Por que o Lula saiu da casca

Carlos Chagas

Importa saber o motivo que levou o Lula a sair da casca e avançar declarações públicas sobre o mensalão, coisa que não fazia desde o início do julgamento pelo Supremo Tribunal Federal. Até então o primeiro companheiro simplesmente negava a existência do escândalo da compra de votos, afirmando ter-se tratado de distribuição de dinheiro para pagamento de dívidas de campanha, por conta do caixa dois.

Na noite de quinta-feira, numa universidade paulista, abriu o jogo. Disse que em seu governo foram criados mais instrumentos para combater a corrupção do que nos mandatos de todos os presidentes da República que o antecederam. Nas administrações petistas, acentuou, os acusados são julgados, ao contrário do governo dos tucanos, quando a prática era esconder tudo.

Demonstrando irritação, foi mais adiante, denunciando a compra de votos no Congresso por Fernando Henrique Cardoso, para aprovar a emenda da reeleição.

Por que essa mudança de estratégia? Só pode ser em função das eleições para a prefeitura de São Paulo e a possibilidade de Fernando Haddad não chegar ao segundo turno. O ex-presidente decidiu jogar todos os cacifes na rodada de fogo que se estenderá até o dia 7 de outubro. Aumentou e mais aumentará o diapasão de suas críticas ao adversário mais próximo, no caso, José Serra. Pelo jeito, deixará Celso Russomano para o segundo turno, se seu candidato chegar lá.

Parece óbvio que o julgamento do mensalão é uma das causas de Haddad não ter decolado como o PT e seu mestre imaginavam. Ainda que não se conheçam resultados de pesquisas feitas a respeito, não se duvida de que a exposição e a condenação de companheiros pela mais alta corte nacional de justiça vem funcionando como um escoadouro de votos. Não há, em São Paulo, quem desconheça ou se mantenha alheio à Ação Penal 470. Em especial quando na semana que antecede a eleição estarão sendo arcabuzados José Dirceu, José Genoíno e Delúbio Soares. Para o PT, agora vale tudo.

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AS PESQUISAS? ORA, AS PESQUISAS…

Começou o festival de baixarias. Fala-se das pesquisas, com ênfase para as eleições em São Paulo. Não se duvida da lisura do Datafolha, ainda que de outros, nem tanto. Como então entender números tão conflitantes quanto os que presumem o apoio ora a José Serra, ora a Fernando Haddad, como segundo colocado? Ou um ou outro está na frente, na tendência dos paulistanos. Fica impossível supor eleitorado tão volúvel que um dia manifeste preferências pelo tucano e no outro mude de idéia, optando pelo companheiro.

Fica ridículo culpar as metodologias dos institutos em conflito, já que no fundo a pergunta é a mesma: votará em quem?

Já se disse que pesquisa não ganha eleição, mas é preciso acrescentar, com todo cuidado e respeito, que pesquisas custam caro. São pagas. E influenciam o eleitor mais desavisado. Só no fim, apesar das exceções, os percentuais costumam aproximar-se dos votos, já que se mantidas as distorções, os clientes não voltarão nas próximas eleições.

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INJUSTIÇA FLAGRANTE

Joaquim Barbosa merece todos os elogios por sua performance como relator do processo do mensalão. Implacável, leva seu julgamento sem fazer concessões. Até atropela o voto de outros minustros para manifestar sua discordância, prática inusitada mas explicável.

Só não dá para entender a deselegante e semi-encoberta referência feita por ele ao ministro Marco Aurélio Mello, sobre nomeações ditadas pelo parentesco. Sugeriu maliciosamente que o colega havia sido indicado para a mais alta corte nacional por ser primo do então presidente Fernando Collor de Mello. Trata-se de injustiça flagrante, porque Marco Aurélio detém notável saber jurídico e reputação ilibada. Falam por ele os anos em que vem exercendo suas funções. Polêmico, às vezes até irreverente, não merecia o comentário.

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