. Mandar alguns de seus ilustres membros promover ato de desagravo contra o STF; e vai desestabilizando os poderes da República.

    Ora, se nada disso merece ser criticado pra não dar a idéia (falsa e cinicamente introduzida no debate) de ódio de classe, então vamos assistir a tudo isso caladinhos? Nem com o tal controle social da mídia a gente vai topar o silêncio.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *