Por quem os sinos dobram?

Pedro do Coutto

Com os resultados das urnas na noite de domingo confirmando plenamente as pesquisas do Ibope e Datafolha, para citar apenas dois levantamentos, ressoa no pas a voz do voto e do povo encerrando mais uma sucesso presidencial, mais uma passagem do poder de tantas que fazem a histria moderna do Brasil a que assisti desde a redemocratizao de 1945.

Naquela poca terminava o Estado Novo de 37, a ditadura de Vargas. Agora fecham-se as cortinas da era Lula e ingressamos em novo tempo, o tempo de Dilma Rousseff. Sua vitria consagrou a popularidade de Lus Incio da Silva, um metalrgico que chegou ao poder e dele sai com uma aprovao de quase 80% da opinio pblica. A vitria da ex-chefe da Casa Civil foi mais uma vitria de Lula do que dela. Mas como no h duas pessoas iguais na face da Terra, no se pode prever agora uma continuidade absoluta de um mandato para outro, de um estilo para outro. Os fatos so dinmicos, as condies e situaes de governabilidade mudam. A comear pela perspectiva, bastante provvel, de a popularidade de Dilma no se igualar de Lula. E sem opinio pblica e comunicao com a sociedade no se governa.

O ttulo deste artigo os leitores j notaram da obra clssica de Ernest Hemingway, escrita em 38, Por Quem Os Sinos Dobram?, transformado em filme de John Ford dez anos depois. Por quem os sinos dobram na vitria que o PT e o PMDB comemoram hoje? Pela esperana dos eleitores e eleitoras de receberem a sequncia de uma poltica de alguma descompresso social e de expanso do crdito que est dando acesso a uma compra maior de alimentos, bens durveis, realizao de viagens? Certamente sim. Pelo equilbrio relativo entre capital e trabalho, reduzindo as tenses e colocando sindicatos nas engrenagens do poder? Tambm isso. Da mesma forma que, no passado, Vargas, com a CLT, um tratado de vanguarda at hoje, impediu o avano do comunismo no ps-guerra no pas, Lula neutraliza o choque colocando algodo entre os cristais que separam o empresariado das classes trabalhadoras.

Ele a bem da verdade por intuio ou elaborao, conseguiu proporcionar espantosos lucros aos bancos, matriz do capitalismo, mas adicionar bem estar e principalmente esperana aos grupos de menor renda. O desemprego caiu, o salrio subiu, esta, a meu ver, a principal razo de seu prestgio, ao lado de um carisma e uma simpatia pessoal inegvel. Ele no assume o palco para amedrontar ningum. No um ator dramtico. E sim um tipo humano marcado pela naturalidade, fonte inspiradora de desempenhos magistrais de Marcello Mastroianni no cinema. Mastroianni parecia sair da tela para vir conversar conosco. Lula, na televiso, assim. Segue esta linha. Mas no representa. ele mesmo.

Os sinos dobram apenas por todas essas faces? No. Falta uma. A prpria Dilma Rousseff. Pela primeira vez no Brasil uma mulher chega ao Planalto. Porm, alm disso, ela produz, com sua vitria, um choque na histria. Pela primeira vez, no mundo, penso eu, uma ex-guerrilheira, ex-presa poltica, uma mulher jovem que sofreu torturas nas mos de carcereiros de uma ditadura militar, atinge , pelas urnas a Presidncia 40 anos depois, a Presidncia da Repblica de um pas. Os votos que recebeu encerram definitivamente e sepultam hoje os pores do arbtrio de ontem. Nas ruas, no se ouve os gritos de dor de uma pessoa, mas de entusiasmo de uma multido.

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