Por que Pamplona? Por que, Pamplona?

Lucas Alvares

Fernando Pamplona, que virou verbete neste domingo (29), não foi o primeiro carnavalesco de talento. Julio Mattos, artesão autodidata do Morro do Tuiuti, fazia desfiles da Mangueira desde os anos 1940 e tinha concepções estéticas próprias, que dialogavam já naquele tempo com o kitsch e o brega e permanecem em voga na escola até hoje. O próprio Mattos, por sinal, assinou desfiles até 1989.

Clovis Bornay, museólogo, também mais antigo que Pamplona, manteve incursões periódicas pelo mundo das escolas de samba, e foram quase todas bem sucedidas no intuito de unir luxo e brasilidade em fantasias pesadas, pomposas, que traziam muito das Grandes Sociedades para o morro. Foi até campeão, ganhando de Fernando Pamplona, na Portela de 1970.

Yarema Ostrog, também artesão e hoje praticamente esquecido, trazia as formas que moldava no barro da Zona Oeste para as alegorias da Unidos da Tijuca. Ele também pensava o carnaval “tirando da cabeça o que do bolso não dava”.

Todos tinham enormes méritos. Nenhum deles, ao que parece, refletiu sobre as contribuições que legava à posteridade. Pamplona, ao contrário, preocupou-se em “fazer escola”: trouxe método ao fazer carnavalesco, programando um cronograma para cada ano, seduziu seus melhores alunos da Escola Nacional de Belas Artes – gente do quilate de uma Rosa Magalhães – para o mundo do samba e deu oportunidades a quem antes não era creditado: os bons e velhos cenógrafos, que aprendiam na prática o que faziam e sempre estiveram relegados ao fundo das coxias. Joãosinho Trinta, assistente de Pamplona no Theatro Municipal, foi o maior dos exemplos.

FOCO NO ARTISTA

Como esteta, é impossível dissociar Fernando Pamplona de uma frase que repetia aos amigos, à exaustão, sobre como deveria funcionar o cenário para uma ópera: “O cenário não pode ser espalhafatoso, não pode aparecer mais do que o artista. O foco está no artista.”, defendia. Esta percepção marcou não só o cenógrafo teatral, como também o televisivo – foi o grande responsável pelos cenários da TVE por décadas, todos discretíssimos – e carnavalesco.

Nas raras ocasiões em que assinou sozinho um desfile, como em 1978, com “Do Yorubá à Luz”, preocupou-se em trazer leveza para os foliões, com carros alegóricos pequenos e bem acabados, além de fantasias mais leves e baratas do que nos tempos de fartura do Salgueiro quando eram desenhadas por Arlindo Rodrigues, seu colega de Academia.

Nestes últimos carnavais, no fim dos anos 70, teve também o mérito de descobrir Renato Lage, seu assistente de cenografia na televisão, mais um autodidata e hoje o mais talentoso carnavalesco carioca.

Pamplona não deixa sucessor. Seu método de organizar um carnaval tem, talvez, em Laíla o seu principal seguidor. Mas Laíla não desenha. Poucos artistas foram tão completos quanto o que nos deixou, aos 87 anos, vítima de um câncer raro e que o levou em poucos meses.

Ao encontrá-lo pela última vez, no final do ano passado, abracei-o com Zeni – sua companheira há 60 anos – no Teatro Rival, no centro. Apresentei a namorada da época: “Também vou me casar com uma bailarina”. Não casei, e nem pude entrevistá-lo para a dissertação “O Rio Civilliza-Se: Memória e Esquecimento das Sociedades Carnavalescas”, que terei de apresentar em poucos meses.  O fim é indubitável, ceifa a todos os Homens e a todos as promessas, mesmo as que julgamos eternas. Mas a arte, o legado e os traços presentes nas obras dos outros, ah! Estes são imortais. Obrigado, professor. A entrevista fica para outro dia!

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One thought on “Por que Pamplona? Por que, Pamplona?

  1. não resta duvida que o mestre pamplona fez uma revolução no carnaval, mas ele sempre esteve ligado a escola que tinha uma situação financeira equilibrada, e a diferença dele para o julio mattos era que o julio desenhava os seus carros, era o carpinteiro, o cenografo, o escultor, desenhava os figurinos, e ainda colocava de seu bolso a escola que fazia. gostava do que fazia, era amante de sua arte, auto didata realmente, mas não tiro o mérito do mestre pamplona, pelo contrário serviu de inspiração para muitosd destes que hoje estão no estrelato domundo do carnaval. quero so ressaltar que julinho sempre com a sua humildade detem os maiores campeonatos sem dinheiro, e bateu em todos eles juntos no salgueiro e depois individaulamente tambem. parabéns pela reportagem, e gostaria que me mandasse mais informes sobre julio mattos, pois eu perdi muitas informações dele. eu sou seu filho, que tambem navego nesta area, e procuro seguir aqueles ensinamentos

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